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Funções sociais: nascemos ou nos transformamos?

O ser humano vive em comunidade com vários outros indivíduos. A divisão de tarefas e deveres é indispensável para a humanidade que progrediu por conta dessa característica elevando a taxa de sucesso e sobrevivência.

Conforme a sociedade se proliferou, os grupos sociais adquiriram e criaram mais e mais funções como observamos com as tecnologias que são criadas e, por conta delas, outras atividades e empregos também são criados.

É dessa maneira que a sociedade cria novas funções e tarefas, mas a essência permanece: a família.

Família é o menor grupo social funcional do qual participamos e mostra a organização básica da humanidade com os mais velhos tendo mais responsabilidades do que os mais novos bem como a divisão do trabalho entre si.

Pais, avós, tios, irmãos mais velhos e quem mais conviver tendo capacidade de trabalhar e colaborar com o grupo recebem tais deveres. Às vezes são deveres explícitos, mas a maioria é implícito em que algumas pessoas esperam que outras as atendam ou façam algumas tarefas determinadas.

Quanto mais jovem, menos responsabilidade, no entanto, crianças também as têm e, quanto maior é a necessidade do grupo e menor a capacidade de os mais velhos as suprirem, mais as crianças passam a ter responsabilidades e a contribuir com os demais.

Muitas vezes é cuidando dos mais novos como dar alimentação, garantir segurança, limpeza e até mesmo as levar para a cama, atitudes que numa sociedade ideal são feitas pelos responsáveis das crianças, não por outras crianças.

Este exemplo é facilmente lembrado quando pensamos em décadas atrás em que as famílias eram mais numerosas e pobres. Os filhos mais velhos trabalhavam, realidade muito comum para muitas pessoas atualmente, mas os mais novos também. Fosse com trabalho infantil (com remuneração) ou não (em caso de tarefas domésticas em casa sem remuneração), o cotidiano era de que todos ou a maioria contribuísse para com o grupo ao qual pertencia.

Mais próximo do ideal de criança “ser criança” e não trabalhar que estamos na atualidade, muitas crianças são não apenas cuidadas por seus pais, mas não adquirem responsabilidades tão cedo ou até mesmo tarde demais por conta dessa ideologia de que criança não deve trabalhar.

Uma geração de crianças mimadas está aparecendo e pais sem responsabilidade e sem autoridade sobre elas se desesperam por não as controlar. Se por um lado melhoramos em alguns aspectos, por outro colhemos o resultado dessa melhoria. Será que criança deve ou não trabalhar nas atividades domésticas? Se sim, qual a diferença dela para uma diarista? Apenas que a criança faz sem pagamento enquanto a profissional recebe, isto é, o mesmo trabalho sem pagamento. No passado isso era visto como escravidão.

A divisão de tarefas entre os integrantes do grupo faz com que cada um se especialize nas suas próprias e que os demais esperem por isso rendendo-lhe um papel prático dentro do grupo. Produtores financeiros, organizadores, cuidadores, faxineiros… Todos têm os seus atributos e deveres e possuem tais expectativas dos demais assim como estes também recebem as expectativas daqueles.

Criamos uma funcionalidade social e demos nomes a elas, mas embora ajamos assim na prática, em nossas mentes abstratas e com pouco conhecimento nós não entendemos de forma clara.

Mãe: papel de cuidadora dos integrantes menores. Ela pode adquirir outros papeis como produtora de renda, cuidadora do lar… Mas a essência é de cuidar dos filhos e prova disso são os preconceitos que sofrem aquelas que não o fazem, apesar de terem filhos biológicos.

É com essa observação que notamos que mãe não é somente engravidar e parir um bebê, mas cuidar dele e a adoção também colabora com essa perspectiva em que não existe a primeira parte, somente a última.

A idealização criada pela sociedade é baseada em seus desejos e carências. Quando jovens, incapazes de se satisfazerem, precisavam de alguém que fizessem por elas e, assim, esta visão infantil de que alguém deva nos servir é criada e usada como referência para a criação da ideologia que, neste caso, é de “criança ser criança”, ou seja, não receber responsabilidade, ser cuidada por alguém sempre e receber todo o carinho que deseja receber (que nada mais é do que a tirania de desejar ser servido por alguém).

É com essa ideologia de quando somos crianças que imaginamos o mundo correto ou melhor e afirmamos que o mundo deva ser dessa forma, mas, como já crescemos, não exigimos para nós, mas para a próxima geração que está passando por esta fase da vida em que queríamos ter tido mais e, por conta disso, afirmamos que as crianças de agora devem ter. É apenas uma projeção do que sentíamos naqueles que hoje estão no papel em que um dia já estivemos de sermos crianças.

