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O prazer da dor no humor

O ser humano é dotado de muitas características e é uma cinestesia complexa de muitos fatores e influências. Há quem goste de comer, quem goste de malhar, de fazer nada… Mas há quem goste de atividades que são popularmente vistas como ruins tal como trabalhar ou estudar.

Reconhecemos que precisamos trabalhar para gerar riqueza em forma monetária para trocá-la pela riqueza que desejamos consumir ou usufruir como comida, internet, roupas, calçados, passeios, internet, eletricidade e outros. Sem conseguirmos criar tudo isso por nós mesmos, compramos de que quem esteja disposto a vender trocando a nossa riqueza monetária pelo item ou serviço.

Da mesma maneira que há pessoas que apreciem o que é popularmente tido como desagradável, há quem aprecie dor e sofrimento em outras áreas da vida como visto em Dor.

A automutilação e a ruminação de pensamentos negativos são exemplos de como a dor gera prazer. Se gera somente dor, por que alguém as faria? Como visto em Qual é o objetivo da vida? e Objetivo natural da vida, buscamos sempre o prazer mesmo que precisemos passar por desprazer para chegar ao prazer.

O próprio trabalho, como desprazer para muitas pessoas, é uma ferramenta para alcançar o prazer de receber um salário e usar este ao bel-prazer. Da mesma maneira, outras dores ou sofrimentos são maneiras para que alguém alcance algum nível de satisfação seja física, emocional, mental ou outra.

Por sermos uma cinestesia, trocamos de sensações assim como as diferentes energias na física podem ser transmutadas em outras. A energia mecânica pode ser transformada em energia térmica ou mesmo em energia elétrica como nas usinas eólicas ou quando passamos um pente muitas vezes no cabelo e ele fica carregado eletricamente. É com essa transformação de um tipo de sentido em outro que experimentamos a vida: uma mistura de cores, texturas, sabores, cheiros, emoções e pensamentos em que tudo isso estimula outros sentidos de forma a excitá-los ou inibi-los.

É com essa ferramenta corporal que trocamos boas lembranças visuais (memórias) em sentimentos bons relacionados ao evento lembrado; trocamos ruminações contra uma pessoa em sentimento de que estamos certos elevando a nossa confiança; trocamos a dor física em prazer mental quando temos associações positivas com algumas dores…

Muitas pessoas gostam de pimenta na comida alegando que a “ardidinha” é boa. A pimenta não é salgada. Ela estimula receptores de dor na língua e é essa a sensação de “arder”, em outras palavras, a pessoa aprecia essa dor específica na língua e, por ser muito comum este gosto, não é tabu nem é visto como estranho ou anormal.

A percepção de normalidade envolve o nosso conhecimento sobre o que costuma acontecer bem como o gosto popular da sociedade. Então, se temos muitas pessoas afirmando que algo seja comum, nós absorvemos como se fosse comum; se vemos muitas pessoas agindo de uma forma, acreditamos que seja a correta; se vivemos em um lugar em que algumas crenças são divulgadas amplamente, nós achamos que são normais.

É por conta dessa nossa ideia do que é ser normal que a sociedade varia. Mudamos de ideia e, quando vemos outras pessoas concordamos conosco, acreditamos que estamos certos porque ter apoio é sentido como “mais pessoas concordam” e, se muitas pessoas concordam, então é normal.

Há tempos a escravidão era normal. Muitas pessoas concordavam com essa organização social e em várias culturas, sociedades e épocas a escravidão foi usada como modo de socialização. Para quem vive no Brasil, a ideia de escravidão está associada ao uso de negros como sociedade escravizada, porém, os negros que aqui chegaram como tais foram escravizados por outros negros. Os imigrantes que iam à África compravam os escravos de seus donos (negros) e os traziam para cá. Sem julgar o que é certo ou errado atualmente, o fato é que esta maneira de organizar a sociedade existiu, mas não foi só no Brasil.

