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Confiança mútua por empatia do egoísmo

Confiança é um tema interessante que mistura realidade e imaginação. Confiamos que alguém agirá de uma determinada forma ao percebermos o seu padrão de comportamento. Ao mesmo tempo, temos esperanças de que a outra pessoa agirá de uma forma que desejamos e com estas duas percepções nós criamos a ideia abstrata e inconsciente de confiança.

A confiança existe mesmo?

Temos como prever o comportamento o sentimento de pessoas que conhecemos, contudo, por não a conhecermos completamente, a reação dela não pode ser completamente previsível.

Ainda assim, somos dotados em empatia e capacidade de pensar, mesmo que muito limitada, e ambas se misturam nessa ideia confusa de confiança.

Nós acreditamos que os seres humanos sejam semelhantes, portanto, se temos uma emoção numa situação como a de um pulo e grito com um susto, acreditamos que as outras pessoas agirão da mesma maneira.

Confiamos nesse palpite intrinsecamente e nos surpreendemos quando acontece algo diferente. A confiança é apenas uma crença sobre um acontecimento que, na verdade, não temos como saber se é verdadeiro ou não porque ainda não aconteceu. Quanto mais distante a realidade fica com o que previmos, mais surpresos ficamos.

As emoções humanas, principalmente as mais intensas, são comuns em humanos por serem as mais básicas e intensas o suficiente para não serem ignoradas. Acreditamos que todos as têm e que todos agem da mesma maneira por sentirem a mesma coisa. Assim, acreditamos que todas as mães amem os seus filhos por ser algo comum, repetido e esperado; acreditamos que os filhos amem os seus pais pelos mesmos motivos; acreditamos que as regras sociais serão cumpridas pelos outros porque temos o ímpeto de as seguir bem como desejamos que os outros também as sigam…

O choque aparece quando vemos algo diferente do que supomos ser a verdade (a crença) e quanto mais longe dessa realidade, mais chocados ficamos. Não amar os filhos é estanho, mas fazer mal a eles é absurdo; não amar os pais é esquisito, mas desejar-lhes mal é ingratidão; não seguir as regras quando não causa prejuízo a alguém é aceitável, mas quando prejudica vira um caos que só piora de acordo com a gravidade do prejuízo, afinal, roubo não é tão ruim quanto um assassinato.

Por termos emoções similares, nós nos entendemos mesmo sem palavras e mesmo sem sabermos o que sentimos. Existe apenas a sensação de que entendemos o outro sem realmente saber o que se passa e é com isso que lidamos com as pessoas todos os dias na linguagem não verbal que é predominante em nossas vidas.

 

Confiamos nos outros? Não, confiamos no egoísmo deles por empatia

Conseguimos confiar nas pessoas que conhecemos, mas é difícil fazer o mesmo com os desconhecidos até porque mentiras são regras sociais padrões para evitar falar verdades desagradáveis e, assim, geral mal-estar ao outro. Mesmo assim, o outro sabe que é mentira, entende o motivo da mentira e normalmente é grato por não ouvir a verdade. Como muitas pessoas agem assim, absorvemos esse comportamento e o repetimos assim como também preferimos mentiras que “suavizam” a realidade.

É a empatia (saber como o outro se sente) que nos leva a reagir de formas mais amistosas ou agressivas. Se desejamos criar um vínculo bom com o outro, tendemos a mostrar as nossas qualidades, esconder os nossos defeitos, realçar as nossas conquistas e pontos fortes ao mesmo tempo que tentamos gera bem-estar ao outro com presentes e elogios. Esta é a empatia que muitas pessoas pensam, mas porque é o que desejam que lhes chegue.

A confiança em desconhecidos é uma mistura entre a crença de que, por serem similares a nós agirão como nós, com a desconfiança de que, por serem como nós, agirão como nós, ou seja, por terem os mesmos sentimentos afetivos familiares e sociais, agirão como nós agimos afetivamente. Por outro lado, sabemos (presumimos) que são egoístas porque nós também somos, logo, imaginar que podem agir de uma forma prejudicial a nós é uma possibilidade real.

Confiamos que o outro deseje dinheiro, que se importa com os seus familiares e que não seja criminoso apenas porque nós somos assim e queremos que ele também o seja.

Confiamos que as pessoas esforçar-se-ão para conseguirem dinheiro porque nos dedicamos a isso;

Confiamos que todos desejem estudar para terem bons empregos e remunerações porque é como nós vemos o mundo e o meio pelo qual buscamos o sucesso financeiro;

Confiamos que a vida seja perigosa e precisemos andar sempre alertas, então acreditamos que as outras pessoas também vivam em alerta;

Confiamos que não seremos mortos ao acaso porque não queremos matar ninguém. Já quando há ódio, a vontade de matar da pessoa também se torna o seu medo de que a pessoa a quem odeia lhe mate. Isso é empatia: entender o que o outro deseja fazer de acordo com as suas emoções.