Pai: o papel do pai é de sustentar materialmente a família, uma visão construída a partir de ideologias e práticas. Um pai que cuida de um filho é estranho e recebe atenção justamente por ser “melhor” que o esperando enquanto a mãe que faz o mesmo está apenas cumprindo a sua função já esperada pelos demais.

Mas a sociedade não é feita só de pai e mãe, apenas a partir deles. Temos outras pessoas que a compõem e, portanto, a influenciam bastante.

Mulher: “não nascemos mulheres, tornamo-nos mulheres” é uma ideia clara sobre essa perspectiva de que variamos de posições sociais. Nascem meninas que, ao longo da vida, da educação, exemplo, aprendizados e cultura se torna uma mulher.

Ser mulher não apenas ter um corpo com genitálias femininas, mas atender aos quesitos de feminilidade da sociedade. Em muitas culturas o ideal de fêmea humana é a beleza física, cabelos compridos, cintura fina, seios fartos ou não, pés delicados, mas ser mulher não se trata apenas da aparência, mas de ser gentil, risonha, meiga… fazer o homem se sentir homem (dentro do que o indivíduo considera ser homem). Portanto, para ser mulher na visão de um homem determinado, precisa ter as características que ele acredita serem femininas e com isso percebe-se que para cada homem existe um conceito de mulher específico.

Felizmente somos da mesma espécie e compartilhamos de traços e gostos sendo um deles a diferença entre macho e fêmea de forma clara, aparente e óbvia. Então a criação de modas distintas entre os dois sexos entra com força e determina o que é masculino e o que é feminino para que, apenas com uma olhada, consigamos identificar a pessoa e saber como tratá-la.

Não importa se homens usam vestidos ou calças desde de que as roupas femininas sejam muito diferente das deles e isso é visto na história com a variação da moda ao longo do tempo e dos lugares.

Em uma época distante na Grécia, homens usavam túnicas que, atualmente, são vistas como femininas. O uso de shorts justos, meias justas e perucas compridas também foi muito popular como símbolo de masculinidade em séculos passados além de sapatos de salto alto, características que são vistas como femininas atualmente. A cor azul também foi considerada como sinônimo de beleza e delicadeza, características atraentes em mulheres, logo, associar o azul à mulher foi apenas uma questão de lógica. Atualmente vê-se a cor rosa como a que carrega tais características que são vistas como femininas, então o rosa foi associado à feminilidade.

A biologia gera características primordiais à sobrevivência iminente, no entanto, ao nos distanciarmos dessa forma de vida com o desenvolvimento de tecnologias, criamos novas estruturas que passam a ter grande impacto em nossas vidas.

A força física do macho era muito importante para o transporte do que era pesado quando os povos humanos estavam no início de sua jornada. Atualmente, com máquinas e ferramentas, esta força não tem mais tanta importância, contudo, o instinto de se apreciar homens fortes permanece. Assim cria-se uma nova ideia de que homens não precisam ser fortes porque a realidade mostra isso, no entanto, o instinto de milênios permanece e entra em confronto com essa nova realidade.

Enquanto em pequenas tribos temos os indivíduos colaborando com suas habilidades como podem porque toda colaboração faz a diferença para o coletivo, em comunidades maiores há mais regras no intuito de manter a organização. Isso significa que uma mulher forte que sabe caçar não é vista como tal visto que há vários machos disponíveis para fazer o serviço. A sua capacidade não gera nenhum impacto significativo no coletivo, então colocá-la para fazer o que é comum de fêmeas fazerem é uma maneira rápida de manter a organização sem gasto de tempo ou recursos para avaliar este único indivíduo.

É assim que as regras funcionam: limita-se o indivíduo e o coloca num grupo determinado por conta das crenças que a coletividade tem. Se muitas mulheres não trabalham fora e cuidam dos filhos, cria-se a regra de que este é o certo e de que as mulheres devam agir dessa forma.

Claro que as regras não são criadas somente por este motivo. As ideologias que o coletivo (pessoas com poder de influência) tem são impostas em forma de leis e regras e os demais são oprimidos a agirem como tais leis mandam.

Os instintos ainda nos regem, mas o nosso despertar para a parte intelectual permite com que questionemos e criamos novas ideias. Com mulheres desejando a liberdade para trabalharem por si mesmas financeiramente e se unindo, a força delas crescem e conseguiu aparecer para o coletivo impondo a sua vontade nas novas regras. Atualmente é normal mulheres terem seus empregos e carreiras, uma realidade muito diferente de décadas atrás.

