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Somos completos ou buscamos a completude?

Muitas pessoas passam anos ou mesmo a vida buscando por um amor que a completará, outras acreditam que seus parceiros sejam os responsáveis por as satisfazer, há quem busque essa sensação de completude em drogas, sexo, festas, compras ou outras atividades feitas exageradamente.

O ser humano é um animal que tem satisfações/prazeres e insatisfações/desprazeres. Quando satisfeitos, usufruímos de um bem-estar que parece nos gerar paz ou felicidade. É uma sensação de que nada falta e estamos completos, mas essa sensação não dura muito e logo nos focamos em mais metas que são a obtenção de mais prazer.

Buscamos a comida quando temos fome e nos sentimos saciados após nos alimentarmos. Por alguns minutos, nos sentimos bem, relaxados e a vida está toda no lugar, mas essa satisfação não dura muito. Sentimos necessidade de socializar, transar, beber, comer novamente, nos limpar, dormir… Então vamos atrás disso tudo.

É o desprazer que nos leva a experimentarmos a sensação de que falta algo. Em outras palavras: a sensação de que falta algo é mero resultado do que desejamos e não temos.

Após termos tal sensação, nós buscamos formas de as satisfazer. Quando são fisiológicas, são mais fáceis de serem percebidas e sanadas, mas quanto mais abstrata é, menos sabemos o que desejamos, o que buscamos, o que nos falta.

Quando a sensação é emocional, sentimos que carecemos de alguém. Na verdade, sentimos falta do bem-estar que conseguimos com outras pessoas como nos sentir importantes e queridos.

Quando a sensação é intelectual, sentimos que carecemos de informações ou conhecimento, isto é, sentimos falta da sensação de confiança que temos ao sabermos sobre algo que consideramos importante ou interessante.

Quando a sensação é pessoal, sentimos falta de meta ou experimentamos uma sensação de estarmos perdidos ou mesmo vazios e isso nada mais é do que a falta de satisfação em produzirmos e colaborarmos com os outros ou o mundo.

O fato é que carecemos de satisfações corriqueiramente e a vida é justamente a busca incessante por este bem-estar.

Conforme a pirâmide de Maslow, a base da vida humana é:

1° necessidades fisiológicas (a satisfação delas nos prove a sobrevivência);

2° busca por segurança (reduz o estado de alerta, relaxa e eleva a taxa de sobrevivência);

3° socialização (vivemos em grupos porque dividimos os trabalhos. Então temos mais chance de termos segurança e satisfações fisiológicas em conjunto).

 

Todas essas necessidades preenchem requisitos que nos leva a sobrevivermos por mais tempo, indispensável à vida e, portanto, fundamentais para nós.

Conforme conseguimos tudo isso, adentramos em uma área mais abstrata e nova que nos faz ficar confusos.

Sabemos identificar come, sono e solidão com facilidade bem como as satisfazer. Mas depois de conseguir tudo isso, o que nos resta?

Para as pessoas que vivem nestas partes da pirâmide, a perspectiva de vida é de sempre trabalhar para ter mais dessas satisfações uma vez que se esgotam rápido. No entanto, há (muitas) pessoas que possuem tudo isso e ainda sobra tempo para perceberem que isso não é tudo na vida.

Por sermos animais que buscam satisfação constante, nós focamos no que não temos e queremos e, assim, facilmente conseguimos ignorar tudo o que temos e nos focar no que não temos.

A socialização é importantíssima para o ser humano. Ela é a base da estrutura mental, psicológica e perceptiva da própria pessoa. É através da socialização que conseguimos ter noção se temos valor (para alguém), se temos qualidades (ao recebermos elogios), se somos desejáveis (bonitos ou produtivos)… e é com essas informações que criamos aos poucos a noção do que de fato somos.

A próxima fase da pirâmide é a autoestima que, como comentado, começa a se formar na socialização com os demais, portanto, ela não existe sem outras pessoas.

É nesta fase que muitos começam a experimentar a sensação de inquietude provocada por uma insatisfação que não sabem de onde vem nem como saná-la. o natural é buscarmos as satisfações no que conhecemos, então reforçamos as satisfações conhecidas comendo mais, tendo mais higiene, dormindo mais, buscando mais recursos e capital (segurança financeira) e mais socialização. Queremos mais elogios, queremos ser mais desejáveis, mais queridos, no entanto, mesmo conseguindo tudo isso, não nos sentimos completos.

