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Você gosta de ser enganado?

Uma resposta sem pensar provavelmente será “não”. No entanto, ser enganado é uma das melhores formas de se ausentar de responsabilidade e se sentir feliz.

O que é melhor: ver o valor final do produto no lugar do preço ou ver o valor do produto em si com os impostos depois?

A segunda opção permite que o consumidor saiba claramente o valor dos impostos que paga enquanto a primeira gera uma sensação de que não se paga os impostos porque não o vemos de forma clara.

Gratuidade existe?

Um pensamento comum do ser humano é ignorar a possibilidade de desconhecer algo.  Nós acreditamos que sabemos de tudo, logo, o que não sabemos não existe. Assim, remédios homeopáticos, magias e serviços públicos gratuitos são interpretados como não existentes ou que não funciona. Dessa forma, se não vemos o pagamento de algo, concluímos que este pagamento não exista e é com essa interpretação que pagamos altos impostos e ainda acreditamos que os serviços públicos são gratuitos.

Na verdade, todos pagamos impostos os quais são organizados pelas pessoas que ocupam cargos de gerenciamento social seja municipal, estadual ou federal. Ao mesmo tempo que TODOS pagamos impostos, NEM TODOS usam dos serviços.

O serviço público de atendimento à saúde é um exemplo em que nem todos usam, embora todos paguem. Por não sentirmos que ficamos com menos dinheiro ao utilizá-lo, nós entendemos que não o pagamos.

O serviço de transporte público é pago, mas parcialmente no Rio de Janeiro. O município subsidia o transporte público pagando parcialmente o setor e, com isso, o valor da passagem para a sua utilização é mais baixo do que de fato seria para fazer a manutenção do serviço que envolve compra de ônibus, manutenção, higienização, translado da garagem para os terminais, contratação de fiscais, cobradores, motoristas e outras pessoas. No entanto, como vemos que fazemos o pagamento ao adentrar no transporte, sentimos que não é gratuito, embora não paguemos o valor real da passagem. Já para as gratuidades a percepção é a mesma do serviço público de saúde: sem valor.

Sem fazer qualquer pagamento, a pessoa usufrui do serviço que necessita de muitas pessoas e ações para se manter e que, portanto, são pagas para tal. Isso significa que alguém paga pelas gratuidades porque elas usufruem de algo que necessidade de cuidado, manutenção e funcionários. Mas como egoístas, só nos importa o que nós individualmente pagamos, logo, se não pagamos algo, não nos interessa se outro grupo precisa fazê-lo por nós.

Os “gatos” de internet, água e luz são outros exemplos da mesma coisa: como a pessoa não paga pelo serviço de produção, distribuição e manutenção de tais bens e tudo isso requer pessoas e pagamentos para serem sustentados, quem paga realmente o serviço para um valor maior do que o próprio consumo porque, na realidade, o cálculo de consumo é baseado no que a empresa oferece e o quanto ela quer ou precisa de retorno. Ora, se ela “oferece” (ou é roubada) uma determinada quantidade, ela estabelece o quanto quer em retorno e o impõe a quem o paga.

É como um condomínio: o valor de água é dividida por todos os apartamentos independentemente da utilização individual. Inclusive, é por isso que muitas pessoas querem a individualização: para pagar somente o próprio consumo em vez de pagar uma parcela maior por haver outras pessoas consumindo mais (o que entra para a conta final).

Da mesma maneira, pessoas que não pagam o condomínio fazem com que o montante de valor do condomínio seja menor e isso pode causar problemas como atraso no pagamentos de contas e isso acaba por levar o condomínio a enfrentar outros problemas como o corte do serviço prestado e não pago. Dessa maneira, com um apartamento em dívida, os demais recebem um valor maior para pagarem porque o valor de custo do condomínio permanece o mesmo, só há menos uma pessoa para quem dividir já que ela não o paga.