Enquanto o conceito de mulher no passado era de ser meiga, doce, caseira, cuidadora da família e realizadora de tarefas domésticas porque muitas mulheres tinham essas vidas, atualmente sentimos o conceito de mulher de uma forma diferente porque não vivemos mais nos padrões antigos.

O uso de roupas femininas, o cuidado com a aparência e empregos específicos são o novo ideal de feminilidade, portanto, o conceito de mulher mudou.

A função ou o papel social que criamos, impomos, exigimos e obedecemos é criação da mente humana associada à realidade. Criadas a partir da organização básica social dos primórdios dos tempos, as funções dentro de uma comunidade era a maneira de dividir o trabalho e as recompensas do coletivo aos seus integrantes. Por cada tipo de corpo possuir habilidades específicas, era comum que corpos parecidos fossem alocados para atividades específicas e, assim, homens e mulheres tendo corpos e habilidades distintas, receberam responsabilidades diferentes.

Quando o grupo é pequeno, toda ajuda é bem-vinda e essa divisão de trabalho é feito de forma mais prática e sem muita frescura ou ideais. Quem sabe e consegue caçar simplesmente caça. No entanto, conforme o bando cresce, há mais e mais integrantes e delegar funções a cada um deles de forma específica passa a ser mais problemático por demandar muito tempo e análise das habilidades do indivíduo. Assim, generalizar é uma maneira que surge para agilizar este processo, mas faz com que o julgamento da minoria que não se encaixa nos grupos pré-determinados seja insatisfatório ou subestimado.

Com mulheres tendo menos capacidade física para lutar ou caçar, o mais comum é não fazer tais atividades deixando-as para os homens. Num grupo pequeno, toda ajuda é bem-vinda, então mulher que souber e puder colaborar nesta atividade é recebida neste grupo (de caçadores ou lutadores) dentro do grupo total. Contudo, quando há muitas pessoas, analisar todas as mulheres e todos os homens para distinguir quem deve ou não participar dessas tarefas torna-se improvável ou mesmo impossível. Dessa forma, generalizar com o que é conhecido fica mais fácil e, assim, homens são vistos como mais fortes e, portanto, os responsáveis por fazer atividades que demandam força.

Assim como mulheres fortes que não são inclusas neste grupo para fazer tais tarefas, homens fracos também não são otimizados ao serem incluídos mesmo sem conseguirem participar da tarefa sendo uma injustiça não apenas para as mulheres fortes, mas para os homens fracos também.

Assim as atividades sociais foram criadas, generalizadas e passadas para os descendentes que reproduziram e ensinaram aos seus descendentes perpetuando tal comportamento. Crescendo numa sociedade assim, vemos mulheres cuidando mais dos filhotes do que os machos enquanto estes saem de casa com mais frequência e assimilamos que o papel feminino seja esse bem como o masculino também: absorvemos as informações que recebemos e que se repete. Assim criamos a ideia de que homem deva trabalhar fora de casa e mulher tenha de cuidar dos filhos como se fossem definições do que é ser homem e mulher (na sociedade). Mas tudo isso começou há milhares de anos atrás que brotou por conta da diferença biológica dos corpos de machos e fêmeas.

Mulher não é somente ter útero e ovários, mas ter filhos, cuidar deles, se vestir como o ideal feminino da sociedade, agir como os outros esperam, ter características que são apreciáveis nas fêmeas enquanto para os homens não basta que tenham testículos e pênis. Eles precisam ser valentes, destemidos, ousados, confiantes, inteligentes e fortes conforme a sociedade deseja que eles sejam.

É assim que vemos as pessoas: se têm os traços desejáveis em mulheres, são vistas como femininas ou como mulheres; se têm os traços desejáveis em homens, são vistas como tais ou como masculinas.

Para além do que é visível no corpo humano, a distinção entre os sexos vai para além da capacidade física de gestar ou lutar, mas de pensar, sentir e se comportar e tudo isso é altamente influenciado pelos hormônios masculinos que temos desde que somos fetos e ganham mais intensidade na adolescência.

Homens e mulheres desejam coisas diferentes, gostam de coisas diferente, pensam de maneiras próprias e sentem de formas específicas e os adolescentes e adultos mostram isso.

