A dor é uma sensação desagradável. Quando física, denominamos de dor, quando emocional, denominamos de sofrimento, mas por serem similares, com variação do campo em que estão, são vistas como sinônimos muitas vezes.
Existe a hipótese de que a dor seja uma maneira de a pessoa sentir que há algo de errado em seu corpo e naturalmente, por instinto, evitar usar a região do corpo prejudicada como uma mãe ferida que evitamos mexer ou ter contato com objetos para não ter variação de pressão (pressionar a ferida e intensificar a dor).
Repousar o local ferido é uma maneira de evitar que se agrave tanto quanto favorecer a sua regeneração e, por meio da sensação de dor, instintivamente fazemos isso.
Além disso, somos seres dispersos e inconscientes sobre a maior parte das coisas, seja do mundo ou de nós mesmos. Nós temos a tendência de parar somente quando não aguentamos mais e nisso se encaixa a dor. Quando forte o bastante, nos impede de continuar nos exercitando bem como nos faz proteger o local ferido. Com isso, quando temos algo que esteja anormal, mas que não nos gere dor, nós ignoramos essa anormalidade até que se transforme em algo doloroso ou que nos impeça de continuar as nossas tarefas.
A falta dessa percepção faz com que muitas doenças ou feridas que se iniciem sem dor e sem prejuízo aparente em nossas vidas sejam ignoradas até se agravarem o suficiente para gerarem algum destes.
Um dia em 2018 senti o meu corpo diferente. Não sentia fome, o estômago estava esquisito e tive muitos arrotos. Claramente sintomas de algo anormal uma vez que não tinha passado por isso até então. Logo começou a surgir um incômodo no ventre direito reforçando a minha hipótese. Por conta de experiência anterior, absorvi tais sensações como sintomas de apendicite, um conhecimento que me ajudou bastante neste período em questão.
Com estas esquisitices, fui à emergência hospitalar para uma consulta e aleguei que achava que podia ser apendicite. O médico logo ridicularizou a minha hipótese ao ver que eu tinha 29 anos e os quadros de apendicites serem mais comuns em pessoas mais novas. Em minha experiência anterior, uma pessoa passou por esta situação e já tinha mais de 50 anos.
Embora exista uma faixa etária em que a doença predomina, não existe evidência alguma de que pode-se descartá-la como hipótese em outras idades.
O médico examinou a minha barriga e disse que possivelmente era um cisto no ovário. Eu rebati rapidamente visto que mantinha os exames ginecológicos em dia e nunca aparecera um cisto. Eu pedi para que ele me passasse algum exame visando descartar essa possibilidade e assim ele o fez.
O meu sangue foi coletado e horas depois estava pronto. Ao mostrar ao médico, ele olhou para mim e disse: “então…” confirmando o diagnóstico.
O exame de sangue estava quase todo normal, mas com os valores chegando ao máximo da normalidade e a proteína C reativa estava aumentada (indicava inflamação). O médico me passou um exame de imagem para ter certeza e este mostrou o início de uma apendicite.
No dia seguinte eu já estava no hospital para passar pela cirurgia e o médico que faria a operação também me avaliou fisicamente concluindo que não tinha os sintomas de apendicite. No entanto, com os exames em mãos e sabendo que quadro de apendicite não regride, ele afirmou “vamos para a cirurgia. Se você não tivesse esses exames, eu lhe liberaria para casa, mas você voltaria daqui há uns 2 dias para passar pela cirurgia. Então vamos fazer logo.”
A cirurgia foi rápida e o médico me contou que o apêndice estava começando a ficar rosa, ou seja, no início de uma apendicite, um quadro incomum de ser encontrado visto que as pessoas buscam ajuda quando estão com dor e, neste momento, a apendicite já está mais grave.
Foi a minha consciência sobre o que era normal no meu corpo que me levou a buscar ajuda antes de ficar grave e essa consciência também me ajudou em outros momentos como uma situação de ansiedade.
Depois de várias mudanças e os estresses que elas me geraram, o meu cérebro assimilou viagem com mudança e esta com estresse, assim, sempre que pensava em viagem, eu sentia estresse.
Sou bipolar (maníaca-depressiva) e por conta disso o meu cérebro alterna entre a mania (euforia e excesso de energia emocional, mental, física) e depressão (o oposto: ausência de energia emocional, mental, física).
Eu passava por um período de grande depressão e viajar em férias poderia ajudar. Contudo, com um cérebro que associava viagem com estresse, eu não consegui fazer anda para as férias.
O meu marido me ajudou a reservar hotel e comprou as passagens. Eu estava esperançosa de que seria bom, mas quando a hora de arrumar a mala chegou, tive uma ansiedade gigantesca.