Assim como a satisfação fisiológica nos impacta, mas não nos satisfaz completamente, as demais satisfações são parcialmente influenciadas pelas outras. É com um corpo sadio que conseguimos pensar em algum futuro e busca por segurança; é com a segurança que começamos a pensar em festas e socializar; e é com a socialização que entramos na próxima etapa: o nosso interior.

Por ser desconhecido, não sabemos o que é, como funciona ou o que precisamos fazer. Nós simplesmente buscamos satisfazer essas “novas” (sempre estiveram aí, mas não eram percebidas) através de mais elogios e admiração proveniente dos outros, mais amigos e notoriedade.

É nesta parte que muitas pessoas se sentem com buracos, vazios, carências ou incompletas. E de fato estão.

Assim como um bebê que não sabe nem consegue cuidar de si mesmo e espera que alguém faça por ele, as mentes imaturas continuam a imaginar que a vida seja assim e é com essa mentalidade infantil que criam a ideia de que alguém (como uma mãe para um bebê) satisfá-las-á.

Ideias românticas surgem assim sendo nada menos do que a troca de relacionamento de mãe para outra pessoa de modo que a pessoa em si ainda possua algum controle sobre si.

Enquanto a mãe (entenda-se por cuidador) faz tudo pelo bebê e aos poucos vai fazendo menos conforme ele cresce e consegue fazer por si mesmo, a idealização da relação romântica por muitos é justamente essa mãe, mas no nível emocional. A pessoa consegue nutrir as suas 3 primeiras fases da pirâmide, mas acredita que alguém deva preencher a próxima assim como uma mãe que não dá mais banho no filho, mas ainda cozinha para ele.

O pensamento simplista também colabora para essa criação uma vez que é mais fácil imaginar uma pessoa que nos serve em tudo o que julgamos faltar em nós do que imaginar que precisamos de várias e que para cada relação temos de oferecer algo que o outro deseja, ou seja, imaginar a satisfação com apenas uma relação é muito mais fácil do que imaginar precisar de várias.

O próprio relacionamento (de qualquer tipo) é uma troca entre as pessoas envolvidas, portanto, quanto mais relacionamentos temos, mais trocas temos o que significa que para cada pessoa com quem nos relacionamos precisamos ofertar o que ela deseja para ela nos dar o que queremos. Assim, precisamos não apenas de muitas relações, mas de relações diferentes e tudo isso consome muito do cérebro humano.

Ficamos sobrecarregados com muitas informações. Como cada pessoa é um conjunto inteiro de informações de como é, pensa, sente, se expressa, buscar, oferta e etc., lidar com muitas pessoas é exaustivo.

Há quem tenha maior aptidão para isso e quem tenha menos, ainda assim, temos um limite de com quantas pessoas conseguimos nos relacionar.

A insatisfação nos leva a buscar a satisfação, mas quando não sabemos qual é a insatisfação, ficamos confusos. Sentimos que não estamos satisfeitos, mas não sabemos o porquê nem o que nos falta.

Uma pessoa que está fisiologicamente satisfeita entra no mundo da busca por segurança. Sem saber o que buscar propriamente, tentar ter mais alimento e outras satisfações físicas parece ser a meta, mas a insatisfação continuará até ela entender que precisa de segurança.

O mesmo vale para esta: quando sentimos segurança e a nossa fisiologia está satisfeita, sentimos um vazio, uma insatisfação desconhecida que percebemos quando nos relacionamos com outras pessoas. O bem-estar e a satisfação nos preenchem e passamos a perceber que precisamos de outras pessoas, momento em que valorizamos as festas e reuniões.

O mesmo acontece com as demais etapas. Sem muita consciência da 4º etapa da pirâmide nem como funciona a dinâmica social por inteiro, nós buscamos satisfações nas relações. Queremos sentir-nos bem e isso acontece quando temos boas relações, mas, ainda assim, falta algo e este algo é a própria perspectiva de si.

A autoestima, criada pelo pensamento e julgamento que temos por nós mesmos e pelas relações com outras pessoas, é a quarta etapa. Com parte dela senda satisfeita com a etapa anterior (como sempre acontece) e esta sendo conhecida, nós a buscamos mais e mais até um dia percebermos que precisamos de nós mesmos para nós mesmos.

Ao nos satisfazermos emocionalmente, nós sentimos satisfação novamente. Uma sensação de completude, de plenitude e de que tudo está no lugar certo… até avançarmos para a próxima etapa.