A sensação de gratuidade também gera uma sensação de ausência de valor. Como vivemos num mundo em que usamos números para quantificar o valor de algo, nós comparamos os números para descobrir o que é mais barato e o que é mais caro. Com uma sociedade pautada no sistema monetário, usamos da moeda para executar trocas pelos objetos e serviços que desejamos, logo, desejamos mais produtos por menos dinheiro.

Quanto mais barato é um produto, menos valioso o consideramos, logo, um produto oferecido gratuitamente é percebido como algo sem valor ou desprezível. Com isso, temos que os serviços ofertados “gratuitamente” são ruins ou desprezíveis e, portanto, sem valor. Mas, quem trabalha de graça?

Quantos profissionais são necessários para que um hospital funcione? Médicos, enfermeiros, gestores, administradores, farmacêuticos, empreiteiros… E quantos produtos são consumidos? Remédios, leitos, aparelhos diversos, luvas, coletores para exames… Ignoramos tudo isso porque não precisamos nos preocupar uma vez que não pagamos nada durante a nossa permanência no estabelecimento.

Todos nós pagamos, mas nem todos nós usamos e as universidades públicas assim como escolas públicas são outro exemplo. Elas não são gratuitas, mas não sentimos a nossa conta se reduzir para usá-las, então temos a sensação de que não pagamos e, portanto, que são públicas. Se são gratuitas, então não têm valor, portanto a qualidade é ruim e assim concluímos que o que é público é ruim sem sequer pesquisarmos o assunto para avaliar se esta ideia é verdadeira ou não.

Entender que tudo que é PÚBLICO é PAGO por NÓS muda a nossa percepção. Entendemos que não é um favor alheio porque NÓS pagamos pelos serviços e produtos, mas também percebemos que é a nossa responsabilidade zelar pelo serviço ou produto pago indiretamente por nós mesmos porque OUTRAS pessoas também estão pagando e, ainda por cima, não estão usando. Assim, usufruir da melhor forma possível o que aparentemente é público é uma responsabilidade como cidadão para com os demais cidadãos que também contribuem para que nós possamos usufruir dessas “gratuidades”.

Os cursos públicos como as universidades são pagas por todos nós: por quem as usufrui e por quem NÃO as usufrui, isto é, todos nós pagamos para que quem usufrua delas continue a usufrui-las e, neste ponto de vista, temos que pagamos para que outros estudem e se formem, logo, estes devem ao menos se esforçarem para fazer vale a pena os recursos do POVO. Se somos nós a usufruir de tal oportunidade, temos o DEVER de fazer o melhor que podemos porque a população está pagamos para que nós tenhamos tal oportunidade.

Não é apenas egoísmo desprezar os recursos alheios, mas psicopático desperdiçar toda a infraestrutura aparentemente gratuita que o povo gera e paga além de infantilidade por não perceber que a própria pessoa pega por tais serviços “de graça”. Quem paga por algo para jogar fora ou desprezar?

Temos cuidado com o que é nosso, mas o egoísmo nos leva a acreditar que o que é dos outros não tem valor (para nós), então é fácil gastar e consumir o que é do outro enquanto lutamos para não gastarem o que é nosso.

O fato é que a convivência em sociedade produz muitas coisas que são mistas que são nossas e dos outros ao mesmo tempo. Numa grande sociedade, sequer conhecemos todos que participam dela e, sem saber sobre os outros donos, achamos que eles não existam, afinal, o que não sabemos é interpretado como não existente.

Dessa forma, em vez de vermos um parque público como nosso e com dos outros, vemos como se não fosse de ninguém resultando no comportamento de vandalismo e falta de cuidado pelos reais donos anônimos do lugar.

O nosso egoísmo com a falta de inteligência nos leva a observar apenas o que nos afeta diretamente e de forma imediata, assim, perceber que a sociedade inteira colabora para o seu próprio mal justamente por pensar de forma individualista é difícil.

