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Por que nos preocupamos com a opinião alheia?

A espécie humana se desenvolveu, prosperou e se disseminou por conta da tática de sobrevivência pautada na sociedade em que vários indivíduos se unem para formar um coletivo elevando a taxa de vitória deste que, então, é de todos os envolvidos.

 

A sobrevivência sozinha é praticamente inexistente. Ficamos vulneráveis a predadores, fome e doenças enquanto temos mais segurança quando há outros perto.

 

O processo de especialização do ser humano permitiu esse desenvolvimento: algumas pessoas se destacavam em algumas habilidades e, por isso, eram delegadas tarefas específicas que precisavam dessas habilidades. Quanto mais se faz e se aprende, melhores ficamos na atividade: o processo de especialização.

 

Esse processo é tão normal que nem o percebemos. Nós temos trabalhos e empregos que são justamente a especialização em tarefas em vez de buscarmos tudo o que queremos. Nós nos empenhamos em alguns serviços enquanto os demais se empenham em outros e, então, trocamos o produto de nosso trabalho. Isso é muito melhor do que precisarmos plantar e colher a nossa própria comida, zelar pelo nosso território, caçar, obter água e criar a própria segurança.

 

Um ser humano fica sobrecarregado em fazer tudo isso, razão pela qual dificilmente sobrevive sozinho. Nós criamos subgrupos dentro do grupo geral e delegamos responsabilidades específicas para cada um. Assim temos pessoas que cozinham o alimento, pessoas que encontram ou buscam alimento, há quem cuide da água, quem crie estratégias de segurança e cuidadores sociais dos integrantes. É essa divisão de trabalho que permite e permitiu que a espécie humana se proliferasse mundo a fora e a estrutura básica de uma sociedade.

 

Por conta disso nós buscamos pertencer a algum grupo de forma inata. É um instinto de sobrevivência que temos até hoje e que é usada constantemente, mesmo que não percebamos.

 

Acontecer que agora temos muito mais recursos do que o necessário para a sobrevivência. Criamos técnicas, regras e organizações justamente para facilitar tudo isso para cada um. Em vez de procurar alimento ou caçar, nós os cultivamos ao nosso bel-prazer e solucionamos o problema da fome. Criamos regras sobre propriedades para que não precisemos tomar conta do nosso patrimônio pessoalmente e possarmos sair do nosso território (lar) e voltar sem a preocupação de estar dominado por outra pessoa ou animal.

 

Enquanto no mundo selvagem tudo acontece com os sentimentos mais básicos que nos permite sobreviver por mais algum tempo, com tanta facilidade não precisamos mais deles, no entanto, são parte de nós e agimos e pensamos como se eles fossem regras gerais e para todos ao ponto de acreditarmos serem óbvios.

 

A disputa e luta pelo território no mundo selvagem tem um grande risco à vida. Podemos lutar e vencer; lutar, vencer e sermos feridos; lutar e perder; lutar, perder e sermos feridos; ou morrer. Com as regras que implementamos, nós dividimos o território do grupo e cada pode ter o seu espaço conforme as regras do coletivo. Caso as regras sejam violadas, não somos nós quem lutamos com o intruso, mas recorremos a organizações que orquestram a estrutura social do grupo. Isso reduz quase que completamente o risco de morrermos ou nos ferirmos na disputa pelo local.

 

A alimentação também é comunitária: alguns subgrupos se especializaram em cultivar alimento e o fazem em abundância ao ponto de poder oferecer a outras pessoas por ser além da necessidade pessoal. Isso faz com que os outros integrantes não precisem se preocupar em cultivar alimento e, portanto, têm disponibilidade para se dedicarem a outras tarefas.

 

A especialização humana gera cada vez mais pessoas livres de tarefas básicas para a sobrevivência permitindo-as investir em outras áreas que favorecem o desenvolvimento do grupo. Com as novidades que facilitam ainda mais a vida, criamos ainda mais especialistas e favorece que outras pessoas fiquem livres de tais obrigações e possam se dedicar a outras coisas como produções e estudo num ciclo em que temos cada vez mais pessoas criando mais coisas diferentes que satisfaz o coletivo.

 

O instinto de sobrevivência nos leva a buscar nos entrosar e participar de algum grupo para termos todos esses benefícios. Indivíduos que não colaboram, ou pior, que prejudicam o grupo, são excluídos e descartados para manter o bem-estar do grupo e da maioria. É neste contexto que o instinto de pertencimento entra em ação para evitar que sejamos rejeitados: tentamos ser boas pessoas para que os outros gostem de nós e, então, sejamos parte do grupo podendo usufruir da regalias deste.

 

O valor social de uma pessoa é justamente esse valor que é percebido pelos outros. Quanto mais contribuímos para com o grupo, mais querido, bem-vistos e cuidados pelo grupo somos uma vez que o grupo se esforça para nos satisfazer visando nos manter inseridos nesta sociedade e, então, eles continuarem a usufruir da nossa contribuição.

