Chegamos ao mundo em forma de bebê. Sem entender o que acontece, onde estamos e quem somos, parece que chegamos presos a um corpo que desconhecemos. Ao sentir algum incômodo, choramos e alguém tenta reduzi-lo ou eliminá-lo.
Com o desenvolvimento do corpo, descobrimos que temos mão e pés, que podemos mexê-los, que podemos usá-los e, então, começamos a usá-los. É assim que começamos a nos mover por conta própria deixando de sermos uma criatura presa a um corpo que tem “vida própria” e conquistando autonomia e controle sobre ele.
O nosso desenvolvimento e crescimento se dá assim: aos poucos e de nós para fora. Testamos o que podemos fazer como no locomover de um lugar ao outro, que podemos usar a boca para comer, que podemos pegar objetos com as nossas mãos, que podemos andar com as nossas pernas. Então aprendemos que podemos correr, pular, dançar, falar… E assim seguimos a vida, sempre testando e descobrindo o que conseguimos ou não fazer com o nosso corpo.
Esta etapa de controle básico do corpo acontece para todos que chegam à fase adulta quando não há nenhum problema de saúde e é com este corpo que aprendemos a controla que experimentamos o mundo.
Tudo é algum tipo de estímulo ao corpo: sejam físicos como os sentidos físicos que são percebidos através do corpo diretamente, sejam emocionais que descobrimos existirem com as relações, sejam os intelectuais que se formam no cérebro, dentre outros. Tudo nos gera alguma resposta.
– Tocar em uma chaleira quente nos faz sentir a alta temperatura na pele que se contrasta com a temperatura que estava antes de tocar na chaleira e, assim, concluímos que a chaleira está quente (mais quente que o ar ao redor do dedo que tocou a chaleira).
– Ver uma pessoa bonita nos faz sentir atração e nos aproximarmos dela.
– Ouvir alguma informação nos faz pensar em algo.
Todas as nossas ideias, emoções e percepções partem de sensações que temos, das mais intensas, que são as físicas, às mais sutis. Mas tudo isso não acontece separadamente, mas ao mesmo tempo e se influenciam. Assim conseguimos imaginar uma praia bonita, temperatura agradável, sol morno e brisa suave com uma ótima água de coco se quase sentir tudo isso fisicamente apenas com a imaginação, ou seja, com a parte intelectual. Da mesma forma, podemos mudar as nossas emoções perante um estímulo se mudarmos a nossa opinião a respeito dele e isso é feito em terapias comportamentais.
O fato é que sentimos muitas coisas ao mesmo tempo e tudo se influencia. Ao comermos uma batata frita, apreciamos o sabor, a temperatura, a crocância e a maciez do alimento, mas tudo isso pode ser ainda mais estimulado com o lugar, ambiente, o clima, a companhia, o humor do dia e tudo o mais que possamos sentir. Uma batata frita deliciosa poder ser nojenta se estamos numa barraquinha de rua ao lado de um despejo de esgoto porque o ambiente e o odor geram estímulos contrários aos estímulos agradáveis que a batata frita gera.
Da mesma forma, uma refeição deliciosa como arroz, feijão, salada e bife pode se tornar pavorosa se batida no liquidificador. Ainda são os mesmos alimentos a serem ingeridos, mas a visão da comida e a sua textura mudam tanto que a transforma em asquerosa.
A vida toda é repleta de estímulos constantes, agradáveis e desagradáveis, e nós sentimos o resultado dessa soma/interação deles.
Talvez não saibamos disso de forma consciente, mas inconsciente sim. Nós nos arrumamos para um encontro para gerar uma visão de nós agradável e atrativa, vamos a lugares bonitos, arrumados e limpos, buscamos por luxos e tudo isso aumenta ainda mais o prazer do momento. Mas nos arrumar para permanecermos em nossas casas que não estão tão arrumadas e luxuosas perde o sentido porque estas não estão gerando tanto prazer quanto a nossa aparência, ou seja, é antagonista ao prazer.