É com essa perspectiva egoísta e simplista que criamos uma ideia sobre os outros como se fossem nós. Ao mesmo tempo, assimilamos eventos intensos ou repetitivos como realidade e a adicionamos a esta crenças. Assim criamos ideias de que alguns lugares são perigosos (de tanto ter notícia sobre os perigos), que em alguns horários há mais risco (por haver mais violência relatada neste período), que alguns lugares devem ser mais silenciosos como em locais religiosos, que alguns devem ser mais bem-cuidados do que outros como em lugares com maior riqueza…

São informações que vemos e vivemos diariamente e inconscientemente absorvemos e as introduzimos em nossas crenças afetando a confiança que temos.

Como partimos do pressuposto de que as pessoas sejam como nós, tudo que seja estranho para nós também deve ser estranho para os outros. Com isso estabelecemos que alguns comportamentos são corretos ou desejados, de acordo com o nosso próprio comportamento e expectativas, ou errados, quando não o compreendemos ou o tememos.

O fato é que as pessoas são diferentes apesar das similaridades. De fato as emoções mais intensas e básicas estão presente na maioria das pessoas justamente por conta dessas características. Conforme nos desenvolvemos, nós “desbloqueamos” novas emoções que nos levam a novos pensamentos e comportamentos mantendo uma lógica em nossa cabeça, mas que parece aleatório ou sem motivo para quem pensa como costumávamos pensar.

Existe uma média em que o ser humano está no desenvolvimento emocional. Quanto mais distante dessa média, mais somos vistos como estranhos pelos outros e o mesmo acontece no particular: quanto maior a distância do desenvolvimento emocional entre as pessoas que se relacionam, maior é a incompreensão de quem está menos desenvolvida.

A pessoa mais desenvolvida entende a menos desenvolvida por já ter passado pela mesma situação, pela mesma fase, mas esta não consegue entender quem está mais desenvolvido porque lhe falta desenvolvimento. É como a matemática: quem entende equação compreende as operações básicas e suas limitações, mas que estende somente estas operações básicas, não entende as equações. Isso também pode ser visto na linguagem em que há que esteja aprendendo a compor palavras e há que crie textos elaborados com estas entendendo aquelas, mas não vice-e-versa.

O desenvolvimento de qualquer coisa é progressivo fazendo com que a pessoa mais adiantada entenda as mais atrasadas, mas que estas não compreendam aquelas e isso se dá no campo emocional e mental.

Pessoas que estão muito atrasadas no desenvolvimento emocional comparando com a população geral são vistas como perigosas justamente porque não agem como o esperado pela maioria. Ainda que a população geral esteja mais à frente no desenvolvimento emocional, o egoísmo as leva a pensar que estão certas, que todas as outras opções estão erradas e que são absurdas. Assim, ao se depararem com um psicopata não entendem de imediato como ele funciona, mas por empatia consegue entendê-lo. Já o psicopata não consegue compreender as pessoas que estão à sua frente emocionalmente nem com esforço ou explicação. Para ele não há lógica porque a lógica humana é emocional, não intelectual e isso é melhor explicado em A loucura do desejo, Falsa lógica entre premissas, A lógica emocional da divindade e Provando a existência de Deus através da “lógica”.

É por conta dessa parte emocional que conectamos ideias, compreendemos os outros e criamos expectativas. Portanto, não é ilógico imaginar que precisamos das emoções para compreender quem as sentem.

Ainda que um psicopata não tenha as mesmas emoções que nós, conseguimos entendê-lo parcialmente já que também somos egoístas. Embora tenhamos apego e afeto por pessoas próximas ou que nos geram bem-estar, não nos importamos com as demais e é esta sensação que o psicopata tem em relação a todos. A diferença é que ele não tem esse apego ou afeto, mas o resto tem a mesma base emocional e lógica que nós.

As pessoas mais distantes do nosso grau emocional são as mais estranhas e temos os estremos disso com o psicopata mencionado, que não tem empatia, e o empata, que a tem “demais”. Enquanto o primeiro ainda guarda similaridade conosco, o segundo não a possui fazendo-o ser incompreensível para nós.

O desprezo pelo outro é normal no ser humano e o psicopata o possui mais que a maioria das pessoas, no entanto, os empatas não são assim.

O empata é uma pessoa que de fato sente os sentimentos dos outros como se os absorvesse. Não é a ideia popular de empatia de se imaginar no lugar do outro, mas de realmente sentir o que o outro sente. Dessa forma, o bem-estar do outro lhe impacta diretamente e, mantendo a ideia de que todos nós buscando o nosso bem-estar, o empata quer o bem-estar do outro porque ele mesmo o sente. É uma ideia lógica, mas como não passamos por esta situação, podemos não acreditar nela e desconfiar do empata apesar de suas palavras e descrições.