Com cada um pensando em si, fazer algo bom para si que prejudique ou atrapalhe o outro sequer é cogitado e logo aceito como uma boa opção porque não nos importamos com os efeitos adversos nos outros. Ao mesmo tempo, os outros fazem a mesma coisa e somos nós quem recebe estes efeitos adversos deles, ou seja, por sermos iguais afetamos os outros e somos afetados por eles.

O ser humano se uniu em grupos porque sobreviver em grupo é mais fácil e melhor do que individualmente, ainda assim, o instinto primitivo predomina e entra em rixa com essa organização colaborativa que desenvolvemos para sobreviver chamada sociedade. este é um dos motivos pelo qual vivemos o antagonismo entre “eu e eles” porque às vezes somos “eu”, às vezes somos “eles” e na maioria dos casos somos ambos tendendo mais ou menos para um dos lados. Como defender um lado se participamos dos dois, não queremos criticar a nós mesmos, apenas nos defender, e os dois vivem em disputa? Esta é a hipocrisia que pode ser melhor entendida em Hipocrisia: certa ou errada? Boa ou ruim? Por quê?

Os serviços pagos diretamente são percebidos de forma diferente. Sentimos que temos poder sobre a pessoa a quem contratamos porque achamos que somos donos dela e, portanto, que podemos fazer o que e como desejamos fazer. Assim as universidades privadas são sentidas como algo comprado e que, então, deve oferecer o que o cliente deseja. Logo, se desejamos aprender algo, exigimos que este algo seja nos ensinado porque temos o poder de pagá-la ou não caso ela nos desagrade.

O poder financeiro faz com quem acreditamos ter posse sobre objetos e pessoas nos levando a exigir comportamentos e crenças das pessoas que pagamos (contratamos). Com temos uma percepção vertical sobre a vida, a chamada hierarquia, acreditamos que há pessoas com poder que estão acima e pessoas sem poder que estão abaixo. Ademais, a sensação de poder nos engrandece e nos satisfaz além de nos gerar confiança, então desejamos essas boas sensações e uma forma de as conseguir é contratando pessoas.

Então entendemos que somos maiores, melhores e mais poderosos do que as pessoas que contratamos e com essa confiança toda usamos da nossa arrogância para nos impor e reduzir o outro num processo de humilhação muito comum na espécie.

Isso significa que os estudantes (clientes) das universidades privadas exigem uma boa qualidade e que têm o poder sobre os demais incluindo os professores enquanto nas universidades públicas sentidas como caridades estatal, embora sejamos nós quem as financia, a hierarquia é oposta com os professores ensinando o que o governo ou eles próprios consideram suficiente enquanto os alunos obedecem com gratidão pela caridade.

Esta é a essência do que motivo pelo qual as entidades privadas tendem a serem melhores do que as públicas: elas têm um público que, se descontente com as suas ofertas, deixarão de comprá-las ou financiá-las, então satisfazer o público é um objetivo para tais entidades. Já as públicas são mais vagas e sem demanda de público permitindo o sucateamento mais rapidamente.

Claro que isso depende do público, isto é, da sociedade. Se as pessoas buscam conhecimento e desenvolvimento, pagarão por tais e as empresas privadas buscarão oferecer tais coisa, mas se o público busca entretenimento sem qualquer intelectualidade, as empresas buscarão mais entretenimento e isso é uma realidade nas redes sociais.

Com pessoas desejando se entreter com assuntos sem significado, coisas engraçadas e tudo de forma rápida e sem profundidade além de beleza e luxo, são estas as coisas que as empresas buscam oferecer. Ensaios fotográficos com luxos, jornais com matérias compradas para divulgação de quem deseja fama, aplicativos com filtros e alteração de imagem para criação e publicação de entretenimento visual barato e rápido… As empresas privadas oferecem o que o público quer, as públicas oferecem o que os políticos desejam que o público receba. Se a sociedade é burra, um estado que oferece mais conhecimento forçado através das escolas pode ser uma forma de estimular a inteligência das pessoas, mas se a sociedade for mais culta, o estado não consegue acompanhá-la e os seus serviços são inferiores dos buscados pelas pessoas.

