A vontade é o desejo de usufruir de algo, portanto este algo é prazeroso uma vez que buscamos sempre por boas sensações.
Conforme se aumenta esta vontade, passamos a senti-la de uma forma mais física ou “palpável” e a tratamos como necessidade, algo mais sério e importante.
Enquanto não ter uma vontade satisfeita é desagradável, não ter uma necessidade satisfeita gera um transtorno que afeta a nossa maneira de pensar, sentir e agir de modo geral.
A vontade de comer é a busca pela satisfação através do alimento. Podemos desejar ter vontade de eliminar a fome, usufruir o prazer de degustar de algum sabor específico, de adquirir açúcar para o corpo ou algum outro nutriente…
Mas quando temos a necessidade de comer, as coisas mudam. Ficamos mal humorados, não conseguimos pensar direito, temos dor de cabeça ou de estômago, tremedeira, ficamos com tontura e podemos desmaiar.
Como chegamos a um estado em que ficamos transtornados, concluímos que temos uma necessidade de algo que nos regule para que retornemos ao nosso estado “basal”.
As necessidades ou vontades físicas são mais facilmente compreendidas ou aceitas porque são primordiais à vida e todos nós as experimentamos por termos um corpo da mesma espécie que, portanto, reage de forma similar aos demais.
Mas as necessidades podem ir muito além de sensações provenientes dos sentidos físicos e vemos isso na sociedade, principalmente nos outros por termos mais clareza sobre os seus comportamentos enquanto é mais difícil percebermos as nossas próprias ações visto que não temos uma visão plena e completa de nós mesmos, apenas os estímulos que chegam aos olhos e os demais estímulos sensoriais que sejam intensos como barulhos altos ou grande pressão na pele ao pondo de fazer um ferimento.
Por termos experiências similares em relação ao corpo, temos um acordo social inconsciente e implícito do que é certo e o que é errado. Tudo que nos gera dor ou transtorno é tido como errado e, por acreditarmos que os demais sintam o mesmo, concluímos que para eles também se aplica a mesma ideia.
Assim temos que lesões corporais sejam erradas por provocar dor bem como feridas devem ser tratadas porque é o que desejamos acontece conosco. Mas para uma pessoa que não sente dor, como compreender a sensação de um perna quebrada ou uma ferida aberta? Essa pessoa não saber, mas segue a regra de não provocar nada disso nos outros porque a maioria (que sente tudo isso) concorda ser errado tal provocação.
Contudo, cada pessoa tem as suas particularidades que as tornam mais ou menos suscetíveis aos estímulos sensoriais. Algumas pessoas não se importam com barulho enquanto outras ficam completamente transtornadas. É possível que a mesma pessoa que chega a sentir uma dor física por conta de um barulho de sirene possa nem perceber o som das sinaleiras audiovisuais de garagens bem como uma pessoa pode não suportar sons de crianças enquanto outra pessoa se sente relaxada perante o mesmo estímulo sonoro.
O mesmo vale para todos os demais sentidos e assim temos as variações entre os indivíduos. Contudo, por pertencermos à mesma espécie, temos muitas similaridades como não enxergar frequências de ondas ultravioleta ou infravermelho enquanto há espécies de animais que conseguem fazê-lo.
É nesta parte em que temos similaridade que nos focamos para criarmos regras e leis sendo a primeira mais básica de todas é a de não agredir o outro e somar forças juntos.
Diante de um cenário em que estamos sozinhos e encontramos outra pessoa, sentimos alívio ou satisfação em ter mais alguém. Sem que qualquer palavras seja usada ou que qualquer gesto seja feito, é feito um acordo de não agressão ao outro e de união de forças para trabalharem juntos em prol de ambos.
Este instinto que temos nos permite fazer grupos e formar laços e é a tática base da sobrevivência de nossa espécie: a sociabilidade. Nós nos unimos para repartir o trabalho e somar os ganhos como o cuidado com a casa/assentamento, limpeza e cozimento de alimentos, caça e coleta e tudo o mais que se precisa como manter a segurança do local.
Este contrato social não é assinado, não dito e sequer pensado. Ele é automático. Não pensamos nisso, apenas reagimos dessa maneira de forma natural/instintiva e, quando há alguém que não honra com a sua parte do contrato, ficamos surpresos, nos sentimos enganados ou traídos. Sim, temos todas essas sensações mesmo sem qualquer esclarecimento de contrato mostrando que é tão intrínseco do ser humano que nós nos surpreendemos quando ele não acontece.
Esse contrato é implícito na espécie. Não importa muito qual é a região, época, nação ou língua da pessoa: o comportamento de criar grupos é natural da nossa espécie sendo visto como uma necessidade, não apenas uma vontade.
