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Certezas…?

Buscamos por certezas para termos segurança. Queremos ter certeza sobre o que acontece, sobre as informações que temos, sobre o que vai acontecer… queremos a sensação de segurança que a ideia de certeza nos fornece.

Em meio a um perigo, buscamos por algum lugar mais seguro, mais firme, mais certo de que que nos abrigar-nos-á ou proteger-nos-á. Este instinto que temos não existe somente em situações perigosas com risco de vida, mas é a base mental e emocional que carregamos para a vida toda.

Ao conseguirmos tal proteção, buscamos por recursos que precisamos para sobreviver como alimentos e água. Após consegui-los, então passamos a procurar por tais recursos constantemente e, de preferência, ficarmos em algum lugar que tenha tais recursos de modo infinito para que não precisemos procurá-los.

Assim conquistamos a segurança da vida, porém, ao termos tal segurança, começamos a sentir outras necessidades ou vontades como a de uma companhia e afeto. Então nos deparamos com mais uma necessidade: a socialização.

Buscamos por outros indivíduos ou grupos não apenas para satisfazer tal necessidade, mas porque viver em grupo aumenta a chance de ter segurança física contra predadores e de conseguir mais recursos. Dessa forma, a socialização entra na vida humana como uma necessidade não apenas para trocarmos informações, mas como modo de nos organizar favorecendo a nossa sobrevivência, isto é, socializar é sentido como sobrevivência.

Trocamos favores e afetos com os outros componentes do grupo para criarmos e fortalecermos os laços afetivos/emocionais e, com isso, ganhamos importância, fundamental para não apenas conseguirmos permanecer no grupo, mas conseguirmos receber os recursos do coletivo quando estes forem distribuídos.

É com isso que o nosso cérebro entende a importância de vivermos em comunidade, de sermos simpáticos, solícitos e solidários. Não é uma questão de sermos bons ou maus, mas sermos úteis a outras pessoas para que elas se sintam gratas e ajam em nosso benefício em troca do bem que fazemos a elas.

Esta é a essência da política e que está presente em todos os grupos humanos, dos menores, que são as duplas, aos maiores, que pode ser global.

É com isso que a socialização é vista como tão importante e fundamental à vida, mas com o mundo globalizado como o atual, tal socialização ficou aparentemente mais fácil uma vez que temos mais opções de pessoas para nos relacionarmos.

Também é por isso que as pessoas que dependem mais dos outros são as mais “boazinhas” enquanto as mais independentes são as mais “egoístas”. Enquanto as primeiras precisam satisfazer outras pessoas para que estas lhes forneça o que precisam, as segundas se satisfazem e, portanto, não precisam das outras.

Claro que isso não é extremo porque ninguém vive sozinho, mas há pessoas mais ou menos dependentes de outras.

Nós chegamos ao mundo completamente dependente de outras pessoas e o vínculo familiar anda mais é do que essa troca, essa política básica no pequeno grupo chamado família.

É comum os filhos serem gratos aos pais por tê-los cuidados e desejar demonstrar essa gratidão com auxílios, ajudas e presentes, mas também há aqueles que se sentem obrigados a fazê-los como se fosse um dever uma vez que os pais (entende-se por cuidadores) cuidaram dele, ou seja, ele está em dívida. Raramente encontramos pessoas que não desenvolvem vínculo emocional e não se importar com os demais porque exceções sempre existem.

É assim que crescemos com raiva e afeto pelas mesmas pessoas: elas fizeram coisas que não gostamos, que repudiamos, que temos raiva ou desgosto, mas também fizeram coisas das quais somos gratos, que gostamos, que temos boas lembranças e assim, entre gritos e beijos, criamos vínculos que não gostamos, mas que precisamos.

Desenvolvermos com pessoas ao nosso redor significa que elas nos ajudaram muitas vezes, nos inspiraram, nos educaram, nos ensinaram, nos protegeram e tudo isso cria esse vínculo de afeto. Com anos criando este vínculo, nos tornamos adultos que mantém tais vínculos sendo estes a união da família.