Desde a Suméria, há mais de 3000 anos atrás até os dias atuais, a prática existiu e existe, embora a nomenclatura seja alterava eventualmente para tentar reduzir a carga emocional que a palavra escravidão carrega.

Gregos, indianos, coreanos, chineses, cristãos, mulheres, crianças, brancas, negros, brancos, pardos, amarelos, vermelhos… A escravidão não tem gênero, cor, idade ou local. Todas essas características são usadas para criar ideias de quais populações devem ser escravizadas ou não bem como alimentar a estrutura social existente já que tendemos a aceitar o que existe por ser mais fácil do que criar um aglomerado e lutar contra um sistema de gestão social.

Enquanto no Brasil em pleno século 21 a ideia popular de escravidão seja vista como ruim, muitos outros lugares a praticam rotineiramente como modelo de vida social tido como normal, isto é, somente o fato de muitas pessoas acreditarem ser normal faz com que acreditemos também independentemente do assunto ou opinião em si e isso pode ser melhor compreendido em Criamos preconceitos para tentar diminuir um preconceito específico.

O mesmo vale para a dor: tida genericamente como uma sensação ruim, tentamos evitá-la, no entanto, a dor provocada pela pimenta é popular e, por isso, não é vista como ruim na categoria dor, mas como um tempero já que temperos são bem-vistos na culinária.

Essa simples troca de palavra cria uma distorção da realidade e é muito usada pelo ser humano em diversas áreas da vida, mas sempre para criar uma sensação prazerosa à pessoa que a faz como visto em O desejo saciado por terceiros: mudança de gênero nas palavras. É assim que pimenta não é vista como ruim, nociva ou dolorosa, mesmo que o fato seja de provocar dor.

Há quem goste de arranhões, puxões, locais vaporosos ou ferventes e tudo isso gera lesão ao corpo configurando uma agressão ou dor neste. No entanto, nem todos possuem a mesma sensação diante do mesmo estímulo. Enquanto alguém pode adorar ser arranhado até sangrar e não suportar pimenta, outra pessoa pode gostar de receber tapas e achar um absurdo quem não goste de pimenta e quando há uma maioria que goste de um tipo de dor específica, esta se torna normal e, tendo no conceito de normal algo que não dói, então esta dor apreciada popularmente deixa de ser vista como dor.

No campo sexual isso fica mais evidente por conta das mudanças fisiológicas que acontece no corpo durante o estímulo sexual constante.

As ideias do BDMS vem de palavras em inglês, sendo um acrónimo para a expressão Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo, significando que pode rolar algum tipo de agressão, como por exemplo tapas, e isso gerar prazer sexual aos envolvidos.

Por um período não muito longe, justamente por se tratar de dor, era visto como um distúrbio ou transtorno mental uma vez que dor não é vista de forma positiva nem produtiva à humanidade. Como entendemos dor como algo ruim, perigoso ou danoso, concluímos que o normal seja evitá-la, não a apreciar. No entanto, talvez por muitas pessoas apreciarem tais práticas que geram dor, as ideias BDMS deixaram de ser vistas como erradas e passaram a ser mais aceitas.

Seguindo o ritmo da sociedade em que algo surge como estranho e começa a ter seguidores ou adeptos até ser visto como normal, as práticas BDMS podem futuramente (não muito distante) serem vistas como normais e aceitáveis. Atualmente ela se enquadra em estranha para quem desconhece ou não gosta, mas já não é tão vista como algo errado.

Em alguns lugares como na Turquia, se tatuar também é visto como uma ação contra a própria pessoa. A pessoa desejar marcar o seu corpo e usar de ferramentas que causam dor (agulhas) para isso é visto como algum tipo de distúrbio mental uma vez que dor não é vista como boa. Então uma bateria de exames e testes para averiguar a capacidade mental da pessoa é feito visando identificar alguma anormalidade.

