O psicológico de uma pessoa é uma parte emaranhada que converge o emocional e o mental. Por ser desconhecido e abstrato, ainda é percebido como confuso e sem muita veracidade por quem não é formado na área.
Falar sobre o psicológico de forma cotidiana é estranho por enquanto. Aceitamos quando se fala em terapias psicológicas, mas nada muito além desse campo.
Independentemente do nosso conhecimento, ele existe assim como a radiação solar e a gravidade do planeta que sempre existiram para este mundo mesmo quando o ser humano os desconhecia e isso significa que o simples fato de não sabermos não o torna inexistente, apenas que nós não o conhecemos.
Um dos papéis centrais dessa parte humana é nos proteger de ameaças emocionais que, indiretamente, afetam o nosso corpo uma vez que reagíamos às emoções como é o exemplo do medo e da fome que nos fazem buscar abrigo e alimento, itens que favorecem a nossa sobrevivência.
Essa proteção não está relacionada apenas a emoções, mas a sentimentos que são construções emocionais enquanto as primeiras são reações imediatas, mais instintivas. Dessa forma, o nosso psicológico busca sempre o nosso bem-estar emocional e usa de várias táticas para conseguir este resultado porque ele desconhece regras criadas ou ideais como ética. Ele é natural, eficaz e pouco controlado por nós mesmos, mas fundamental para a existência da espécie humana.
Quando estamos em situações de sobrevivência (corporal), a nossa percepção é alterada e fica mais egoísta, priorizando os próprios prazeres que, no fim das contas, nos mantêm vivos como o prazer de comer e de se sentir seguro.
Quando estamos envolvidos socialmente fazendo parte de uma comunidade, a segurança física aumenta porque temos a quem recorrer. Temos familiares e amigos que podem nos ajudar e com isso já nos sentimos mais seguros do que sozinhos sendo um dos motivos pelo qual a sociabilidade é fundamental para a nossa espécie.
O problema de viver em sociedade é que temos outras pessoas com pensamentos e sentimentos diferentes de nós. Enquanto achamos que estamos certos, elas acham o mesmo sobre elas e assim nascem os conflitos que são fundamentais para o aprimoramento humano uma vez que manter algo sempre de uma maneira só é estático e o mundo é dinâmico.
É com essa estrutura social, psicológica e emocional que criamos outras ideias e crenças as quais são sentidas como partes de nós. É por conta dessa sensação que sentimos que somos agredidos quando sentimos que não acreditam em nós. Se temos certeza sobre o que sentimos, achamos que é verdade, um fato e, portanto, não deve ser contestado. Assim, se é contestado de alguma forma ou mesmo apenas sugestionado de que possa não ser verdade, nós nos sentimos feridos e inseguros uma vez que a certeza que temos sobre nós é posta em dúvida.
Para fugir dessa situação, negamos e lutamos contra quem discorde de nós, porém as pessoas mais inteligentes usam dessas oportunidades para estudarem a sua própria estrutura psicológica ou reorganizá-la como acha ser mais adequado para com a realidade.
É neste cenário de acreditarmos estarmos certos juntamente com a nossa perspectiva, que é pequena já que é resultado de nossas vidas, que achamos absurdo quem discorde de nós. Com poucos dados sobre o mundo, acreditamos que ele é apenas o que vivemos e resumimos tudo numa palpite de última hora que eleva a nossa sensação de certeza. Por conta disso gostamos de opinar sobre o que não sabemos e temos receio de ter uma opinião absoluta sobre os assuntos que mergulhamos porque passamos a conhecer as suas nuances e, portanto, constatamos que uma opinião simples não basta para concluir um raciocínio tão vasto.
Mesmos os mais inteligentes mentalmente tem esse desconhecimento e agem com a mesma base que os demais sobre o que desconhece expondo os seus preconceitos abertamente. Se por um lado não acreditam em nós, por outro nós também não acreditamos nos outros porque não temos as experiências deles.
É assim que criamos ideias vagas com opiniões fortes sem embasamento algum, mas que temos certeza absoluta e é com essa crença que seguimos a vida e as expressamos através de nossas ações e escolhas sejam elas tomadas de forma consciente ou não.
O costume à vida que temos é outra parte fundamental que nos leva a aceitar o que acontece frequentemente. Sem analisar a situação, nós apenas a absorvemos e a reproduzimos de tanto vê-la se repetir e tomamos como correto ou, no mínimo, aceitável. Então criamos a cultura: convenções que estamos acostumados a seguir.