Além disso, existe o instinto familiar, materno, paterno, de irmão ou qualquer outro que englobe o cuidado com o parente por ser parente, que nos faz ficarmos juntos e nos ajudar como podemos sendo mais uma influência para a manutenção do vínculo.

Com anos de convivência e instinto, temos a sensação de certeza sobre tais familiares como se pudéssemos contar com eles nos piores momentos e assim fazemos. Por terem pena de nós, preocupação, afeto, gratidão e outras emoções que os fazem cuidar de nós, eles continuam nos amparando e isso explica o porquê de a família ser tão importante para a nossa espécie.

Podemos não ter consciência disso, mas temos as sensações que acreditamos serem certezas. Confiamos e acreditamos em nossos parentes e  por conta disso a união de pessoas e a criação de filhos são e foram modos de unir grupos e buscar a paz.

Por muitos séculos e até milênios o casamento era uma forma comum de unir grupos rivais para evitar tanta rivalidade. Com a união de seus integrantes, os grupos se aproximam e, com um herdeiro em comum, fica impossível a dissociação tornando-os uma única família e, portanto, deve se unir e se ajudar.

Felizmente temos tantas ofertas atualmente que podemos escolher com quem casar-nos-emos ou mesmo se casar-nos-emos porque não precisamos mais de tanta ajuda parental porque podemos trabalhar e comprar o que precisamos ou queremos. Ainda assim, as alianças formadas pelos integrantes das famílias se mantêm geralmente, mas estamos para passar por um momento em que as famílias são muito pequenas seja por poucos filhos ou divórcios reduzindo a quantidade de parentes que temos para nos auxiliar.

Com a falta de parentes para cuidarem de nós e existindo pessoas incapazes de cuidarem de si mesmas, criamos entidades voltadas para proteger e cuidar dos mais desamparados, ato que antes era feito diretamente pelos parentes. Isso mostra que nem precisamos mais de muitos parentes para sermos cuidados, contudo, ainda preservamos o cérebro social que sofre com a solidão. Se um por um lado não precisamos mais criar vínculos com outras pessoas parra sobrevivermos porque existem programas sociais e entidades para tal, por outro nos falta o vínculo afetivo ao qual o nosso cérebro se desenvolveu e se adaptou durante tantos milhares de anos.

É com essa grande segurança que temos que usufruímos de mais liberdade de escolha. Não precisamos mais ter filhos para manter a família, nós podemos escolher porque temos a certeza de que não seremos exilados ou esquecidos por todos, sempre haverá alguém a quem recorrer.

Quanto maior é a capacidade produtiva social, mais certezas temos sobre as produções. Não temos previsão de fome, guerra ou extermínio por predadores. Confiamos nos outros indivíduos pelo simples fato de que temos um cérebro que se desenvolveu assim. Mesmo não conhecendo os outros, nós acreditamos e confiamos que agirão de acordo com a lei, pelo menos em relação às leis mais fundamentais à sobrevivência. Acreditamos que não haverão pessoas se matando fora de nossas casas e, por isso, saímos com relativa confiança e segurança.

A segurança não se trata somente sobre o que percebemos ao nosso exterior, mas dentro de nós também. Quando sentimos dor, nós temos certeza de que está doendo e não questionamos sobre isso. Para nós é um fato tal como o sol é amarelo por assim o enxergarmos (se bem que às vezes fica vermelho no pôr do sol).

Confiamos em nossos sentidos físicos e, quanto mais intensa é uma sensação, mais certeza temos sobre ela. Então, sabemos que uma perna quebrada dói muito mesmo jamais termos passado por isso, sabemos que um corte de papel é horrível, mas que é menos do que a perna quebrada.

Conforme subimos na escala da sensibilidade, menos conseguimos sentir e, assim, começamos a entrar no mundo das dúvidas. Enquanto estas dúvidas não afetam a nossa vida, nem pensamos sobre elas, mas quando começam a ter mais poder de influência sobre nós, as perguntas surgem e, com elas, a insegurança.

