O objetivo da vida é o prazer. Buscamos o prazer o tempo inteiro e por vários caminhos sensitivos diferentes numa grande cinestesia confusa e sem fim.
O prazer de sentir o chão sobre os pés, de caminhar, de trabalhar, de comprar, de conquistar, de ser conquistado, de comer, de rir, de assistir filmes, de tomar banho, de dormir…
Da base da pirâmide de Maslow até o seu topo, buscamos sempre prazer em níveis e partes diversos da vida.
É o prazer que nos motiva a continuar trabalhando, estudando, nos relacionando, vivendo. É a busca por essa sensação agradável que pode surgir de formas diversas que nos dá vontade de persistir e o resultado disso é sobrevivermos.
A busca pelo prazer corporal nos leva a agir de modo a consegui-los e o resultado disso é o aumento da expectativa de vida ou sobrevivência. É satisfazendo as necessidades básicas do corpo, ou seja, tendo prazer com tais satisfações, que sobrevivemos. Mas não paramos por aí. Não queremos apenas satisfazer essas vontades.
Quanto nós a temos, buscamos por segurança. Seja de recurso ou segurança física, buscamos por seguranças e estas, quando alcançadas, elevam a nossa taxa de sobrevivência.
Do mesmo modo buscamos a socialização. Quando inseridos em um grupo, temos como conseguir mais recursos e, assim, sobrevivermos por mais tempo. As relações que temos com os outros são anda medo do que troca em que ofertamos o que temos e recebemos o que não temos e desejamos, isto é, prazer. Pode ser prazer em tem alguém para resolver um problema, pagar uma conta, festejar com alguém, ser cuidado quando doente, se sentir importante ou quaisquer outras sensações agradáveis. O fato é que sempre buscamos por tais sensações que duram por breves momentos nos fazendo voltar a ter vontade de senti-las e, assim, reiniciando o ciclo.
Este é o modo padrão de funcionamento do ser humano. Não questionamos nem analisamos. Simplesmente vivemos assim e, por sermos assim e vermos os outros também funcionando dessa maneira, concluímos que é o normal e não questionamos o normal.
No entanto, existe a possibilidade de não sentirmos prazer por algum motivo. Talvez não consigamos tudo o que desejamos, talvez o nosso cérebro deixe de funcionar dessa maneira e não aciona as regiões certas para gerar tal satisfação. Embora tenha uma baixa probabilidade de isso ocorrer, é possível e pessoas que passam por isso são vistas como malucas justamente por serem diferentes das normais.
Este problema aparentemente insolúvel pode parecer superficialmente como sem importância, mas quando percebemos a base da vida, o que nos motiva a viver, percebemos que ele mexe justamente nesta parte tão fundamental à vida.
Se o objetivo de vida é o prazer, é o que nos motiva a viver e desejar continuarmos vivos, o que fazer quando não se sente mais prazer algum ou quando este é insuficiente para gerar uma satisfação que iniba o sistema de prazer cerebral?
A depressão do sucesso e a depressão fisiológica são problemas graves porque a pessoa perde a essência da vida: desejar permanecer viva já que nada é bom. Por ser uma situação muito distante da popularmente tida como normal e desejável, é vista como uma variação grande demais para ser aceita. Ademais, se estamos acostumados com um cérebro que funciona buscando prazer e usufruindo deste, como imaginar um cérebro diferente? É como imaginar como uma cobra percebe o mundo: não conseguimos.
Podemos imaginar nos rastejar com o corpo que temos, mas a cobra não tem braços nem pernas, tem um corpo longo e uma maneira de sentir os “cheiros” diferente de nós. Não conseguimos imaginar como é ser uma cobra, apenas como pode ser nos rastejar com o corpo e cérebro que temos.
Da mesma maneira as pessoas com cérebro normais não conseguem compreender quem tenha um cérebro diferente e não precisamos chegar neste extremo para notarmos isso.
Todos nós temos um padrão de sentimento, pensamento e comportamento e acreditamos que as outras pessoas também devam ser assim, ou parecidas com isso. Então, quando alguém reage a algo diferente de nós, achamos estranho e desconfiamos. É por conta dessa reação, que costuma ser genérica e global nas pessoas fazendo com que todas estranhem e desconfie do que lhes seja diferente ou não esperado, que imaginar um cérebro que funciona de forma diferente seja tão difícil.