Como cada pessoa tem a sua própria cultura por ter a sua própria maneira de pensar, sentir e agir, a cultura é individual. No entanto, como compartilhamos muitos caracteres com os que nos rodeiam por absorver deles e também por os influenciar, nós conseguimos nos ver parecidos e, às vezes, iguais, aos demais. então estabelecemos que cultura seja algo social, não pessoal, uma vez que muitas crenças e muitos comportamentos são compartilhados por seus integrantes e, neste ponto específico, são iguais.
Assim percebemos uma cultura diferente quando há um choque nesta realidade de comportamentos e hábitos. É o estranhamento de ver algo diferente que nos choca por nos fazer sentir diferentes.
Quando um comportamento é muito estranho para nós, é fácil ignorá-lo e manter a nossa crença de que aquilo não existe. Assim protegemos a nossa estrutura psicológica mantendo as nossas crenças ainda confiáveis dentro do nosso ponto de vista.
Contudo, temos limites. Quando algo é muito ruim, nós temos ignorar tanto quanto o possível isso não precisa ser real. O simples fato de imaginar é o bastante para termos reações porque imaginamos algo e o corpo reage a essa imaginação como se fosse realidade e, como não queremos essa reação corporal desagradável, nós controlamos o que podemos: a imaginação.
Imaginar cenários de horror ou nojentos passa por isso enquanto ideias engraçadas nos fazem imaginar coisas estranhas, mas engraçadas. Como a reação da risada de achar algo engraçado é bom, nós gostamos e queremos repetir, mas o princípio é o mesmo: a imaginação.
Quando uma ideia é muito absurda para o nosso psicológico aceitar, processar ou mesmo entender, nós a ignoramos tanto quanto o possível. É assim que os discursos claros de ódio inclusive com a palavra “ódio” e seus derivados expressos explicitamente não são vistos como tais porque não queremos ou não conseguimos acreditar que seja real.
Décadas atrás discursos de ódio começaram a surgir e, em vez da população ignorar, muitas pessoas apoiaram porque outro defeito do ser humano é a falta de separação entre o objeto e suas características, neste caso, a pessoa e suas ações.
Podemos não gostar de uma pessoa, mas adorar o trabalho dela, porém como existe um limite claro entre a pessoa e as suas partes (relacionamentos), confundimos as relações. Então vemos um vizinho como uma amigo, um amigo como um namorado, um ficante com um noivo, um funcionário como uma pessoa legal… Dessa forma, discursos sobre vários temas diferentes são feitos sem qualquer lógica e o discursante mais carismático não é o inteligente, mas aquele que sabe atiçar as emoções ou os sentimentos mais fortes da maioria empoderada.
É completamente possível uma pessoa ser horrível, mas ter ótimas ideias para um povo bem como sugerir ideias boas e ruins ao mesmo tempo. Sem sabermos pensar e sem buscarmos por esse conhecimento, nós apenas resumimos tudo quanto podemos em uma opinião simples, rápida e pequena.
“Se uma pessoa é boa em algo, então deve ser boa nas outras coisas” – este é um pensamento muito comum que explicita este resumo que fazemos sobre o que desconhecemos e é com isso que pessoas que péssimas intenções conseguem grandes poderes: elas fazem coisas boas, porém fazem coisas ruins também.
Desejando que isso não seja verdade, escolhemos acreditar no bem que ela faz porque é o que nos gera mais satisfação no momento e, assim, deixamos passar discursos que enfatizam ódios e violência como se não fosse reais.
Com crises financeiras, algumas populações se reuniram em revolta contra as regras que passavam porque tinham muita insatisfação. Indivíduos eventualmente discursavam atiçando essa sensação de revolta (sensação intensa) afirmando que tudo melhoraria, porém, os discursos não eram somente sobre melhorias.
Por entre ideias de bem-estar à população, ideias de ódio também eram disseminadas e, como a maioria só queria a parte boa do discurso e não era prejudicada, então aceitar tais pessoas era não apenas fácil, mas uma escolha óbvia.
Os discursos anunciados em vários meios de comunicação eram assistidos por muitos, mas a parte ruim era desacreditada. Vários países ouviram ou viram tais discursos e ignoraram porque parecia apenas metáforas uma vez que eram violentos demais para que as pessoas acreditassem serem possíveis. É como “estou morrendo de fome” em que a pessoa não está nem próxima da morte ou “ou vou matar fulano por não cumprir o combinado” em que não vamos matar ninguém, apenas expressamos como estamos com raiva.