Da mesma maneira que há quem sinta prazer com o que aparentemente causa dor, há quem sinta satisfação com um determinado sofrimento e, se este sofrimento é amplamente aceito como forma de satisfação, ele é divulgado e comentado sem vergonha.

Neste ponto podemos perceber que há pessoas que apreciam contar as suas injúrias, injustiças e sofrimentos aos outros sendo um exemplo claro de como elas se sentem realizadas (de alguma forma) em o fazer.

Da mesma forma que temos dor e prazer, satisfação e sofrimento, também temos o riso e o choro, a graça e tédio e é nesta área que o humor se enquadra.

Quando se trata de dor na vida sexual, é facilmente escondido; quando se trata de dor popularmente apreciável, é facilmente percebido como algo bom; quando se trata de uma sensação ruim perante uma ideia, nós a evitamos, às vezes sentimos ranço e até criamos legislação que proíba o tema; mas quando existe uma ideia que gera essa sensação ruim (uma espécie de dor) e rimos, encontramos a dor no humor e se a dor pode gerar prazer em outras áreas, por que não no humor também?

Da mesma maneira que há pessoas que não suportam sequer as ideias BDMS ou imaginar uma pimenta ou um arranhão forte em sua pele, há quem não goste dessa sensação ruim na área intelectual ou emocional e reaja de forma a se afastar rapidamente dela.

Além disso, como buscamos por pessoas similares para nos apoiar e aumentar o nosso grupo divulgando as nossas ideias de modo a transformá-las em normais por conta de sua popularização, então há quem não goste de determinada ideia e busque por grupos com a mesma opinião visando transformar tal ideia na aberração popular que a própria pessoa acredita ser por conta de sua sensação em relação a ela.

Assim chegamos às ironias que podem ser sentidas como engraçadas (o prazer da graça na dor do absurdo) ou sentidas com o maior nojo possível.

Se as pessoas são livres para praticar o sexo e suas práticas do jeito que gostam e comer tanta pimenta quanto desejam, por que o mesmo não se pode acontecer no campo das ideias?

Claro que pode. Quando contamos uma piada asquerosa para uma pessoa que curte tais piadas, essa pessoa vai rir e achar graça, no entanto, quando contamos a mesma piada para quem não gosta deste tipo de ideia, esta pessoa sentir-se-á incomodada e até mesmo agredida. Esta prática de impor o seu tipo de humor ou a sua piada a quem não gosta da mesma é o mesmo que forçar uma pessoa que não suporta pimenta a consumi-la e quem não curte chicote a ser chicoteado no sexo.

A imposição nada mais é do que fazer com que alguém tenha de fazer algo que não goste e que não vai gerar sensação boa em nenhum outro momento e piadas ruins estão nesta categoria.

A pergunta é: se somos livres para ler e ouvir o que desejamos, por que buscarmos por piadas que não gostamos, por ideias que odiamos ou por pessoas que não suportamos? Simples: paixão.

A paixão, diferente do que se imagina (paixão romântica), é uma obsessão em que a pessoa fica obcecada por uma pessoa, uma ideia, um sentimento, uma sensação, alguma coisa. Sendo assim, pessoas que vivem procurando discórdias, raiva, ódio e sensações fins são pessoas que são obcecadas por tais sensações.

E por que isso acontece se a sensação é ruim? Como visto acima, uma dor pode gerar prazer e isso acontece no campo emocional e intelectual também, então a pessoa pode sentir algum tipo de satisfação em odiar, humilhar, reclamar, em se sentir certo, criticar, se sentir seguro em suas crenças…

Essas pessoas apreciam agir de tal maneira e sentir tais emoções, então por que a opinião delas tem alguma relevância para aquelas que apreciam diretamente o conteúdo que elas criticam?

Enquanto pessoas que apreciam o humor ácido (dor intelectual) apenas o aprecia, quem busca uma satisfação indireta precisa da segunda parte (reclamar, julgar, criticar, humilhar) que nada mais é do que o sadismo intelectual ao outro, ou seja, elas apreciam provoca dor ao outro através de suas críticas, humilhações, julgamentos e etc.