Essa é a diferença entre uma sensação física e emocional: a física é visualmente percebida por outras pessoas, pode ser medida, analisada, observada, avaliada e medida, mas a emocional não porque não tem como a outra pessoa sentir o mesmo, ver, analisar, avaliar ou ter qualquer informação além da que contamos.

É nesta parte que o questionamento alheio surge: você realmente está sentindo isso que você diz sentir? Se for uma sensação intensa, não há dúvida, mas se é sutil, começamos a duvidar de nós mesmos e é neste aspecto abstrato que muitas pessoas conseguem nos manipular.

A parte intelectual é vista com mais credibilidade porque costuma estar associada ou mesmo pautada em fatos, análises, provas ou evidências, mas as partes emocional e psicológica não. Estas dependem inteiramente de nós, portanto, se nós não sabemos o que sentimos, se não entendemos o que pensamos, facilmente outra pessoa consegue nos manipular com palavras e discursos.

Pessoas com transtorno de personalidade antissocial que possuem um intelecto desenvolvido sabem como fazer para criar dúvidas em nós mesmos bem como divulgar outra narrativa de modo que conseguem fazer com que nós mesmos não confiemos mais em nós mesmos.

Relacionamentos de intensa manipulação são exemplo disso: é a maneira de usar dessas partes sutis de uma pessoa contra ela mesma. Quanto mais questionada e quanto menos validada a pessoa é, mais dúvidas têm sobre si e entra no ponto de não confiar mais em si mesma. Assim, ela depende da outra: depende que a outra lhe diga o que está acontecendo, o que deve fazer, o que ela mesma sente.

Como somos seres sociais, precisamos de pessoas, de afetos e, num cenário em que temos apenas uma pessoa assim, aceitamos relações tóxicas sem perceber a nocividade delas porque ficar sozinho é ainda pior. Escolhemos dentre os males, o menor.

Mas para pessoas que não passam por esta dúvida sobre si mesmas, há as pessoas que têm certeza sobre o que sentem. Esta certeza muitas vezes é tão grande que a pessoa age e acredita como se ela fosse um fato, algo óbvio e que todos concordam, assim, encontrar alguém que haja diferente ou pense diferente é uma surpresa que gera medo.

A famosa frase de que “cada um tem a sua verdade” significa justamente isso: cada um ACREDITA em sua narrativa, mas isso não se configura uma verdade de fato, é somente a crença pessoal. Como agimos baseado no que acreditamos e acreditamos em diversas coisas reais, fantasiosas e imaginárias sem distingui-las, nós generalizamos tudo o que acreditamos como se fossem fatos e as defendemos tanto quanto possível. Assim, acreditamos que a nossa opinião, que é, na verdade, uma ideia pessoal, parcial e muito falha por termos poucas informações sobre o assunto, como verdade e a defendemos como se fosse um fato.

Há quem defenda tanto a sua opinião como se fosse um fato que aceita humilhações, torturas e até mesmo a morte como é possível ver na história da humanidade pessoas que não se traíram (mantiveram as suas crenças) mesmo que isso custasse as suas vidas.

O fato é que costumamos agir de modo a acreditar em tudo o que sentimos. Assim como vemos um céu azul e temos certeza de ser azul, temos a mesma sensação de certeza sobre tudo o mais que sentimos, sejam ideias, emoções, sentimentos, palpites, achismos, crenças, sensações físicas…

A percepção humana é a mesma desde a vida mais básica à mais desenvolvida/complexa: procuramos por segurança e nisso vemos pessoas que buscam segurança emocional, psicológica, intelectual, física, ideológica, política… Procuramos por pessoas que tenham as mesmas “verdades” que nós e nos afastamos de quem seja diferente nos agrupando em bolhas que reafirmem as nossas próprias sensações pelo simples fato de nos gerar mais certeza e sensação de segurança de que estamos certos.

Buscamos a sensação de segurança seja essa segurança real ou imaginária como visto em O medo de não agir e Preconceito 2020.

Até quem questiona muito busca por segurança: a segurança de acreditar no que é verdade ou real e o questionamento nada mais é do que uma forma de testar se suas crenças continuam válidas ou não.

 

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