 

Mesmo criando regras gerais, as pessoas mais importantes para o grupo possuem mais regalias do que as menos importantes justamente porque contribuem mais. Em outras palavras, o poder social de uma pessoa é o poder de geral bem-estar ao grupo que a buscará sempre para se sentir bem. Aplicar as mesmas regras a pessoas fora da normalidade é burrice porque não vale a pena sancionar tanto alguém que favorece muito a sociedade porque o próprio grupo perde nisso.

 

Da mesma forma, a pessoa que contribui bastantes percebe o seu valor e barganha com ele exigindo o que deseja com mais afinco.

 

A vida é uma constante troca porque somos especialistas em poucas coisas, mas precisamos de muitas. Então trocamos o que temos com o que os outros têm num acordo de benefício mútuo. Uma pessoa que não gosta de maçã não a consumirá, então o poder de negociação de um vendedor de maçã com tal pessoa é nulo. Não importa o quanto ele ofereça de maçãs para ela, ela não aceitará e, assim, não há troca.

 

A ideia de moeda foi criada para evitar tal problema e facilitar as trocas sendo apenas um objeto usado para facilitar as trocas além de quantificar o valor que os objetos têm para a sociedade. assim, o vendedor de maçãs pode vender para uma pessoa em troca de um valor e usar estre valor para trocar pelo que de fato deseja.

 

A nossa necessidade de socialização não é somente para obter coisas materiais, mas para satisfazer outras partes como mental e emocional. Trocamos afetos e gentilezas para criar e manter bons vínculos porque não trocamos somente objetos, mas favores.

 

Por não ter uma moeda emocional que possa ser convertida em quantia nem quantificar o valor da ação feita, tudo isso acontece de forma inconsciente, mas indispensável à nossa vida. É assim que lidamos com família e parentes e sabemos que não vivemos sem eles apesar dos problemas porque nós precisamos de outras pessoas.

 

Tanto para cuidar de nós quando adoecemos ou nos ferimos como para satisfazer vontades emocionais ou mentais, a troca entre os indivíduos é indispensável e outra prova disso é o prejuízo que o isolamento faz nas pessoas.

 

O próprio cérebro humano tem não apenas a habilidade de se socializar como precisa exercer tal habilidade. Pessoas com baixa autoestima buscam outras que as faz se sentir melhor e mais valiosa ao trocar favores e elogios. Sentindo-se importante para o outro por lhe gerar alguma satisfação, a pessoa se sente mais importante e, assim, com uma autoestima mais elevada.

 

Apesar da palavra autoestima se designar à própria pessoa, somos parte do mundo e reagimos a este. Temos as nossas particularidades, mas não somos isolados do mundo. A água do nosso corpo evapora e participa do ciclo da água no planeta que depois volta para nós de outras formas. Da mesma forma a autoestima é diretamente influenciável pelo valor social que sentirmos ter. Se acreditamos sermos importantes, a nossa autoestima é elevada, caso contrário, é baixa e a nossa produtividade e relacionamentos a impactam direta e fortemente como se vê em relação passionais.

 

Um casal apaixonado em que um está mais apaixonado do que o outro mostra a diferença do poder social de cada um e como ele está diretamente ligado ao poder de troca com o outro. Quem sente mais, neste caso a necessidade de ficar com o outro, oferece mais e o inverso também é verdadeiro. Qualquer troca funciona dessa maneira em que oferecemos o que sentimos ser proporcional ao desejo que temos de usufruir de algo. No caso deste casal hipotético, a pessoa mais apaixonada está mais disposta a satisfazer a outra com favores, presentes, declarações, disponibilidade, atenção… enquanto a outra não deseja tanto assim as ofertas da primeira.

 

Isso mostra que as pessoas com autoestima mais baixa são as mais vulneráveis ou fracas socialmente porque, para conseguirem ser amadas, queridas e desejadas, elas têm mais disposição para satisfazer os outros enquanto as pessoas com autoestima mais elevada estão menos disposta a realizar trocas ou ofertar algo ao outro.

 

A percepção de nós mesmos depende de muitos fatores como o nosso julgamento sobre nós mesmos, a nossa produtividade, a nossa colaboração com o grupo e o nosso valor para outras pessoas, logo, não é somente uma criação nossa, mas moldada por fatores externos que são interpretados por nós.

 

Uma pessoa que não recebe atenção em casa facilmente conclui não ter importância para as pessoas que lhe são mais importantes (família) e concluir que ela mesma não tem relevância é rápido. Então, com a falta de atenção constante dentro de casa a pessoa passa a agir como se não tivesse importância para ninguém colaborando para esta perspectiva sobre si mesma e cresce com uma autoestima muito baixa. Por outro lado, uma pessoa que se desenvolve emocional e intelectualmente consegue passar pela mesma situação e criar a sua autoestima ao valorizar a si mesma ao escolher se enxergar por outro filtro. Notas altas, gentileza e pensamentos mais agradáveis constroem uma autoestima mais elevada mostrando que a nossa autoestima não depende dos outros, mas pode ser muito influenciada por eles.

