Nasci num hospital. Sozinha.
De repente, abri os olhos e vi um teto. Paredes claras e um piso branco que brilhava com a luz. Uma janela à minha esquerda, longe de minhas mãos, estava aberta.
Virei para baixo e vi minhas mãos com um avental hospitalar claro por trás. Então uma mulher velha vestida de enfermeira entrou e me olhou em silêncio.
Também não falei nada. Apenas esperei para saber o que deveria fazer. Ela se aproximou de um monitor próximo a mim, conferiu vários dados e fios, então me olhou, se virou e saiu ainda em silêncio, mas deixou escapar:
— Vou chamar o médico.
O que aconteceu? Eu nasci.
Será que é assim que as pessoas nascem? Talvez eu seja um bebê de proveta que se desenvolveu em um útero artificial e, assim, não tenho mãe. Nem pai.
Com o silêncio novamente, fiquei a esperar naquele cubo claro por tordos os cantos. Sem mãe, sem pai, sem irmãos, sem conhecidos. Apenas eu.
O doutor chegou, me examinou e, sem falar nada, se foi.
Talvez essa seja a condição humana na época em que estou: nasço já num corpo adulto, sem pais ou cuidados interpessoais. Apenas conferem se o meu corpo está funcional porque nada mais importa.
Um mundo estranho. Silencioso. Com pessoas, mas sem relações. Será que é um mundo ultramoderno com tantas tecnologias que os seres humanos são fabricados por estas? Talvez.
Qual é o objetivo disso tudo? será que colocar-me-ão em algum tarefa? Será que perguntarão algo para mim? E de onde vem tantos pensamentos e questionamentos? Por que pergunto sobre mim mesmo? Sobre a minha condição? Isso é normal ou não?
Cansada de esperar, eu me levantei e andei pelo cubo claro que tinha a porta aberta para um corredor branco, mas que não ousei atravessar. Cheguei perto. Estiquei o pescoço e vi o longo corredor com pessoas diversas. Em cadeira de rodas, muitas com uniformes brancos, alguns com jalecos brancos. Definitivamente as cores claras dominam e as escuras são vistas apenas em aparelhos e monitores.
Voltei. Andei em círculos. Sentei-me na cama, levantei-me, fui ao banheiro. Tudo muito estranho. Como seu que isso é um hospital? Não sei. Só sei que eu sei que é.
Sentada, reparei em minhas pernas e pés que já sabiam perfeitamente como se moverem e me sustentarem; sabia que deveria me sentar no vaso para descarregar a bexiga e o intestino, lavar as mãos depois, mas como sei tudo isso? Como consigo pensar em tudo isso? Como consigo ter tantos pensamentos?
Eu nasci adulta, com um corpo funcional. Talvez, antes de me colocarem para nascer aqui nesta cama, eu tivesse em uma cápsula que estimulasse o meu cérebro e corpo fazendo-os aprenderem enquanto eu ainda me desenvolvia… é uma possibilidade.
À noite, as luzes brancas e fortes do corredor iluminaram o quarto ainda silencioso, mas então alguém apareceu na porta. Uma mulher estática, de olhos arregalados e, mais uma vez, com roupa clara. Por que tudo aqui precisa ter a mesma paleta de cores? Onde estão as cores vibrantes, depressivas, intensas, ofensivas, alegres? Talvez não existam neste mundo em que nasci. E foi no meio desses meus pensamentos que o silêncio foi rompido:
— Você acordou — disse a mulher estranha.
Não entendi. Não se acorda quando nascemos. Apenas nascemos. Não tinha nada antes, portanto, eu não dormi. Só se acorda de algo que antes existiu, o que não é o meu caso.
A ausência de memória pode fazer com que sintamos que não houvesse nada antes assim como acreditamos que algumas coisas, as quais não nos lembramos, não tenham acontecido.
Nós não nos lembramos de quando nascemos, embora saibamos que isso aconteceu. Não lembramos de toda a nossa infância ou tudo o que vivenciamos, mas sabemos que tudo isso aconteceu.
Entre crença e descrença baseado no que lembramos, criamos, imaginamos e ouvimos dos outros, criamos a nossa história assim como a história do mundo. Mas assim como nós não nos lembramos de tudo, como confiar no que o outro relata se ele sofre da mesma desmemoriação que nós já que são igualmente homo sapiens? Não questionamos. Aceitamos e talvez este seja um perigo para a criação da história nossa, dos outros e do mundo.
Podemos confiar nas nossas memórias que se misturam com a nossa imaginação e esta é feita de emoções e ideias? Parcialmente. Então, como saber se podemos confiar ou não no que “lembramos”? Qual parte da “memória” é confiável e qual não é? Não temos como saber mesmo que estudemos muito. Ademais, podemos estudar muito algumas memórias, não todas, então somos reféns das memórias que temos que não são seguras.
A vida é essa mistura entre realidade e fantasia o tempo todo. Não temos como ter certeza das coisas porque existem inúmeras possibilidades sobre a realidade, mas, ainda assim, buscamos provas sobre o fenômeno que sentimos ser real. Talvez ele nem exista e vivamos apenas em uma simulação como numa matrix.
Conviver com esse fato de que nada é certo é angustiante demais para as pessoas que estão nos primeiros estágios do desenvolvimento emocionam uma vez que buscam por segurança. Mas para quem preza por si mesmo para além de um corpo físico, tudo isso é superinteressante de ser pensado e analisado enxergando a dúvida como possibilidades interessantes.
A incerteza não é um perigo, mas uma gama de possibilidades e a responsabilidade, advinda do desenvolvimento emocional, é uma liberdade que permite escolher como viver, como enxergar a vida e, portanto, ser feliz ou infeliz independentemente da vida “real” onde o seu corpo físico mora.
