No estado brasileiro a escolarização das pessoas é obrigatória e uma das matérias é a língua portuguesa, língua oficial do país.
A interpretação de texto também é uma das matérias obrigatórias no currículo escolar, no entanto, é interessante perceber a falta de interpretação das pessoas no dia a dia. Parece que nunca estudaram ou que a matéria foi dada incorretamente.
O primeiro passo para a comunicação verbal é conhecer as palavras. O segundo passo é saber os seus significados enquanto o terceiro é montar as frases adequadamente. Então basta interpretar para compreender a ideia falada. Contudo, embora pareça fácil, todos pecam pela falta de interpretação e falta de conhecimento dos significados das palavras. Até mesmo as palavras são desconhecidas por muitos tendo diversas criadas na linguagem coloquial não existindo em dicionários.
ERRO 1: a pessoa usa a palavra ou expressão se referindo a um objeto que não seja o referencial da palavra. A pessoa imagina que a palavra tenha o significa X e a usa como tal.
Exemplo:
A pessoa imagina que filosofia seja uma forma de pensar em assuntos desnecessários.
Ela diz: A filosofia não tem serventia.
ERRO 2: o ouvinte ouve a palavra dita e busca o objeto de referência em sua cabeça.
Exemplo:
Ela estudou que filosofia é estudo e, portanto, gera conhecimento, necessário para melhorar a vida.
Ela diz: A filosofia é indispensável.
CONCLUSÃO 1:
A pessoa disse uma coisa pensando em outra; ela imaginou que filosofia seja perder tempo com assuntos desnecessários em vez do seu significado.
O ouvinte ouviu o que foi dito, não o que foi imaginado; imaginou a filosofia como aulas escolares e conhecimentos acadêmicos.
Cada indivíduo pensa sobre um objeto diferente, ou seja, falam sobre objetos diferentes. Não tem como manter uma conversa assim porque não há conexão com as partes (pessoas).
Após receber a informação, o ouvinte responde conforme a sua opinião:
ERRO 1: ele fala sobre a referência da palavra usada.
Exemplo:
Ele diz: A filosofia é indispensável.
Ou ERRO 2: ele afirma a sua opinião:
Exemplo:
Ele diz: A filosofia é indispensável.
CONCLUSÃO:
O ouvinte recebe a afirmação do outro. Se é uma afirmação, então não é uma opinião e, portanto, é um fato;
O ouvinte responde à afirmação recebida com outra afirmação que é, na verdade, uma opinião.
Tem-se duas pessoas fazendo afirmações que são opiniões.
LINGUAGEM PSICOLÓGICA
Além da montagem da fala baseada na linguagem, existem outros erros comuns que acontecem durante uma conversa. Primeiramente, dificilmente a pessoa que discursa tem a ideia clara para falar. Ela tem alguma noção sobre qual assunto deseja falar, mas não sabe propriamente sobre o assunto para discursá-lo. Assim, ela diz uma coisa diferente da que pensa.
ERRO 1:
Exemplo: A pessoa pensa:
– a liberdade me faz feliz
– gosto da liberdade
– então a liberdade é boa.
Ela diz: A liberdade é boa.
ERRO 2:
O segundo erro é a maneira que ela fala: ela usa da afirmação em vez de opinião fazendo o ouvinte ter certeza sobre o conteúdo que ela fala.
Exemplo: A pessoa pensa:
– eu gosto da liberdade
– a liberdade é boa.
Ela diz: a liberdade é boa.
ERRO 3:
O terceiro erro é a pessoa que recebe a mensagem: ela avalia a afirmativa recebida, contrasta com as suas informações e opina, também em caráter afirmativo. Vale lembrar que as informações com as quais ela contrasta a “informação” recebida também são opiniões disfarçadas de afirmativas (fatos).
Exemplo: A pessoa pensa:
– liberdade é não estar preso;
– liberdade é poder fazer o que eu quero;
– liberdade é todos poderem fazer o que querem e nisso tudo vira um caos;
– liberdade é não precisar trabalhar;
– liberdade é o outro não precisar me obedecer.
Com a terceira e a última designação, a pessoa pensa: a liberdade não é boa.
Então ela diz: A liberdade não é boa.
ERRO 4:
O quarto erro reside no fato de essa pessoa também não ter claramente o conteúdo em sua mente. Da mesma maneira que a primeira, ela diz a sua opinião em forma de afirmação bem como não sabe direito sobre o que está falando.
Ela diz: A liberdade não é boa.