As piadas tradicionais de homens que agem de maneira a agradar a mulher e o inverso provam que a ideia de macho e fêmea não se restringe somente à biologia básica, mas ao ideal. Os homens tentam ser “mais homens” ao agirem do modo esperado assim como as mulheres tentam ser “mais mulheres”.

Para conquistarmos alguém, tentamos exaltar as nossas qualidades e nisso se enquadra essas características que acreditamos que o outro vai gostar. A mulher tenta se feminilizar mais enquanto o homem tenta se masculinizar mais e, juntos, ambos intensificam mutuamente essas características reforçando ainda mais os seus papeis sociais.

O gosto específico de cada sexo e indispensável à sobrevivência da espécie. Apesar das exceções que parecem ser numerosas, a maioria favorece a perpetuação da espécie com homens tendo desejo sexual por mulheres e estas por esses. Se as mulheres e os homens gostassem de mulheres ou ambos gostassem de ambos (sexualmente), a espécie enfrentaria problemas de sobrevivência consideráveis, então, essa diferença contribui para a perpetuação da espécie.

Com a maioria das pessoas sendo assim, elas procriam mais e perpetuam a espécie neste comportamento sexual que é transmitido para as gerações futuras que fazem o mesmo normalizando tal comportamento e englobando-o no conceito inconsciente do que é ser homem e do que é ser mulher.

As funções sociais são aprendidas e já nascemos na função de filho uma vez que chegamos ao mundo como bebês. Os nossos corpos prematuros, a nossa mentalidade, habilidade e produtividade bem como as relações parentais que recebemos nos encaixa no papel de filhos queiramos ou não.

Conforme crescemos, aprendemos e desenvolvemos a independência e mais habilidades que nos oferecem oportunidades. Podemos escolher as nossas roupas, talheres ou como tomar banho, mas temos mais escolhas do que os bebês.

As expectativas bem como as exigências alheias além dos nossos próprios desejos nos fazem sair dessa função social e nos encaixarmos em outra ou outras. Com a nossa própria identidade, adentramos no mundo como indivíduos, cidadãos, filhos, irmãos, funcionários, estudantes… Cada vez temos mais funções sociais a desempenhar.

Criamos o ideal baseado nos nossos desejos, mas vivemos na realidade. enquanto bebês, incapazes de fazer qualquer coisa por nós mesmos, dependemos de alguém que cuide de nós. Somos passivos e esperamos. Enquanto no ideal temos pais amorosos que cuidam de nós, a prática pode ser muito diferente. Há quem não tenha pais, quem seja cuidado por irmão mais velho ou por vizinhos, mas todos executando a mesma função de cuidador do bebê, então, na prática, são os pais deste bebê. Da mesma forma, muitos avós são pais de seus netos na prática.

Dentro desse aspecto de funções sociais, temos a família tradicional que nada mais é do que um grupo que possui as funções sociais familiares, que são os responsáveis e as crianças (quem dão cuidados,) e para isso existem diversas possibilidades. 

Como o conceito de papel social depende das relações e essa depende das pessoas envolvidas, suas maturidades, produtividades, contribuições e emoções, na prática temos relações diversas em que o ideal está longe e, assim, encontramos irmãos que são pais dos mais novos, filhos que agem como pais ou amigos, pais que agem como crianças ou filhos, mulheres que agem como homens e homens que agem como mulheres.

Tudo é possível porque as pessoas são diferentes e os papeis sociais que desempenhamos são variados e mudam com o tempo e com as relações que temos porque dependem diretamente das pessoas com quem nos envolvemos.

É com este conceito abstrato, mutável e inconsciente que lidamos com a realidade e entramos em conflito com a parte argumentativa que desconhece todos estes detalhes. Enquanto alguma pessoas se restringem à ideia de mulher ao corpo biológico que a pessoa possui, outras se restringem ao papel social que têm e há quem apenas deseje ter um corpo ou uma função social feminina.

Nós nascemos bebês. Os nossos corpos se transformam com o tempo, mas não somos apenas corpos físicos e biológicos. A parte mental e emocional são indispensáveis aos seres humanos e se mostram em tudo o que fazemos, pensamos e agimos sem obviedade e por falta dessa clareza que há tanto debate sobre o que não conhecemos, não estudamos, mas queremos impor porque a realidade é que desejamos impor as nossas vontades.

É nesta mesma maneira de pensar que mulheres não nascem como tal, mas tornam-se mulheres já que mulher é uma função social que varia de acordo com a época e a sociedade. Elas nascem bebês meninas e se tornam mulheres comumente e os homens nascem bebês meninos e se tornam homens. Pelos menos até agora.

 

 

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