Com as mãos tremendo, choro compulsivo intenso e desespero, o meu corpo travou e não conseguiu sequer tocar na mala. Com ela aberta no chão, eu chorava e tremia enquanto um enjoo embrulhava o meu estômago. Meu marido viu a minha situação e disse que podíamos não ir e ficar em casa, mas conhecendo a mim mesma e o meu corpo, identifiquei que todos estes sintomas eram do meu cérebro, não meus propriamente.
“Preciso passar por isso para provar ao meu cérebro traumatizado que essa associação não é verdadeira e farei isso com a viagem para relaxar, mas não consigo montar a mala.” Então o meu marido a montou e durante toda a viagem (sair de casa, tocar na mala para levá-la, chegar ao aeroporto, voar, pousar, chegar no hotel e dormir até o dia seguinte) eu estava ansiosa. No início mais. Quando no aeroporto, o tremor, o enjoo e o choro não pararam. Até mesmo no avião e em pleno voo o mal-estar predominava e meu marido teve a ideia de me distrair. Assistindo um filme, a ansiedade reduziu, mas não sumiu.
Precisei chegar no hotel, me instalar, passear na cidade e dormir até o dia seguinte para o meu cérebro entender que não se tratava de estresse, mas de relaxamento.
Apesar da depressão que não me largava, eu lutei todos os dias para conseguir realizar as atividades das férias. Infelizmente não consegui fazer todas, apenas a metade, mas felizmente consegui fazer alguma coisa.
Voltei das férias com um cérebro recuperado do trauma.
Tanto para dor quanto para sofrimento, somos pessoas distraídas e percebemos apenas o que nos chama atenção, ou seja, o que é intenso. Enquanto não gere problemas, levamos a vida como está até se tornar insuportável. Felizmente tenho estas duas histórias de sucesso que mostram que podemos rever as situações antes que criem ainda mais prejuízos quando temos noção do que é o nosso normal ou não.
Sendo a dor uma ferramenta que nos leva a evitar prejudicar o que já está ferido, nós temos uma sensação de normalidade na ausência dela. Contudo, dor é algo gradual, que varia de intensidade e, com a nossa perspectiva de prestar atenção no que nos incomoda muito, dores pequenas são facilmente levadas conosco ao longo de nossas vidas e até chegamos ao ponto de assimilarmos que ela é normal.
Nós nos acostumamos com várias coisas incluindo a dor como visto em A angústia da felicidade, O “eterno” normal e Por que chegamos a uma idade que paramos de conseguir acompanhar novas tecnologias?, o ser humano se acostuma cm várias coisas incluindo dores e sofrimentos.
O que é constante é percebido como normal e aceitável ou até mesmo correto ou ideal enquanto as novidades são vistas com desconfiança e medo. Assim, nós nos acostumamos com tipos de roupas, condutas e pensamentos e percebemos isso ao longo da sociedade. O que é visto como correto hoje pode ser visto como errado no passado e vice-versa.
Enquanto a população do passado acreditar estar correta com as ideias e comportamentos de sua época, fazemos o mesmo em nosso tempo e provavelmente seremos vistos como as sociedades passadas pelas sociedades futuras como visto em O louco de hoje é o sábio do futuro.
Nós conseguimos nos acostumar com relações ruins, salários pequenos, casas perigosas e vida violenta quando lidamos com isso todos os dias. Um exemplo disso é a cidade do Rio de Janeiro que sempre tem notícias sobre a violência urbana fazendo com que seja normal e aceitável pela sociedade em que vive nela.
Para essa população, estranho é a ausência de conflitos, ausência de uso de armas de fogo, segurança e tranquilidade no dia a dia. Quando isso acontece, as pessoas desse ligar entram em alerta porque há “algo diferente” e, como vimos o diferente como ameaça, facilmente sentem que há algum perigo escondido que aparecerá a qualquer momento.
Este é o poder do costume que temos: podemos nos acostumar com perigos. Felizmente, isso acontece quando sentimos que não temos outra opção, isto é, quando temos opção melhor, não cogitamos voltar aos padrões inferiores anteriores.
Mas da mesma maneira nós nos acostumamos com o que é bom como visto em A angústia da felicidade ao ponto de nos sentirmos infelizes ou insatisfeitos quando temos todas as satisfações.
Se nós nos acostumamos com o que é rotineiro, então como sabermos se não sentimos dores regularmente sem que percebamos como tal por estarmos acostumados a ela? Estamos acostumados ao corpo que temos, mas talvez haja dores crônicas ou pequenas demais para percebermos que elas existem, mas ainda assim elas estão presente sem que tenhamos consciência.
Talvez sejam singelas limitações físicas, emocionais ou psicológicas para serem notadas como dor ou sofrimento, mas que fazem parte de nós.
É uma possibilidade.