Nenhuma das duas estudou o assunto “liberdade”, o seu significado, a sua prática ou sensação. Elas possuem conceitos fáceis, restritos, superficiais e abstratos. Sem se aprofundarem no assunto, possuem opiniões baseadas em imaginação do momento e afirmam com convicção como se fossem fatos.
Caso se interesse mais sobre “liberdade” leia “Hipocrisia: certa ou errada? Boa ou ruim? Por quê?”
CONCLUSÃO:
O resultado é que se tem duas pessoas com opiniões nas quais acreditam que são fatos e que são a negativa da outra. Elas entram em luta porque ambas têm certeza de suas ideias. Enquanto a primeira se refere à sensação de não precisar fazer o que não gosta, a segunda se refere à ideia de que todos possam fazer o que querem e, assim, não há regras.
Os erros seguintes são a manutenção dos mesmos, em ciclos repetidos que, se forem analisados logicamente, não se trata de nada bem como não há qualquer entendimento entre as pessoas que conversam porque sequer sabem o que querem dizer.
TOTAL
O resultado final é a mistura de todos os erros cometidos, dos criados pela ausência de conhecimento da linguagem aos criados pela falta de estrutura lógica.
MAIS UM EXEMPLO:
Um erro muito comum que se adiciona aos vários mencionados são as suposições baseadas em achismos. Por exemplo:
Proibido a entrada com roupas de banho ou shorts.
A pessoa “conclui” que só se pode entrar de calça.
Outra pessoa “conclui” que pode usar calça ou vestido.
Há quem leia a frase e entenda precisamente o que está escrito. Logo, tudo que não é roupa de banho ou short pode entrar incluindo roupas de baixo e mini saias.
Qual delas está certa?
Qual delas entende o que a frase quis dizer em vez do que a frase disse?
O erro é de quem escreveu ou de quem não entendeu a mensagem que estava na cabeça de quem escreveu a frase?
Este erro é muito comum. Ao vermos a proibição de algo automaticamente “concluímos” que algo similar é aceito ou que algo muito diferente também é possível quando, na verdade, o conteúdo se resume ao que está escrito, não na nossa imaginação.
OUTRO EXEMPLO:
Outro exemplo: Fulana está usando um terninho. Portanto…
- Ela está com salto alto.
- Ela está de tênis.
- Ela está descalça.
- Ela está usando um terninho.
Observe que em nenhum momento há a descrição dos calçados usados, logo, como podemos afirmar o que ela calça?
Muitas brigas de casais, namorados, irmãos e familiares se resume à falta de compreensão textual e falta de conhecimento da linguagem. Eles caem nestes erros frequentemente e vivem na eterna luta para saber quem está certo.
IMAGINE:
Adriana é casada com Carlos.
Carlos é amigo de Laura.
Luciana é amiga de Adriana.
Luciana vê Carlos conversando com Laura e conta à Adriana:
— Eu vi o Carlos com a Laura.
Adriana logo imagina ambos se beijando e o questiona:
— Você está me traindo?!?!
— Não.
— Eu sei que está! Estava com a Laura!
Uma história pequena, mas repleta de briga. Observe:
– Adriana confia mais na palavra de Luciana do que na de Carlos, então tudo que Luciana disser será acreditado e se o que Carlos disser for o oposto, ele será desacreditado.
– Sem crédito, Carlos é visto como mentiroso.
– Sendo a mentira algo ruim, a pessoa que mente é ruim. Portanto, Carlos é ruim.
– Adriana perguntou sem intenção de perguntar. Ela tinha certeza da traição e ficou ainda mais nervosa quando ele negou a sua certeza. Ela brigou com o marido porque ela sentiu que era desprezada ou invalidade por Carlos.
– Adriana nunca vai saber o que aconteceu entre Carlos e Laura porque somente Luciana os vira. Então precisa escolher em quem confiar e prestar atenção no que ouvira: Carlos estava com Laura.
– Luciana não mentiu, mas Adriana distorceu o significado de “estar” e entendeu como “beijar”.
– Adriana pediu divórcio.
Uma distorção de palavras é o suficiente para criar grandes brigas e confusões.
FALTA DE TELEPATIA
Outra situação muito comum é a crença de que o outro entenderá o que pensamos, não o que dizemos e neste tipo de caso entram muitos professores de história e, principalmente, de língua portuguesa numa paradoxo inexplicável.
A pessoa pergunta: o que você acha sobre a escola?
A segunda responde: eu acho feia.