Casas desarrumadas, bagunçadas, sujas, entulhadas geram uma sensação desagradável e razão pela qual buscamos, muitas vezes, sair dela. Passear em shoppings atraentes com lojas chiques ou sair para uma refeição em um restaurante elegante contracenam com este tipo de casa e justamente por conta da aparência chama atenção dos clientes.
A estética visual é um dos primeiros chamarizes que temos e por isso investimos tanto em nossa aparência assim como na aparência das nossas lojas e locais de trabalho que recebem clientes: eles se sentem bem conosco e, portanto, voltarão uma vez que o objetivo da vida é prazer como visto em Qual é o objetivo de vida?
Usamos do truque de atração para atrair o que desejamos: desde criar atração física com a beleza em nossos corpos, a atração mental com nossas ideias ou a atração emocional com as emoções que estimulamos nos outros, esta é a técnica mais bem aceita em nossas vidas, porém existe a técnica do medo, contudo, esta gera uma sensação desagradável com o outro fazendo-o buscar o afastamento de nós enquanto aquela gera ainda mais atração fazendo-o nos buscar mais. Em outras palavras, oferecer bem-estar, satisfação ou prazer ao outro faz com que ele deseje voltar para nós e, assim, reforçamos o laço e promovemos mais bem-estar ao outro e a nós mesmos uma vez que pedimos algo em troca como a compra de um produto ou serviço por exemplo.
Lojas atraentes têm mais chance de receberem mais clientes e, então, ter mais vendas. Por isso os lojistas investem tanto na estética da loja e pelo mesmo motivo buscamos sempre ficarmos bonitos e arrumados: para as pessoas gostarem de nós, nos desejarem, se aproximarem e conseguirmos obter trocas.
De desenhos e imagens, a preços e ofertas, com oferecimento de bebidas ou comidas durante a visita além de atenção de profissionais bem como estes bem arrumados e educados são formas de atrair as pessoas porque tudo isso nos gera prazer em alguma forma.
A maneira de se vender um produto não é explicando como ele funciona, mas gerando prazeres simultâneos no cliente ao apresentar o produto em si porque somos animais emotivos, não racionais. Compramos porque queremos, não porque precisamos para algo fundamental à vida.
Os bens de consumo, em grande parte, é voltado para trivialidades em comparação à sobrevivência humana, mas buscamos e adquirimos mesmo assim porque o objetivo da vida é o prazer, não a sobrevivência em si. São os prazeres que nos levam a sobreviver como o prazer de eliminar a fome, ter segurança e evitar ferimentos.
A questão é que não conseguimos ter consciência de todas as sensações que temos, apenas as mais intensas. Quando estas são sanadas, as mais sutis começam a ser percebidas e vemos isso quando uma pessoa em estado de sobrevivência que pensa apenas em alimento e segurança passa a ter abundância de ambos e começa a desejar outros prazeres que eram completamente indiferentes ao estado que se encontra anteriormente como festejar, dormir num colchão macio ou apenas descansar numa poltrona confortável.
Tudo isso é supérfluo e desnecessário quando estamos em situação de sobrevivência, mas passa a ser os nossos próximos objetivos quando temos os prazeres mais intensos satisfeitos.
É assim que a cinestesia acontece: uma mistura de sensações distintas e que podem variam com muitos fatores. A fome é um estímulo enquanto a vontade de comer é outro: a primeira nos leva a aceitar comer qualquer coisa enquanto a segunda passa a ser mais seletiva; a falta de segurança nos faz ficarmos em alertas enquanto buscamos relaxar e entretenimento quando nos sentimos seguros, o que sequer cogitamos quando estamos em perigo.
Assim como a alimentação pode nos gerar prazeres distintos ao mesmo tempo, tudo pode criar múltiplas satisfações simultâneas também e é assim que experimentamos o mundo e criamos conclusões sobre o mesmo.