Quando o piadista aprecia tal resultado, é um masoquista que aprecia a dor em si causado por outro enquanto aquele que faz o ataque é o sádico que se satisfaz com a dor do outro.

Entre quatro paredes isso pode funcionar e ficar guardado para a dupla como acontece com muitas pessoas, o problema é que a dor que se deseja provocar ao piadista é uma dor moral, social ou emocional e, para que ela aconteça, é necessário haver público, então fazer tudo isso para afetar o piadista em particular/privada não é satisfatório.

Portanto, para os viciados em reclamações, críticas e humilhações, manter tudo isso para si ou guardado na privacidade da relação é insuficiente. Talvez possamos vê-los como pessoas exibicionistas sexuais que apreciam serem vistas sexualmente por outras e que o sexo particular seja desinteressante. Ainda assim, ela deve procurar quem a deseja ver em tal situação em vez de forçar quem não deseja vê-la assim a assisti-la e, com isso, entramos na ideia das bolhas ou comunidades em que pessoas com interesses semelhantes se unem para criticar o mesmo objeto de paixão.

A questão é que por conta da facilidade de divulgação de ideias e com muitas pessoas com essa tara por falar mal dos outros, as críticas são rapidamente viralizadas e replicadas alcançando as pessoas que não concordam com tal opinião ou que não desejam este mesmo objetivo de inferiorizar o outro. Ademais, tem a própria pessoa objeto da paixão que recebe essa carga de quem não deseja pelo simples fato de que as pessoas que a odeiam queiram se impor sobre elas. Talvez possa ser visto como um estupro emocional já que o piadista não busca essas pessoas, nem as suas ações, não quer proximidade, não gosta do assunto e, ainda assim, acaba por ser “obrigado” a receber tudo isso por não ter outra opção.

Com este comportamento humano sendo normal devido às proporções que alcança, muitas pessoas são alvos de tal comportamento em massa que, se for analiticamente observado, não tem sentido algum para quem busca uma sociedade ou uma vida melhor uma vez que fere o outro.

Este comportamento de jogar os sentimentos ruins sobre os outros é uma maneira primitiva e infantil que o ser humano tem de lidar com as emoções que não gosta e é melhor explicado em Homo sapiens primitivo atual. Sem saber o que fazer e se sentindo afogado por essa terrível sensação, o indivíduo busca colocar para fora e tal como um objeto que é arremessado contra uma parede e quebra sofrendo os danos de quem realmente sofre, a pessoa que recebe todo esse ódio é o jarro arremessado, no entanto, por não quebrar de forma visível tal com o jarro, a sociedade não enxerga essa “quebra” e, então, julga que ela não existe.

Crianças culpam os objetos por estarem em sua frente e “as machucarem” quando claramente é impossível por serem inertes ou premeditáveis , mas no campo emocional, onde os sentidos físicos não são ativados, temos dificuldade de perceber. Não percebemos apenas o que fere ou não, mas como, quando, com quem. Veja mais em Intelecto emocional.

O campo emocional é muito abstrato e pouco conhecido. Reagimos a ele tal como um animal selvagem reage aos seus instintos: apenas reagem sem análise, pensamento ou planejamento, no entanto, suas ações causam resultados que afetam outras partes do corpo. Então, reagir emocionalmente sem entender o que faz é o mesmo que um animal sem consciência que apenas segue o seu instinto e, com essa análise, podemos cogitar algumas perguntas?

Será que a natureza e os seus animais vivem bem como imaginamos? Veja mais em Natureza: boa ou ruim?

Será que somos muito diferentes dos animais? Veja mais em Somos tão diferentes dos outros bichos?, Raciocínio inconsciente.

Será que viver baseado no instinto é bom como alega-se ser para os (outros) animais? Veja mais em Somos bichos inconscientes agindo por instinto.

Temos mais consciência do que os outros animais? Veja mais em A presunção da consciência.

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