Temos a tendência de acreditar que nossos desejos não sejam apenas reais e fatos, mas que são possíveis e uma forma para isso é acreditar que um dia foram reais.
A idealização do passado é uma ferramenta comum no ser humano e nós a usamos regularmente mesmo tendo disponíveis dados históricos que a nega. Imaginar que as pessoas eram boas, gentis e felizes com uma vida com menos curas e tratamentos, menos direitos e liberdades, menos respeito e opções são idealizações do passado que costumamos ouvir ou mesmo fazer.
Quem nunca ouviu ou disse “na minha época era melhor”? O que era melhor? Como visto em O passado era melhor?, Passado X presente: o passado era melhor?, Nostalgia de um passado inexistente, Acreditamos em nossos desejos como se fossem fatos, Acreditamos em nossos desejos como se fossem fatos – Continuação, usamos da imaginação para construir cenários e ideias e a usamos para criar o que nos satisfaz.
Idealizar o passado é uma forma de criarmos uma situação agradável na cabeça através da imaginação. Ademais, usamos desse recurso mental para alimentar a esperança, indispensável à vida uma vez que nos motiva a viver.
Idealizar algo e imaginar ter sido real são coisas diferentes. Enquanto a idealização vive num campo inconsciente de impossibilidade atual e instantânea, a idealização do passado alimenta a esperança já que sentimos como “se já existiu ou foi assim, então é possível fazê-lo novamente”.
As mentes mais prudentes percebem a diferença e notam que a idealização deve ser buscada, porém deve ser atualizada de acordo com as possibilidades existentes no presente. Então cria-se um ideal passível de ser criado e é assim que criamos tudo o que já foi, é e será criado. Mas as mentes que se alimentam de esperança e carecem de percepção lógica ou possui alto grau de ignorância da realidade são mentes sedentas por esperança e normalmente estão presentes em indivíduos carentes de habilidades próprias. Isso significa que a pessoa não consegue criar a realidade que deseja viver, então lhe resta imaginar que um dia, através de alguém ou um milagre, essa realidade acontecerá.
Estas são as mentes mais sujeitas a cair na lábia da imaginação que se confunde com a realidade uma vez que desejam algo que elas mesmas não conseguem criar. No entanto, imaginar que houve significa que pode retornar, então a esperança surge e nutre essa alma carente.
Essa ferramenta mental parece ser da espécie. Pessoas cultas e ignorantes, inteligentes e burras, todas caem nesse truque mental porque a imaginação é indispensável ao ser humano. É ela quem nos faz imaginar que seremos pagos após trabalharmos, que teremos energia elétrica se pagarmos a conta, que a nossa casa não será invadida enquanto estamos fora.
Acreditamos nessa imaginação porque ela se mostra (muitas vezes) realista. Não sabemos o futuro, mas quando um evento se repete muitas vezes, tomamos como fato e que repetir-se-á assim como o sol que todos os dias nasce e se põe. Não sabemos se ele nascerá amanhã, mas temos a certeza de que isso acontecerá porque nós o vemos sempre.
Essa é uma das maneiras de acreditarmos em nossa imaginação e a outra é a previsibilidade. Ainda que saibamos que não temos como saber precisamente o futuro, nós contamos que ele acontecerá e usamos da imaginação para visualizarmos em nossas mentes. É nesta parte, entre o previsível e a imaginação que caímos na armadilha alimentada por nossos desejos.
Seja futuro, passado ou presente, nós imaginamos o que seja real e o comparamos com as provas que são os acontecimentos. Quanto mais próximo da verdade, mais coeso ficamos com tais provas; quanto mais distante, mais ficamos confusos em como a vida não funciona como acreditamos que seja.
Em todos esses momentos, nós desconhecemos os fatos e acontecimentos, então usamos do recurso da imaginação para criar a ideia que, para nós, seja possível e provável, mas que no fundo é nutrida pelo desejo de que aquilo seja, fosse ou é verdade.
Mesmo cientistas, que são percebidos como pessoas inteligentes e lógicas, caem nestes truques mentais imaginando um passado sem provas ou evidências e até mesmo afirmando sobre o que desconhece para alimentar as ideias que desejam difundir.
A ideia de que os seres humanos primitivos tinham uma dieta rica em carne é uma dessas ideias que foram criadas por pessoas que desejam que isso seja verdade. Ao acreditar nesta ideia, a pessoa acredita que seja natural do ser humano se alimentar de carne e que, sendo natural, seja algo bom e saudável e, assim, a pessoa consegue “defender” esta ideia de forma “argumentativa” (apesar de não ter lógica).
Há alguns erros neste pensamento:
- Não existem provas ou evidências de que a dieta dos humanos primitivos fosse ricas em carne;
- Nem todas as pessoas apreciam carne;
- Ser natural não significa ser bom ou saudável. Doenças e mortes são naturais, mas não são vistas como boas;
- A vontade de comer carne da pessoa é uma coisa; a história sobre a humanidade é outra.
Outros pensamentos seguem esta mesma distorção como:
O homem ter muitas mulheres/harém: a vontade de transar com várias mulheres leva a imaginação a criar esse cenário mental e, para tentar defendê-lo como real, possível ou aceitável, a pessoa alega que o seu desejo era um fato no passado.
O homem deve ser rico e inteligente: como inteligência é vista como precursora da riqueza e esta é desejada já que fornece os recursos para uma vida melhor e mais longa, desejar homem rico ou inteligente faz com que muitas pessoas pensem que é assim que os homens eram quando, na verdade, deveriam ser (para a satisfação pessoal de quem o deseja).
A harmonia com a natureza sendo esta um local agradável e sem problema: ao vermos fotos de plantas, deduzimos que isso seja a natureza. Já que não sentimos nenhuma ameaça ou risco nesta cena estática, imaginamos que seja agradável e, assim, nós a desejamos. Assim cria-se a ideia de que a natureza seja boa enquanto buscamos o que não é natural como a produção alimentícia perpétua, tratamento de água, vacinas, remédios, tratamentos, casas de alvenaria, sapatos fofos, sofás confortáveis, fogões à gás e comida na geladeira. Nada disso é natural, mas tudo isso nos é frequente. Às vezes tão frequente que nem percebemos. Ademais, não queremos o calor ou o frio que existe na natureza, nem as doenças, insetos ou alimentos com gosto ruim. Fugimos disso tudo, mas mantemos a ideia de natureza como harmonia em nossas mentes. Para acreditarmos nisso, imaginamos que, em algum momento, isso foi real e, assim, afirmamos que aconteceu e, portanto, pode acontecer novamente. Sempre houveram mortes, doenças, dores e sofrimento na natureza; nós e os demais animais sempre fogem dessa realidade; mas mantemos o nosso ideal como se fosse real, mesmo que continuemos a fugir do mesmo.
Todas essas ideias e muitas outras são criações que fazemos em nossas mentes porque o nosso desejo de que possam ser reais nos leva a imaginar que seja possível e uma forma de o fazer é justamente acreditando que um dia isso aconteceu, diferente da idealização que nunca houve e que pode facilmente nunca haver.
A ideia base é: se um dia foram reais, então é possível recuperar as capacidades e fazê-las ser reais novamente e, assim, satisfazer as nossas vontades.