O cérebro por si só não é simples. São muitas regiões que se conectam com várias outras e sofre influência de outras mais. É como se fosse um mega sistema dinâmico em que tudo impacta em tudo. Então, quando algo muda muito a ponto de gerar resultados perceptíveis no comportamento de alguém, significa que essa alteração não é simples nem pequena, mas que já alterou outras reações fisiológicas que por si ativaram regiões incomuns fazendo a pessoa agir de uma maneira estranha.
Por não vermos nem sabermos sobre o assunto, só conseguimos ver o corpo da pessoa e, então, o seu comportamento. Como este é derivado dos sentimentos e pensamentos, fica fácil deduzir que a área mental e emocional da pessoa também estão desajustadas e funcionando de uma maneira anormal.
Às vezes essa anormalidade é produtiva quando a pessoa consegue pensar ou perceber coisas que outras não conseguem e criam novas informações com tais ideias novas. Os gênios na história costumam demonstrar sinais dessa situação sendo vistos como inteligentes por pensarem fora da caixinha (como os outros), contudo, também pode acontecer da pessoa fazer tudo isso, mas sem criar nada novo que influencia na vida ou no mundo. Estas já foram chamadas de loucas, doentes mentais, pessoas com transtornos mentais e outros nomes. O fato é que o cérebro delas não funciona da maneira padrão da espécie gerando esses resultados distintos.
Um dos problemas difíceis de se enfrentar é justamente não tendo a regulação adequada do prazer na vida. Se nada satisfaz, então por que se esforçar para conseguir? Não fazer sentido algum se esforçar para conseguir o que não se deseja e todos concordam com isso. Mas quando NADA é bom, então por que fazer algo?
Das necessidades sociais à fisiológica, o prazer pode desaparecer do cérebro de acordo com o grau da depressão que é como se “desligasse” o cérebro. As funções mais vitais como dormir, acordar e bater o coração permanecem, mas a capacidade de se levantar é desligada e a pessoa experimenta uma sensação terrível como se estivesse pregada na cama. Para levantar não basta somente a vontade e a energia física, muitas vezes deprimida também, mas precisa puxar os membros pregados de modo que seja rasgados pelos pregos que não são tirados. É doloroso levantar nestas condições que não são visíveis para os demais, mas são sentidas por quem as vive.
Quando fome e saciedade se tornam iguais, não faz sentido algum se esforçar para cozinhar ou mesmo para levar o talher com o alimento até a boca. Do mesmo modo, se ficar mixado ou limpo são iguais, levantar para fazer xixi no banheiro perde o significado e a satisfação. Logo, urinar em si mesmo e permanecer no lugar é a reação mais óbvia por ser não gastar energia com o que é sensitivamente desnecessário.
Esta é a situação de alguém com um cérebro muito deprimido e que, por conta disso, não é compreendida. Enquanto as pessoas normais apenas agem de forma normal sem pensar, sem planejar, sem avaliar o quanto de energia gastam para ingerir um alimento, deglutir e engolir já que gasta-se pouco esforço (energia) e tem bastante prazer (satisfação) proporcionalmente, para a pessoa deprimida tudo isso é muito custoso e esse bem-estar não existe.
A luta pela vida fica cada vez mais acirrada conforme a gravidade da depressão. Precisa-se de cada vez mais esforço para conseguir o básico para sobreviver e, ainda assim, não se sentir satisfeito.
A satisfação não é somente um prazer, mas um descanso do desprazer. Quando sofremos por muito tempo, buscamos alívios em forma de prazeres fáceis e imediatos como quando chegamos estressados e exaustos em casa após o trabalho e queremos comer porcaria e ver televisão: pouco esforço e alta recompensa (proporcionalmente).
É por conta disso que pessoas que vivem afogadas em situações desprazerosas costumas buscar por alívios imediatos: este aliviam a sensação geral de insatisfação momentaneamente como se fosse uma trégua para depois voltar à batalha emocional. Sem resolver os conflitos, a pessoa facilmente cai na rede de sempre buscar por tais alívios num ciclo que nunca acaba.
A dor e o sofrimento cansam, a analgesia e satisfação relaxam. Todo tipo de estresse (ambiental, fisiológico, emocional, psicológico…) gera sensações desagradáveis que nos desgastam como se lutássemos por nossas vidas. Pessoas com dores têm menos tolerância e paciência justamente porque já estão sobrecarregadas de desprazer (estresse) e podemos notar que pessoas com dores fortes ou crônicas também não conseguem ter um pensamento claro. Comprometidas com o desprazer, a capacidade intelectual costuma reduzir assim como a emocional e vemos pessoas com dores precisando descansar mais do que pessoas sem todo esse peso estressante.