A necessidade de socialização é imensa. Não é uma “simples” vontade, mas uma necessidade porque sentimos que sem a socialização nos sentimos excluídos, isolados, sem apoio, se ajuda, expostos, ameaçados e outras sensações que nos fazem sentir medo e perigo, sinais clássicos contra a nossa vida. Então, visando ter mais segurança, nós nos aproximamos e nos relacionamos numa troca perpétua de tudo o que podemos e queremos sejam coisas materiais ou não.
A troca de favores, gentilezas, afetos, críticas, elogios, carinho, atenção, ideias, informações… Tudo isso é fundamental para a nossa segurança social que permite uma maior segurança física, afinal, vivermos em grupo é menos perigoso do que vivermos isolados.
A sociabilidade humana é tão fundamental que a sua ausência, negligência ou toxicidade podem gerar transtornos mentais, emocionais e físicos, isto é, afeta a própria expectativa de vida, a própria existência.
Enquanto as necessidades são percebidas como indispensáveis à vida num aspecto teórico, na prática é percebida de acordo com a intensidade. Podemos passar um dia sem comer sem termos problemas de saúde ou corrermos risco de morrermos, mas a sensação de fome é tão grande que temos a sensação de PRECISARMOS comer. Não é uma mera vontade, mas uma necessidade.
A socialização pode surgir como necessidade ou vontade de acordo com o bem-estar da pessoa. Assim como uma pessoa faminta PRECISA comer, uma pessoa solitária PRECISA se socializar de acordo com as intensidades das sensações que experimentam. Ninguém morre por falta de socialização diretamente, mas, como visto, a socialização é um mecanismo importante para a espécie sobreviver e é sentida como necessidade quando está severamente insuficiente.
Como indivíduos humanos, precisamos nos socializarmos, mas enquanto indivíduos com suas particularidades, há quem precise de mais, de menos, de um tipo específico de socialização ou de outro.
Há que precise se socializar com muitas pessoas diferentes; quem precise de poucas pessoas, mas com assuntos mais filosóficos e profundos; há quem se sinta bem em trocar apenas algumas palavras com desconhecidos na rua; há quem precise conviver com muitas pessoas; há quem precise de uma companhia romântica ou parental; há quem precise de mais espaço e mais tempo consigo mesmo.
Apesar de tantas opções, todos nós precisamos de algum tipo e nível de socialização, momento em que entendemos que a solidão é um problema, contudo, como julgamos o mundo de acordo com o que nós mesmos sentimos, acreditamos que os demais sejam como nós, portanto, se precisamos de muitas pessoas diariamente, acreditamos que todos os outros também precisam e aí surge um conflito de acreditar que o outro seja parecido consigo e não respeitar as suas particularidades.
Enquanto há pessoas que vivem bem sozinhas trocando algumas poucas palavras com estranhos ao longo da semana, há quem precise de muitas pessoas e muitas palavras. Enquanto este fica com pena do primeiro e tenta convidá-lo para socializar mais vezes, aquele não entende como este consegue se relacionar com tantas pessoas sem se esgotar.
A parte boa da diversidade é que é por conta dela que conseguimos criar e transportar tantas coisas favorecendo a satisfação de muitas pessoas. Temos pessoas em locais e empregos diferentes com demandas diferentes sendo os especialistas os mais produtivos quando na área de sua especialidade.
A parte negativa é a ignorância, burrice e teimosia do ser humano em persistir acreditando em ideias irreais por não terem capacidade de compreender a realidade. ideologias de igualdade, por exemplo, são vistas como belas e desejáveis, contudo, se todos fôssemos realmente iguais teríamos sérios problemas e a espécie poderia até ir à extinção.
Com essa variação toda de intensidade, de sensações, de indivíduos, pensamentos, sentimentos e tudo o mais que sobrevivemos no caos em que acreditamos em muitas ideias erradas como se fossem fatos irrefutáveis.
Variamos de humor, de pensamento, de sentimento, de sensações e todos nós experimentamos tudo isso diferente dos outros. Se não conseguimos entender a nós mesmos, a identificar o que nós sentimos propriamente, como compreender os outros que sentem diferentes de nós?
Para os mais egoístas, a mente pequena os leva a acreditar que estão sempre certos, que tudo o que sentem são fatos e que os outros estão errados. Visando se impor sobre os demais, ditam as suas ideologias como se fossem regras baseadas em suas sensações e, com isso, o que é tido como necessidade ou mera vontade.
Conforme se intensifica, a vontade se torna necessidade e com isso o que queremos se torna o que precisamos, o que pedimos se torna exigência e o mundo como queremos que seja se torna como o mundo deve ser.
Saímos da liberdade em que podemos escolher em satisfazer ou não uma vontade ou como satisfazê-la e caímos na ditadura do desespero de precisarmos de uma boa sensação. É neste desespero que deixamos de pensar ou planejar, não conseguimos mais convencer os outros e a violência passa a ser aceita como adequada e é assim que buscar ajuda médica por conta de uma dor de garganta passa de uma longa espera pela assistência médica e passa a ser um motim quebrando objetos e machucando pessoa quando a dor de uma perna quebrada é agoniante demais para esperar com paciência.