A primeira fala: você está errado.
Como a pessoa que opinou pode ter uma opinião errada quando a outra perguntou justamente a opinião dela?
Este erro chega a ser básico em provas de língua portuguesa em escolas de tão recorrente, mas quando é para valer como em concurso, isso não vale!
Então, as pessoas aprendem quais opiniões são as “certas” e quais são as “erradas” para responder e acertar na prova aprendendo desde cedo que elas não têm opiniões, mas que devem repetir um determinado grupo que tem o poder, neste caso, o professor que pode reprová-la.
SIM OU NÃO?
Outro erro também muito comum com estes professores são as perguntas de sim ou não sem explicação:
O professor: você gosta de chocolate?
O aluno responde: sim.
O professor dá meio certo por não ter explicado. Mas o próprio professor não pediu para explicar, apenas para responder.
Para não se sentir inferior a um aluno que idealmente é mais burro que ele, o professor usa da sua autoridade para impor a sua decisão em vez de interpretar a língua que ele deveria saber.
Este exemplo tão comum nada mais é do que uma ditadura em que os alunos não podem responder como foi perguntado, mas como o professor quer a resposta.
RESULTADO:
O aluno aprende que sempre precisa se explicar, mesmo que não haja o pedido para tal e, quando em um concurso onde as regrais da língua portuguesa são de fato exigidas, ele perde ponto por explicar o que não foi pedido para explicar e a banca deixa claro que explicar algo que não foi pedido é falta de interpretação justamente porque não havia nada pedindo explicação.
Da mesma forma acontece com os números: na escola, o professor pede dois adjetivos num texto e o aluno cola mais de dois ganhando pontos extras por ter feito “mais que o pedido” enquanto no concurso o candidato perde a questão por falta de interpretação. Se foi pedido DOIS adjetivos, significa que não são mais, logo, colocar mais é claramente falta de compreensão da palavra/ideia de 2(dois).
O ser humano é um animal irracional e instintivo. Usamos palavras, mas falamos mais com tons de voz, corpo e contexto e a ironia é exemplo disso já que conseguimos dizer uma coisa ao falar o oposto e é uma forma de linguagem muito usada e aceita.
Entre inconsciente e consciente, nós boiamos nestas águas e respingamos nos demais com nossas palavras e atitudes que não medimos nem pensamos antes de fazer. Da mesma forma, os demais também estão assim e todos nós recebemos estes respingos alheios.
Somos todos loucos, mas por sermos parecidos, acreditamos que isso seja normal, saudável, aceitável e até mesmo lógico mesmo que claramente não haja lógica alguma.
Falamos o que não queremos, deixamos de falar o que precisamos, nos expressamos de outras formas, dizemos do jeito errado ou num momento inconveniente, falamos o que nós mesmo não sabemos sobre nós e criamos suposições enquanto os outro fazem o mesmo e todos nós lutamos nesta loucura de não nos expressarmos corretamente e de não entender o que o outro expressa.
Saber sobre si mesmo, ter consciência de si, de suas ideias, de suas emoções é o primeiro passo para qualquer conversa bem-sucedida. Sem isso trocamos palavras e ofensas sem sentido criando caos e sofrimento sem precisar.
O segundo passo é conhecer o significado das palavras para usá-las de forma que o outro compreenda sobre o que se fala.
Então é a hora de expressar a sua ideia ou emoção sobre o assunto.
Depois vem a parte de ouvir o outro e entendê-lo.
Parabéns! Agora você está apto a conversar.
Estude e aprenda a se expressar para que as pessoas possam entender o que você pensa de fato em vez de tentarem adivinhar o que passa pela sua cabeça, afinal, ninguém é telepata para ler a mente dos outros e, se assim fôssemos, não haveria necessidade de conversarmos.
A definição de algo não se dá por exclusão, mas pela precisão da explicação. Baseado no que já sentimos, de sentimentos a sentidos físicos, temos o nosso dicionário e significados. É através da experiência que aprendemos e conhecemos os objetos e é através destes que criamos definições dos objetos.
Um cego não sabe o que é uma cadeira visualmente e a sua definição com palavras não significa nada porque ele não tem objetos para comparar e imaginar o que é uma cadeira.
A definição de algo é descrever as suas características. Para isso, é necessário conhecer tais características, de objetos, imaginação, juntas ou separadas .. como descrever um objeto que emite UV e é transparente nas cores que enxergamos se não usar um aparelho que transforma UV e cores que enxergamos?
Sobre definição de um objeto