Por anos milhões de pessoas ouviram tais discursos acreditando serem metáforas ou somente ignorando quanto podiam porque imaginar aquela cena já seria muita violência em suas mentes e foi assim que muitos judeus perderam direitos sociais, legais e até mesmo o direito à vida: discursos sobre isso eram feitos, mas como a sociedade não os via na prática, não acreditava que acontecia ou, se via, não se expunha para não sofrer com consequências porque o medo é a emoção mais importante do ser humano uma vez que nos leva a buscar por prazeres que nos levam a sobreviver.
Muitos discursos contra judeus foram feitos e muitas coisas discursas contra eles também foram implementadas, mas parece que ninguém (poucas pessoas) fez nada até ser tarde demais.
Os campos de concentração na Alemanha foram um choque mundial mesmo com o líder do país falando o que faria com o povo que desejava exterminar porque acreditar ser possível tanta crueldade era difícil para mentes que vivem em boas comunidades.
Como nos acostumamos a viver como vivemos, nos é difícil acreditar viver de outra forma, então imaginar tanta diferença não é apenas difícil como horripilante. Então, se vivemos em uma sociedade em que todos são livres, ninguém é de ninguém, imaginar um lugar em que há escravidão (mesmo que com outras palavras) nos é difícil e penoso.
O fato de já termos passado por algumas regras e não mais concordar com elas nos faz sentir que são velhas, ultrapassadas e desatualizadas, então quando as vemos em outra sociedade nós ficamos inconformados com o “atraso” dela. É com isso que achamos absurdo lugares em que mulheres não podem sair de casa sozinhas, que não podem escolher casamento ou trabalharem, um tipo de escravidão já que não existe liberdade mesmo que não seja pronunciado esta palavra tão errada nos últimos tempos.
Então imaginar que em algum lugar do mundo houvesse esse “retrocesso” era incabível, então não se levava à sério. Até se comprovar realidade.
Na década de 1920 houve uma situação curiosa em que uma enfermeira cuidava dos enfermos que pediam a sua ajuda justamente por ela saber como cuidar de pessoas doentes já que era enfermeira. Ela os aceitava e cuidava de todos eles, mas todos morreram.
Logo de início a ideia geral era de que quem pedia ajuda a ela já estava destinado à morte e que ela apenas amenizaria o sofrimento do paciente, contudo, revelou-se que todos os pacientes que foram cuidados por ela e morreram foram envenenados.
E enfermeira envenenava os pacientes ao longo dos dias através dos remédios e alimentos que lhes dava num comportamento de carinho e cuidado e quando esta revelação foi à público, a opinião social discordou completamente.
Vestindo-se sempre bem, educada e gentil, a moça era tida como exemplar e ótima vizinha e esta era a opinião de quem a via eventualmente e não convivia com ela. Com mentes fechadas e decididas a acreditarem em si próprias do que em fatos, a sociedade não acreditou que fosse possível que ela, uma moça tão boa, fosse tão cruel. Então, a maneira para unir fatos às opiniões foi de colocá-la como doente mental e, por conseguinte, incapaz de se responsabilizar por seus atos uma vez que uma pessoa doente mental jamais faria isso e ela sem dúvida jamais faria isso se tivesse sã.
Embora os fatos fossem claros como o dia, a sociedade não conseguia acreditar que uma pessoa que parecia tão boa fosse tão perversa e sempre escolhemos as nossas crenças e opiniões como corretas e a serem seguidas, exceto em situações extremas de grande intensidade como vida ou morte, momento em que somos hipócritas justamente porque mente e emoções não estão unidas, mas em disputa e a emoção SEMPRE vence.
Acreditamos no que desejamos que seja verdade porque nos dá a esperança de que seja e isso alimenta a imaginação que gera ideias que nos fazem ter sensações corporais agradáveis. Sejam palavras, ideias, fantasias, sonhos, estimuladas ou criadas por outros ou por nós mesmos, nós sempre buscamos o prazer seja físico, mental, emocional, psicológico e, para este último, temos a tendência de buscar não alterar e manter tudo como está, a essência dos conflitos humanos sejam com outros, consigo próprio ou com o mundo já que é possível sentir revolta contra objetos e ideia abstratas como “a injustiça do mundo”.