A 5° etapa também é nutrida pela 4° já que todas as etapas são nutridas pelas anteriores, e é ainda mais voltada para a própria pessoa. Neste momento, ela sente satisfação pessoal com a sua produtividade e colaboração com o mundo.

As primeiras etapas, que são voltadas à sobrevivência do corpo físico, geram uma perspectiva animalesca, imediatista e voltada para o exterior uma vez que a pessoa precisa de recursos externos como alimentos para sobreviver.

Conforme subimos na pirâmide, a nossa perspectiva muda com a chave de virada na etapa 4, quando deixamos de hipervalorizar o externo e começar a valorizar o interno (emoções e pensamentos).

Os sentimentos ganham mais notoriedade nesta fase e a perspectiva muda se tornando mais introspectiva. Passamos a querer saber mais sobre nós, sobre o que desejamos, sobre o que buscamos, e depois subimos mais um degrau para a 5° etapa em que não nos basta apenas sabermos quem somos, precisamos fazer e mostrar quem somos com a nossa colaboração.

Enquanto estamos nas etapas 1, 2 e 3, nós sentimos que precisamos de algo do mundo fora de nós para nos satisfazer, mas esse modelo de pensamento não funciona na etapa 4 e 5 e muitas pessoas ficam confusas.

Elas estão emocionalmente na etapa 3, mas materialmente na etapa 4 uma vez que já possuem as anteriores. Então ainda têm a mentalidade de alguém que busca a satisfação física, segurança e relações, porém já possui tudo isso.

No final das contas, somos completos?

Para acreditarmos que estamos incompletos precisamos saber o que é estar completo, mas nos não sabemos. Não sabemos tudo o que precisamos para nos sentir completos e, mesmo que saibamos, isso muda de acordo com a situação em que estamos.

Se estamos exaustos e cheio de dores no corpo, o descanso físico é o que precisamos para sentir essa completude. Mas no dia seguinte, após todo o descanso necessário, podemos sentir que precisamos de alguém ou de alguma coisa. Será que alguém faminto pode ser considerado como incompleto? Alguém ameaçado se sente incompleto? Alguém com toda o apoio social pode se sentir incompleto?

Podemos nos sentir incompletos quando nos falta algo e temos todo o resto. Podemos ser pessoas incompletas quando famintas e completas quando comemos. Se a ideia de completude é essa, então sim, podemos ESTAR incompletos, mas isso significa apenas uma insatisfação.

A sensação de que alguém possa nos completar é típica de uma pessoa com mentalidade presa nas 3 primeiras etapas da pirâmide, mas materialmente na 4° etapa por já possuir as anteriores satisfeitas.

Enquanto uma pessoa pode se sentir assim, outra, com uma mentalidade mais desenvolvida, pode se sentir simplesmente insatisfeita e saiba que precisa buscar algo, mas que não será alguém que completá-la-á.

A sensação de vazio é a sensação de ausência de satisfação consigo mesmo, não é à toa que pessoas que estão nas 3 primeiras etapas não a sentem. Elas estão ocupadas demais buscando satisfazer necessidades mais intensas.

O vazio não é a falta de alguém. Alguém pode fazer companhia e distrair dessa sensação, mas não a curar. O vazio é a ausência de satisfação pessoal, por isso nenhuma outra pessoa pode resolvê-lo por nós.

O ser humano pode ser visto como um ser completo. Ter vontades e necessidades não significa que tenhamos buracos a serem preenchidos, mas que estamos num universo dinâmico, oscilando entre satisfação e insatisfação, alegria e tristeza, conquistas e derrotas, sucesso de fracassos, fome e saciedade.

Nós ficamos/nos sentimos incompletos quando insatisfeitos e a insatisfação sempre voltará para as nossas vidas porque a oscilação, a dinâmica e troca entre nós, os outros e o meio em que estamos não apenas é permanente, mas fundamental.

É por conta da troca que criamos e mantemos relações, criamos povos e nutrimos sociedades. É por conta das trocas que adquirimos o que desejamos e ofertamos o que temos. É a troca entre o que temos dentro de nós que colocamos para fora que mudamos o meio e o meio nos muda quando o consumimos numa outra troca.

Sentir-nos incompletos é normal e desejável. Uma pessoa sem carência é uma pessoa que não busca nada, fica estática, inanimada, tal como um objeto.

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