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O que é o ideal?

Somos uma coletânea de sensações. Julgamos boas sensações as que nos geram prazer, algum tipo de satisfação ou bem-estar. É uma sensação boa, que gostamos de sentir. Por outro lado, julgamos como ruins as sensações que nos geram mal-estar de alguma forma.

De sensações físicas às emocionais passando pelas mentais e outras, tudo nos gera alguma sensação e é precisamente esta sensação que julgamos como boa ou ruim.

Com dificuldade em compreender o abstrato das sensações e emoções por não serem claras ou visíveis, embora sempre as percebamos, nós associamos o que vemos ou vivemos com o que sentimos criando um vínculo que classificamos como “motivo da sensação”. É assim que classificamos as pessoas, o mundo, a vida, a comida, tudo. Se temos sensação agradável com uma pessoa, nós a julgamos como boa, caso contrário, nós a julgamos como má. Mas a questão não se trata da pessoa em si, mas como nos sentimos em relação a ela.

O mesmo vale para todo o resto. A comida boa é aquela que nos gera bem-estar de alguma forma e facilmente associamos a boa comida com o paladar que é o sentido mais intenso experimentado nesta situação.

As sensações podem variar entre boas e ruins, mas também em intensidade e quanto mais intenso é uma sensação, mais certeza temos sobre ela. Por isso temos dificuldade em perceber as zonas cinzentas de assuntos complexo, não entendemos a gradação das cores nem as sutilezas de muitas informações o que nos leva a ignorar toda essa gama de informações e, consequentemente, afetando o nosso julgamento e influenciado a nossa opinião.

Embora as sensações possam variar de um extremo ao outro passando por todas as opções de intensidade, o fato é que não as sentimos uma por vez. Nós as sentimos várias ao mesmo tempo e este é um dos motivos pelo qual temos dificuldade em perceber as mais sutis. Carregados de sensações intensas que ofuscam as mais sutis, somos motivados por essas em vez destas.

Ademais, temos muitas sensações distintas com a mesma coisa o que nos fazer ficar ainda mais confusos por ignorarmos o fato das gradações das sensações. A mesma pessoa que nos faz rir pode nos fazer chorar, sensações boa e ruim. Logo, o julgamento unitário que é o mais simples, não é o real nem o correto e vivemos com este fato na prática, embora tendamos a ignorar na teoria por não prestarmos atenção. É assim que podemos amar e odiar a mesma pessoa: ela estimula sensações boas e ruins em nós.

Muitas pessoas não acreditam nessa possibilidade até a sentirem para constatarem por si mesmas porque com a mentalidade dualista e mutuamente excludente, acreditam que algo seja bom ou ruim, não ambos. Mas a vida não é feita de apenas uma características, mas várias.

O corpo humano é um exemplo claro dessa pluralidade. Dentro do aspecto visual, podemos achar bonito ou feio os cabelos, olhos, nariz, rosto, a conjuntura… Isso significa que nos sentimos bem em ver uma pessoa com as características que nos agradam visualmente e neste mesmo processo entram as roupas, sapatos e acessórios compondo todo o visual. No entanto, descobrimos mais características quando temos mais intimidade como a pessoa como o timbre da voz, o hálito, as palavras, as ideias, o comportamento, dentre outras e tudo isso é analisado e processando por nosso encéfalo mesmo que não saibamos como ou mesmo que decidamos algo. Mais uma vez: julgamos a pessoa de acordo com as sensações que NÓS sentimos em relação a esta pessoa, mas por não perceber a nossa participação neste processo, julgamos que o OUTRO seja o responsável pelo que sentimos.

Esse processo é comum por alguns motivos como a falta de compreensão de como funcionamos, a inconsciência de tudo isso, da associação visual que temos com o que sentimos e por orgulho, quando não queremos nos responsabilizar por sensações ruins que sentimos.