Conforme nos desenvolvemos, saímos da base da pirâmide de Maslow e subimos descobrindo mais emoções, novas perspectivas e mudando a nossa maneira de pensar, agir e sentir. Substituímos o egoísmo pelo egocentrismo como visto em Como descobrir o que nos falta e com isso passamos a apreciar a satisfação dos outros bem como as suas alegrias e felicidade. Desse modo, uma maneira de nos sentirmos bem é justamente gerando bem-estar aos outros sendo uma ideia lógica, contudo, sem lógica emocional para quem nunca a sentiu.

É com essa empatia que entendemos os outros e desconfiamos dos diferentes. Assim, uma pessoa que gosta do bem-estar dos outros, é altruísta e caridosa não é compreendida pela maioria das pessoas porque estas não são assim. Tais virtudes desejadas são interpretadas como armadilhas para possíveis golpes posteriormente já que a pessoa que vive no egoísmo e não aprecia o bem-estar alheio usa da sua interpretação pessoal para entender o outro. A desconfiança é de que todos que ajam de boa maneira visam se aproximarem para depois darem algum golpe porque é como a maioria das pensam e sentem, isto é, são capazes de fazer e compreendem ser algo comum na espécie.

Misturando as nossas sensações, pensamentos e comportamentos com o que vemos e imaginamos ser possível ou provável no mundo em que vivemos, traçamos as crenças que nos guiam no mundo desconfiando dos outros por serem egoístas, por nós sermos egoístas, por medo de sermos alvo e feridos e por ser altamente provável que o outro não se importe com o nosso bem-estar.

Sabemos que as mentiras são parte fundamental da sociabilidade. Nós as produzimos, repetimos, criamos e as entendemos tanto quanto fazemos quanto quando alguém mente para nós. É natural do ser humano e a honestidade crua costuma ser mal-recebida, razão pela qual escolhemos a mentira que “atenua” a realidade (s nossa sensação em relação à realidade).

Com tudo isso entendemos quem seja parecida conosco. Entendemos suas mentiras e omissões e por termos a mentira como ferramenta social, não acreditamos nas palavras das pessoas, mas em seus comportamentos e nos nossos desejos.

Nós juntamos a realidade e as nossas emoções criando as expectativas e acreditamos nelas convictamente. Mesmo que alguém afirme que goste de nós, se nós não acreditamos que somos alguém legal, não acreditaremos nesta pessoa mesmo que ela fale a verdade e é por isso que não acreditamos quando alguém nos diz algo que discordamos como um elogio que não o vemos como “você é inteligente” e não nos vemos como inteligentes: se não há coesão entre a nossa crença e a fala do outro, nós discordamos do outro, não de nós. Então estamos presos em nossos próprias crenças e isso não pode ser mudado por outros, apenas por nós mesmos através do pensamento e da experiência ao vermos uma situação se repetir tantas vezes que passamos a aceitá-la como real e provável.

Intrinsecamente também sabemos que as pessoas não falam a verdade mesmo que acreditem sê-la. Nós não sabemos tudo sobre nós, então não temos como sermos sempre verdadeiros. Muitas vezes falamos uma coisa, mas queremos dizer outra; agimos de uma forma, porém queremos outro resultado… E sabemos que isso também acontece com os outros. assim, a empatia também entra em ação nos ajudando a compreender o que o outro sente apesar de suas palavras, ou seja, desconfiamos das palavras das pessoas. Então, se alguém afirma que aprecia a felicidade dos outros e nós não concordamos por não sentirmos o mesmo, por não acreditarmos ou por não vermos este comportamento ao longo da vida, naturalmente nós desconfiamos e acreditamos ser mentira. Talvez mais uma mentira para amenizar a realidade para nós.

 

Resumo:

Somos guiados por nossas emoções e vemos similaridade com pessoas que têm emoções similares às nossas, mas por não entendermos e não acreditarmos nas palavras de quem são diferentes de nós, nós desconfiamos deles.

Por mais que desejamos ter controle sobre nós, as nossas emoções, que são nós, nos controlam em quase tudo o que fazemos e pensamos, então entendemos pessoas que ajam e pensam como nós.

Pessoas possuem menos emoções que nós ou mais emoções ou emoções diferentes são rejeitadas por nós na prática e desconfiamos delas porque sentimos que somos controlados por nossas ações, logo, se somos egoístas, entendemos comportamentos egoístas e até os incentivamos como corretos enquanto condenamos comportamentos altruístas como comportamento bobo, inocente ou ingênuo. Às vezes burro.

A verdade é que confiamos nos sentimos que temos e os percebemos nos outros através de seus comportamentos. Prova disso é quando os demais agem de forma que não entendemos, isto é, motivados por sentimentos ou emoções que não nos governam e por isso nos surpreendemos.

 

A empatia é a capacidade de compreender emocionalmente o outro. Se somos parecidos, então sabemos o que o outro sente e pensa e é nisso em que confiamos.

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