A vida é feita de momentos distintos e épocas diferentes. Às vezes mais rápida, à vezes mais lenta; às vezes com muito trabalho, às vezes com pouco; rodeado de gente e solitária…
A vida é feita de fases e cada uma delas tem as suas particularidades. Algumas fases duram décadas ou uma vida inteira, mas podem ter uma duração de dias, meses ou anos. Às vezes até de horas.
O desejo é a vontade de sentir algum prazer. Dos prazeres fisiológicos, sociais, mentais ou emocionais, sempre buscamos por satisfação e é isso que nos guia na vida como visto em Qual é o objetivo da vida.
A ausência de desejo é uma condenação mortal que costuma aparecer numa depressão. Sem satisfação alguma, como imaginar que algo possa ser prazeroso e o desejar? Enquanto um cérebro normal vive com a variação entre satisfação e desejo, o cérebro deprimido enfrenta a dificuldade mais básica e indispensável na vida que é a satisfação em se estar vivo.
Quando não gostamos de nada, não desejamos nada. Seja um prazer ou a redução de um desprazer, essas são as emoções que nos motivam a viver. A fome nos leva a desejar comer, o cansaço nos faz querer dormir, a solidão nos leva a buscar por pessoas…. ou buscamos o prazer em si: uma comida saborosa, uma cama confortável ou pessoas que nos fazem bem. Já no cérebro deprimido, fome e saciedade se tornam sinônimos, então passar fome ou não é sentido como igual, portanto, por que se esforçar em comer? Em cozinhar? Em comprar comida? em trabalhar? e qual o resultado de reagia a essa falta de desejo? A morte por inanição já que a pessoa não gastará as suas energias para fazer algo que não lhe satisfaz nada.
Quanto mais fome temos, mais coisas desejamos comer e, quanto menos fome, menos pensamos do que comer. Existe essa relação direta entre os nossos desejos e as nossas carências: quanto mais temos desta, maior é esse.
Assim chegamos ao ponto de falar “eu comeria um boi” numa forma metafórica de demonstrar que estamos famintos ao ponto de imaginarmos tal cena, mesmo sabendo ser impossível. O fato é que desejamos tanto comer por conta da intensidade da fome que não imaginamos comer uma pequena porção ou comidas leves. Desejamos os pratos que satisfazem mais às necessidades associadas à fome como valor nutricional e índice glicêmico assim como a facilidade de absorção alimentar da comida.
Não pensamos conscientemente sobre isso, mas é comum haver uma correlação entre tudo isso. Quanto mais fome temos, menos pacientes somos para cozinhar ou buscar por refeições mais nutritivas e ideais e mais queremos alimentos que elevem a nossa taxa de glicose rapidamente, que possua alto valor calórico e que sejam rapidamente preparadas. Depois de comer bastante, passamos para o extremo oposto: não suportamos sequer falar ou imaginar mais comida e esta oscilação não está presente somente na parte alimentar ou fisiológica, mas nas demais partes do ser humano.
Uma vida tranquila e estável por muito tempo gera tédio. A ausência de estímulos que nos agitem nos deprime tanto quanto uma vida agitada permanentemente nos deixa estressados. Precisamos de agitação, mas de lerdeza também. Precisamos nos mover, mas nos recolher e descansar e quanto mais fazemos um, mais precisamos do outro porque é essa oscilação que equilibra o nosso sistema. É a maneira que temos de evitar naturalmente os prejuízos causados pelos extremos.
Para uma pessoa que trabalha muito fisicamente, o descanso corporal é um sonho porque é muito desejado. Quanto mais se trabalha, mais precisa e quer descanso. Horas de sono ou de relaxado num sofá por exemplo são os ideais de quem possui muita atividade física em sua vida.
Já para uma pessoa que usa muito do seu intelecto, o descanso é justamente o relaxamento mental e, para isso, não basta dormir, mas fazer atividades que não exigem as suas habilidades intelectuais, logo, atividades físicas sem essa cobrança são formas de relaxar essa mente.
Para quem vive com o coração, com emoções intensas ou à flor da pele, a tranquilidade e estabilidade emocional é a maneira de descansar.
Por outro lado, ficar muito tempo descansando (cada um de acordo com o seu cansaço) faz a pessoa ir para o outro extremo e experimentar a ausência do estímulo e isso gera a depressão.
O tal do burnout é justamente o excesso e pode existir para os dois extremos, tanto para o estresse de trabalhar em demasia quanto para quem tem falta de trabalho. Enquanto o primeiro gera uma sensação de afogamento em que a pessoa tem mais coisas para fazer do que consegue dar conta, no burnout oposto a pessoa se depara com o vazio de não ter um objetivo na vida já que este costuma surgir no trabalho. Como quaisquer extremos, ambos são prejudiciais.
Assim, para um intelectual, a ausência de desafios intelectuais é o tédio que é bem-vindo por breve momento como descanso, mas a sua eternidade é uma tortura sem fim e para quem vive com o coração, a ausência de emoções intensas ou mesmo violentas, a constância ou sutilidade são o descanso após o temporal. No entanto, um descanso eterno é pior que a morte.
Somos seres que oscilam e precisamos disso para funcionarmos porque o nosso corpo não sabe lidar com a constância de forma produtiva. Buscamos descanso quando ficamos cansados, mas queremos agitação e vida quando estamos bem. Oscilamos entre a agitação e calmaria, felicidade e angústia, alegria e tristeza, amor e ódio, acordado e dormindo, fome e saciedade…. quando temos muito de um, buscamos o outro e vice-versa.
Quando estamos extenuados, desejamos o oposto na mesma intensidade, então, se temos uma vida inteira de estresse, queremos outra todinha sem ele. Mas, quando isso acontece, sofremos com a depressão de se viver constantemente com os mesmos estímulos e sem oscilação.
Cansamos de dormir, passamos mal de comer, vomitamos se bebemos muito, adoecemos se festejamos demais… Tudo em excesso causa prejuízo, mas quando estamos num extremo, não conseguimos pensar e analisar o outro, apenas buscamos a satisfação para aliviar as nossas dores e criamos ideias tão intensas quando as nossas emoções e as proferimos como se fossem literais, mas são meras metáforas que mostram a intensidade da nossa dor a partir da intensidade do nosso desejo.
Para quem tem uma vida ou grande parte dela afogada em trabalho e demandas que não têm trégua, o paraíso que se sonha é justamente o oposto na mesma intensidade, então a ideia de céu para tais pessoas é um lugar onde não precisam fazer nada, apenas descansar. Contudo, tudo que é permanente cansa.
A tranquilidade eterna mata.
O trabalho eterno também.