Tanto a dor física como a emocional consomem energia de nós. Nos recuperar de uma doença ou ferida normalmente nos faz ficar menos tolerantes e mais cansados e o mesmo vale para o sistema emocional em que o sofrimento consome demais de nós tal como uma dor no corpo.
Estudos já mostraram que essas sensações emocionais ruins são processadas como dor física pelo cérebro reforçando essa hipótese descrita. Então, se o desprazer nos consome e o prazer nos relaxa, uma pessoa sem capacidade de sentir prazer vive num estado crônico de sofrimento intenso e sem perspectiva de melhoria.
Diante desse cenário em que nada é bom e que não há esperança para fugir desse sofrimento todo, pensar em morrer passa a ser um pensamento lógico: é uma fuga para a situação atual e demonstra o desespero que a pessoa está, ou seja, a intensidade da dor dela.
Temos compaixão e empatia para com pessoas com feridas visíveis ou por situações ruins que nós já conhecemos por vive-las, mas quando vemos uma pessoa com o corpo íntegro que parece estar normal, como entender ou aceitar esse seu pensamento que vai contra a nossa natureza (normal)? Claramente ela está louca para nós com cérebros bons já que não faz sentido buscar a morte de há coisas boas na vida, mas o cérebro dela não é como o nosso e a morte é somente um pensamento lógico para fugir da dor e este comportamento de fuga da dor também é instintivo e natural, ou seja, ela ainda mantém este instinto.
O prazer pode ser a obtenção de satisfação ou a redução do desprazer. Podemos acabar com a fome ou comer um alimento agradável ao paladar. Ambos são bons, mas cada um oferece uma satisfação diferente. Quando ambos deixam ser bons assim como quaisquer outras coisas, a busca pelo prazer se torna em vão e quanto mais tempo se passa nesta situação, menos esperança se tem de que um dia isso mudará.
Com desprazer em todas as coisas, a paciência, a tolerância e a esperança vão reduzindo conforme essa realidade emocional se perpetua e quanto mais se perpetua, mais real se torna fazendo com que seja cada vez mais difícil não ser engolido por todo esse estresse.
O desespero é o último suspiro de um ser que ainda luta para sobreviver e tentar fugir da dor de estar preso a um cérebro defeituoso. Os comportamentos estranhos e extremos em busca de algum prazer aparecem e é quando costuma ficar ainda mais perigoso.
Além de buscarmos o prazer, nós somos seres oscilantes como visto em A angústia da felicidade e Felicidade, alegria ou euforia?. É a variação emocional que percebemos e usamos como “emoção”, mas a emoção em si não temos muita noção. Então, quando o cérebro passa a sentir que bom e ruins são sinônimos, a variação deixa de existir e passamos a sentir nada.
Essa sensação de vazio, de estar perdido, de não sentir nada é ainda mais angustiante e desesperadora que motiva muitas pessoas buscarem alguma sensação. QUALQUER sensação. É neste momento que a dor no corpo físico passa a ser sentida como boa porque sentir alguma coisa é melhor do que não sentir nada.
A automutilação pode aparecer nesta gravidade, mas não por questões psicológicas de merecimento, mas pelo simples fato de ainda gerar alguma sensação.
Diante de tanta dor e sofrimento, passamos a ter mais resistência a estes e aceitá-los com mais facilidade, então a sensação de dor passa a ficar reduzida bem como mais procurada. Assim a pessoa busca sentir dor com ações que a ferem bastante e que doeriam muito mais em pessoas com cérebros normais bem como a aceitar como um comportamento aceitável.
Para um cérebro normal, imagine que você quebre as duas pernas em locais diversos e alguém fale “levante, preguiçoso”. Além disso, sem remédio para dor, o desespero surge conforme a dor consome as suas energias. Agora imagina que o seu corpo não vai melhorar, que você precisa andar e trabalhar normalmente e que vai sentir essa dor pelo resto da vida. Quão angustiante essa situação parece ser? Provavelmente não chega perto do desespero de uma depressão profunda, mas é um começo para tentar entender como funciona um cérebro deprimido.