As empresas privadas têm mais noção do que o público deseja e investe nisso para ter e manter o seu público visando mantê-los pagantes. Como ninguém aprecia jogar dinheiro fora, principalmente se a sua produção for difícil, contratar algo e não usufruir gera um desconforto muito grande, uma dor talvez. Então aproveitar o máximo possível para fazer o dinheiro pago “render” é uma motivação que faz a pessoa se esforçar elevando as suas chances de sucesso. No caso de universidades privadas, a pessoa se dedica ao estudo.

Quando são terceiros que pagam a faculdade com pais ou outras pessoas com acontece em redes públicas de ensino, o aluno (cliente) não sente que precisa se esforçar porque não dá valor uma vez que ele não precisa se esforçar para conseguir o conhecimento ofertado na universidade, afinal de contas, gastar o dinheiro do outro é fácil, prazeroso e não gastamos tempo nem pensamento para analisar a melhor maneira de o fazer, mas quando o dinheiro é nosso, as coisas são diferentes.

Tudo que sentimos que o nosso esforço (o dinheiro é uma forma de esforço se a pessoa se esforça para obtê-lo) está envolvido é analisado com mais cautela e carinho, mas se não o temos, então sentimos que também não precisamos nos esforçar para aproveitar.

É assim que entendemos que o que não vemos que pagamos é percebido como gratuito ou sem valor, no entanto, já observou na sua nota fiscal o valor final, o valor do produto e as taxas, tributos e impostos?

A manutenção de nossas posses requer não apenas limpeza, renovação e outras coisas, mas também são cobrados impostos sobre elas como o IPVA e o IPTU. Como é um dinheiro que sai do nosso bolso, sentimos que o perdemos e, então, que pagamos, logo, não é gratuito. Mas, e se tais impostos estivesse disfarçados sob o valor do condomínio mensalmente? Não notaríamos, pagaríamos e acharíamos que não pagaríamos tais impostos levando a crença de que eles não existam.

Pagamos tudo que é público incluindo os servidores. Tudo que acontece dentro da repartição pública que é mantida com o recolhimento dos impostos é pago por nós. Pagamos os plantões dos servidores, seus salários, refeições, iluminação, água, café, todas as máquinas dentro da entidade pública e contas de luz, água e esgoto dentre muitos outros. Então, todo evento social orquestrado por alguma entidade pública é feito com o que pagamos. No entanto, como não pagamos diretamente, não sentimos que o fazemos e concluímos que não pagamos. Para nós, o dinheiro para manter e criar as funções e fundações públicas é um grande passe de mágica vindos do nada e por isso tantas pessoas acreditam que quem administra as repartições públicas têm dinheiro sobrando, que dá para fazer tudo, que dá para manter tudo e ainda dar dinheiro à população. Isso mesmo: a população paga ao governo e quer que o governo mantenha tudo público funcionando, que demanda mais do que arrecada em imposto, e pague a população por meio do maior truque de mágica já imaginado.

Quem não consegue lidar com as informações as ignora. Não importa o assunto, quando é demais para nós, fazemos o que podemos para ignorar e não acreditar (exemplo de traição, frustração por não conseguir um objetivo…) e isso também acontece com os pagamentos camuflados que fazemos.

Para muitos é melhor não saber o quanto está pagando de impostos para se convencer de que o valor final que paga é o preço do produto e que não está pagando a desconhecidos para fazer o que também não sabemos já que não sabemos todos os pontos de gasto de dinheiro público.

 

Você tem coragem para lidar com o mundo ou mantém crenças esperançosas sobrea a realidade como “o mudo vai melhorar, as pessoas são boas, alguém vai me notar…”?

 

Você prefere a verdade ou ser enganado para acreditar que o mundo é melhor do que de fato é?

 

 

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