Estímulos visuais, auditivos, olfativos, paladares, táteis, emocionais, intelectuais, espirituais, mentais e todos os mais que puderem nos gerar alguma sensação são captados e processados por nossos corpos e nós temos consciência do final desse processamento julgando a situação (ainda que acreditemos julgar apenas um objeto) como algo bom (agradável) ou não (desagradável).
Esta é uma das dificuldades que o ser humano tem: não conseguimos avaliar algo separadamente, sempre há diversas interações que afetam o que analisamos. Ainda que tentemos fazer isso através de métodos científicos, estamos presos ao corpo humano que possui as suas sensibilidades e limitações nos prendendo neste mundo específico de sensações que nos levam a ter ideias comuns uns aos outros (já que estamos na mesma perspectiva humana), porém, que nos prende a somente essas sensações.
Não enxergamos o vento, mas podemos senti-lo na pele e pelos ouvidos e conseguimos ver o resultado dele nos objetos como nas árvores que balançam. A nossa visão não tem sensibilidade para sentir o vento, mas isso não significa que ele não exista. Da mesma forma, talvez ele possa ser percebido por sentidos que não temos, mas justamente por não os ter nós não temos como saber.
Felizmente tecnologias são criadas e conseguem captar muitas coisas que os nossos sentidos não conseguem e transformá-las em imagens ou sons como a ultrassonografia. Não enxergamos dentro de nós, mas com a tecnologia e a tradução dos estímulos que a tecnologia capta e transforma em estímulos que conseguimos sentir como a imagem percebida pela visão, conseguimos detectar várias coisas que existem e não sabíamos até então.
A gravidade e a radiação solar são estímulos constantes e aos quais o corpo humano se desenvolveu tendo como constante. O resultado é que, se eliminarmos estes estímulos (que não vemos e aparentemente não sentimos), o corpo começa a se alterar e a ter problemas como acontece com quem sai do planeta Terra. Estes dois estímulos são importantes para os nossos corpos e as suas ausências geram alterações no corpo. Assim como o vento que não vemos, mas que existe e sentimos na pele, não enxergamos a radiação solar nem a gravidade, mas as sentimos de formas que não compreendemos porque são constantes para nós e para os nossos antepassados. Vemos as árvores se mexerem com o vento mesmo não enxergando-o e, da mesma forma, identificamos problemas quando ausência dessa radiação ou gravidade. Elas existem; sempre existiram; mesmo que não saibamos ou soubéssemos. São o vento com o qual o nosso corpo se desenvolveu e se adaptou tornando-o importante ao próprio corpo.
Da mesma maneira que as sensações físicas são percebidas como fatos por serem intensas, percebemos as sensações emocionais como fatos, no entanto, nesta parte da vida temos mais influência intelectual e emocional do que nas físicas.
Enquanto as sensações físicas são intensas e quase impossíveis de serem negadas, as emocionais são mais influenciadas do que as físicas e podem com muito mais facilidade serem alteradas uma vez que anda de mãos dadas com a parte mental de nossas vidas. Isso significa que outras emoções e ideias que temos influenciam nas emoções que sentimos o que as fazem serem menos irrefutáveis do que as sensações físicas. Ainda assim, nós acreditamos nelas como se fossem completamente reais e, como cada pessoa tem o seu próprio conjunto de ideias, emoções e outras sensações, cada uma pode ter uma sensação distinta diante de um mesmo evento, ou seja, cada pessoa pode ter uma sensação específica mesmo que outras pessoas tenham o mesmo estímulo físico porque os conjuntos de ideias e emotivos que possuem são diferentes.
Assim surge os diversos conflitos do ser humano: cada pessoa tem uma perspectiva sobre algo porque cada pessoa se sente de uma forma específica diante desse algo. Quanto mais físico e concreto for este algo, mais similar serão as sensações das pessoas como a sensação de queimadura quando se toca numa chaleira quente. Por outro lado, quando mais sutil ou abstrato se torna o objeto que se analisa (com uma ideia por exemplo), mais pessoal e emotivo é a sensação da pessoa.