Como cada um possui um corpo e uma fisiologia própria, cada um tem o seu próprio conjunto de características que lhes gera bem-estar e criam as suas opiniões tão pessoais e distintas. Ainda assim, somos da mesma espécie, fato que nos faz ter gostos similares sobre alguns assuntos específicos.

É essa coletânea de sensação de bem-estar que criamos a figura do que seja o ideal que nada mais é do que todas as características que gostamos ou acreditamos que gostaríamos se as tivesse. Dessa maneira, imaginamos uma mulher com todas as características que julgamos femininas e apreciáveis como a ideal e o homem com todas as características masculinas e apreciáveis como o mesmo.

É com essa ideia vaga e abstrata do que seja o ideal (para cada um) que comparamos e julgamos as pessoas. Quanto mais perto do ideal estão, melhores e mais apreço temos por elas.

Mas o ideal não se restringe a pessoas, mas a tudo. Imaginar um cenário em que temos tudo o que desejamos e não temos, mas mantendo o que temos e que gostamos, é o processo de idealização de uma vida. Talvez mais dinheiro, mais posses, mais poder, mais saúde, mais pessoas, mais alguma coisa. Sempre desejamos mais do que nos gera bem-estar ou que acreditamos que nos gerará bem-estar e é imaginando ter tudo isso que criamos o cenário ideal.

Se somos uma pessoa criativa, imaginamos que a vida ideal seja naquela em que se possa usar da criatividade para fazer dinheiro; se somos uma pessoa sociável, acreditamos que uma boa vida seja com várias pessoas por perto; se imaginamos que ter mais dinheiro nos fará mais feliz, então acreditamos que o ideal seja ter mais dinheiro.

Muitas pessoas acreditam que a vida boa é aquela em que pode usar todo o seu potencial para criar empreendimentos por ter alta capacidade nesta área enquanto pessoas carentes imaginam que a vida ideal seja aquela em que ela recebe ajuda dos demais. O fato é que a vida ideal nada mais é do que podermos fazer o que gostamos e recebermos o que desejamos e quanto mais longe estamos desse cenário, mais infeliz e revoltados ficamos criando ainda mais conflitos com outras pessoas.

É assim que surgem movimentos políticos e sociais: grupo de pessoas com a mesma insatisfação pessoal que julga que alguém ou algum grupo (sem ser eles mesmos) devam fazer o que eles querem para que eles se sintam melhor, no entanto, como essa ideia soa muito egoísta e a sociedade não gosta do egoísmo uma vez que é o individualismo e a sociedade é o coletivo, as pessoas (indivíduos) criam formas de distorcer essa ideia individual para se assimilar com uma ideia que gere sensação agradável para o coletivo cativando outras pessoas que, dentro do seu individualismo, desejam os benefícios propostos pelas reclamações. Assim, estas se unem àquelas e um grupo maior é criado tendo mais poder político para se impor contra outros grupo.

A política nada mais é do que a união de alguns indivíduos que desejam se impor sobre outros fazendo com que estes os obedeçam e os satisfaçam porque o ser humano não é autônomo como deseja, mas dependente direto de todo um grande coletivo.

Ideal é o cenário em que imaginamos que teremos todas as satisfações, portanto, revela os nossos desejos, o que gostamos e não gostamos, nada mais. Distante de ideias altruístas ou boas para a sociedade, o ideal de uma pessoa é a satisfação do indivíduo e como cada um tem as sus particularidades, não é possível criar um ideal coletivo para todos, apenas um ideal coletivo para algum(ns) grupo(s).

É por isso que histórias bonitas e contos de fadas terminam com o “felizes para sempre” que é justamente a personagem viver numa situação em que todas as suas vontades são atendidas porque somos movidos pelos desejos de conseguir o que acreditamos que satisfar-nos-á. Para muitos, a felicidade é um objetivo por conta dessa perspectiva, mas a verdade é que esta situação também é complicada e não gera a sensação de felicidade que imaginamos porque deprime o encéfalo como visto em O que é e onde está a felicidade?

Ideal é a imaginação de algo com as características que apreciamos, nada mais.

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