Assim, temos:
Vontade –> necessidade
Queremos –> precisamos
Pedimos –> exigimos
Como queremos que o mundo seja –> como achamos que o mundo deva ser
Quanto mais intensa é uma vontade, mais refém somos desta. Agimos sem pensar, sem planejar, em desespero e aceitamos quase qualquer coisa que amenize esse desejo que nos enlouquece.
A necessidade de não ficar sozinho faz muitas pessoas aceitarem cônjuges tóxicos, violentos ou perigosos;
A necessidade de se alimentar faz com que aceitemos qualquer coisa para comer sem pensarmos na qualidade ou quantidade do alimento;
A necessidade de se sentir amado faz com quem muitas pessoas busquem sempre por aprovações e elogios vivendo para servir aos outros em troca desse reconhecimento;
A necessidade de ficar sozinho faz com que a pessoa aceite uma vida com poucas pessoas e carentes de trocas;
A necessidade de alivia o estresse faz muitas pessoas se alimentarem mal com alimentos saborosos, muito calóricos e pouco nutritivos…
O fato é que quanto maior é a nossa insatisfação, mais desesperados ficamos para reduzir essa sensação ruim e, por isso, buscamos os meios mais fáceis e rápidos de conseguir bem-estar.
O problema maior é quando vivemos em um estado crônico/permanente de insatisfação porque buscamos por satisfações rápidas e baratas constantemente. Como a nossa capacidade intelectual fica reduzida, planejar uma vida melhor e seguir o plano é mais difícil colaborando para a manutenção desse estado crônico de mal-estar.
A variação entre vontade e necessidade é somente a intensidade do desejo, mas isso é capaz de transformar todo um pensamento bem estruturado, amplo e lógico em pensamentos ditatoriais sem lógica, restrito e egoísta que demonstram a intensidade de nossa carência. É assim que transformamos ideias de “como o mundo pode ser melhor se as pessoas agirem de tal forma” para “as pessoas precisam/devem agir de tal forma”.
Mais uma vez, com a maioria das pessoas experimentando a mesma sensação ou pensamento, torna-se natural, instintivo, aceitável e até mesmo bonito ideias ditatoriais e desrespeitosas aos outros deixando claro que a pessoa que as alega não se importa com mais ninguém além de si mesmas e de satisfazer as suas próprias vontades/necessidades.
Ideias de imposição são claras: elas mostram quem querem se impor, sobre quem, como e quanto, isto é, a pessoa imposta deve somente obedecer sem a possibilidade de negar ou discordar.
Embora essa seja a ideia da escravidão e a escravidão seja vista como errada ou ruim, esta mesma ideia é amplamente aceita em muitas sociedades e a explicação é clara: para os obedientes/escravos, é um sistema social ruim, para os impositores, é bom. Isso significa que as pessoas que fazem alusão a tais ideias as imaginam como elas mesmas se impondo a outras, não o oposto.
É assim que temos a visão de que a democracia, sistema tido como bom e respeitador, é vista como boa enquanto a opressão, sistema visto como ruim e desrespeitoso, é visto como ruim, o sistema social vilão. Curiosamente, pessoas que se dizem como boas e democráticas afirmam ideias ditatoriais de como os demais devem se comportar, ou seja, elas querem a escravidão DOS OUTROS, mas como a palavra escravidão é vista como negativa, essas pessoas afirmam não concordarem com a opressão ou a escravidão (delas mesmas). Por outro lado, elas alegam ser conta a ditadura EM QUE ELAS DEVEM OBEDECER enquanto diem como os demais devem se comportar, pensar, sentir.
Embora a contradição seja óbvia e abertamente explícita, a capacidade do ser humano de distorcer a realidade para formar uma ideia mais agradável a si é incrível. Conseguimos a proeza de afirmar contradições como se isso fosse não apenas possível, mas como se fosse lógico. Contudo, para mentes perspicazes e entendem as ideias expressas ou estuda o assunto, essas contradições não são aceitáveis e quem as afirma são vistos como burros, desordeiros, massa de manobra e outras ideias de inferioridade. Também é interessante perceber que, como não conseguimos estudar todos os assuntos profundamente, até mesmo estas pessoas mais espertas provavelmente fazem afirmações contraditórias em outros assuntos e não percebe justamente como aqueles alvos de seus julgamentos desprezantes.
Originalmente, todas as ideias ditatoriais (em que se exige um determinado comportamento ou alteração da realidade) são apenas reflexo dos desejos tão intensos que são tidos como fatos e é a primeira distorção do pensamento que muda toda uma forma de pensar.
Veja mais em
Pequenas distorções, grandes diferenças
Acreditamos em nossos desejos como se fossem fatos
Acreditamos em nossos desejos como se fossem fatos – continuação
Por que confundimos desejos com realidade?
A lógica emocional da divindade