 

O sucesso de se conseguir o que se deseja impacta bastante positivamente nesta autoestima enquanto o fracasso faz o oposto mostrando que ações impactam na sensação que temos sobre nós mesmos.

 

É com a autoestima que acreditamos saber o nosso valor para o outro bem como saber da nossa colaboração para com o outro e assim nós fazemos trocas. Trocamos uma refeição feita quando se chega em casa por um emprego que demanda muito tempo de trabalho; trocamos a alimentação pronta por quem chegou em casa primeiro por atenção e carinho (para o outro); trocamos gentilezas por favores domésticos… sempre trocando porque não conseguimos fazer tudo o que desejamos para nos satisfazer.

 

Intrinsecamente sabemos o nosso valor para o(s) outro(s) e o usamos como poder para realizar as melhores trocas (para nós).

 

Quanto mais desejamos coisas que não sabemos fazer por nós mesmos, mais precisamos de outras pessoas e, então, mais disposição temos em conceder aos desejos do outro para que ele realize os nossos. Dessa forma, as pessoas mais carentes (que querem mais dos outros/insatisfeitas) são as mais desesperadas para conseguir o que deseja e, então, mais aceitam as demandas alheias. É como uma dívida em que a pessoa precisa trabalhar demais para pagá-la, mas depois precisa de mais empréstimo para comprar o que deseja. A pessoa vive neste ciclo de “ter” de ajudar os outros para que os outros a ajudem.

 

Embora sejamos livres para escolher quais trocas faremos, nós nos sentimos escravos de nossos desejos, portanto, nós PRECISAMOS satisfazê-los. Conhecendo a estrutura humana, nós os conseguimos através das trocas com outras pessoas e, com isso, nós sentimos que precisamos que os outros façam por nós, que nós estamos presos “ao outro” (tática de responsabilizar terceiros pela própria incompetência para não reduzir a autoestima). É comum a sensação de sermos usados, desprezados ou inferiorizados por quem exige muito de nós para que nos dê o que desejamos uma vez que nos desgastamos muito para satisfazer tal pessoa, ou seja, nós nos esforçamos e nos desgastamos muito para conseguir o que desejamos através do outro e o culpamos por isso.

 

A falta de esclarecimento emocional permite que a nossa mente crie ideias ilusórias sobre a realidade de modo a preservar o sentimentos que desejamos manter. Se queremos sentir que somos importantes, nós simplesmente culpamos os outros por não nos valorizarem em vez de aceitar a realidade de que não temos importância para eles. Isso permite que fiquemos bem conosco mesmo, mas que criemos conflitos com os outros e até mesmo nutramos ódio por eles quando, na verdade, nada disso aconteceria se nós fôssemos capazes de criar o que desejamos ou se não tivéssemos tal desejo. Nestes dois casos os outros não teriam relevância alguma para nós e a sua existência seria nula para nós, portanto, não são eles quem criam os nossos problemas ou insatisfações, mas nós mesmos.

 

Mesmo pessoas cientes de todo esse processo sente que a autoestima é influenciada pelas opiniões alheias porque é instintivo do ser humano. Enquanto os mais espertos entendem e aceitam os instintos que não podem mudar, os mais ignorantes continuam a criar mais e mais conflitos com os outros ao responsabilizá-los por seus instintos e sentimentos.

 

A necessidade de nos sentirmos parte de um grupo vai para além de um grupo físico e chega a outras partes da vida humana. A necessidade de opinar e se juntar a quem tem opinião semelhante também faz a pessoa se sentir mais confiante sobre si mesma e sente que não está sozinha e que tem com quem contar nos momentos difíceis. É assim que religiões funcionam: são ideias semelhantes de pessoas que se unem para fortalecer a própria ideia, conhecer outras parecidas e pertencer a um grupo que lhe entende e lhe socorre quando precisa porque ninguém é à prova de bala e sempre temos algum momento difícil na vida.

 

Queremos apoio e ajuda e fazemos isso com várias trocas diferentes. Trocamos material por material, emocional por emocional, mental por mental, material por emocional, emocional por material, emocional por mental… fazemos todas as combinações possíveis dentro das opções que temos e escolhemos, ainda que seja de forma inconsciente, a que parece nos gerar mais benefício.

 

Sozinhos não somos ninguém, nem para nós mesmos como os bebês que precisam de outras pessoas. Conforme crescemos, aprendemos e precisamos menos dos outros. sabemos como tomar banho e comer, então não precisamos que alguém faça isso por nós, no entanto, em outras partes da vida nós continuamos a precisar de outras pessoas porque não somos seres autorrealizáveis. É por isso que vivemos em sociedade, que prezamos por nossa vida social/imagem social e que buscamos ter vários relacionamentos: precisamos de outras pessoas e, quem mais precisa, mais disposição têm de realizar a troca com o outro elevando a sua probabilidade de aceitar uma troca com muitas exigências.

 

 

 

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