A escravidão feminina, embora não se tenha usado essa palavra para descrever as funções e obrigações femininas ou mesmo a definição do que é a mulher, é um comportamento que durou e dura bastante ao longo da história humana.
A mulher era e muitas vezes ainda é considerada como parte do homem que, portanto, deve obedecê-la e satisfazê-lo como qualquer outra posse dele. Esta crença muito disseminada na humanidade em muitas épocas, culturas e sociedades fez com que as mulheres se sentissem oprimidas e reprimidas por muito tempo criando raiva e ódio porque as tratava de tal maneira.
Tanto homens quanto mulheres, inseridos desde o nascimento em tal cultura com tal crença, implementavam tal ideia sendo a favor ou não dela. Como absorvemos as ideias ao nosso redor e as replicamos em nossos comportamentos, crenças e sentimentos como visto em Por que chegamos a uma idade que paramos de conseguir acompanhar novas tecnologias?, todos nós somos parcialmente responsáveis por implementar essa ideia mesmo que não gostemos dela.
Muitas mulheres não gostam do machismo e até lutam contra, mas, ao mesmo tempo, impõe o machismo em seus comportamentos, palavras e entonações de voz dentro de suas casas e relacionamentos gerando mal-estar em quem oprime com essa ideia. A mesma mulher que reclama do machismo é a mesma que o impõe a outras alimentando a ideia e a passando para outras pessoas e gerações.
A ideia está tão impregnada em sua pessoa que, mesmo não gostando, ela a impõe inconscientemente em sua maneira de ser.
Com gerações de mulheres passando por tal situação, com a expansão dessa classe social e com a mão de obra feminina sendo indispensável no século XX, as mulheres ganharam notoriedade por passarem a ser mais importantes. Sem a sua mão de obra não teria arsenal para vencer as guerras nem filhos para substituir os soldados que não retornaram.
Com mais valor social por conta de seu número, mão de obra e seu trabalho de repovoar a sociedade, as mulheres ganharam notoriedade e, como qualquer grupo sem influência que a ganha, passa a exigir mudança de comportamento dos demais indivíduos da sociedade.
A raiva e ódio acumulados das mulheres pelos homens passado de geração em geração continuou sendo passados e as mulheres do século XX receberam toda essa carga emocional de mães e avós reprimidas e revoltadas com a realidade de não poderem ter voz e liberdade social em suas vidas.
Com mais voz, estas novas mulheres puderam expressar toda a angústia que sentiam de terem absorvido de seus familiares. Tanto a raiva de suas mãe e avós que passaram suas vidas sob regras rigorosas de como deveriam ser como elas mesmas cresceram com a ideia de desvalorização feminina dentro de seus lares tanto por seus pais, tios e irmãos, quanto por mães, avós e tias. Todos estavam mergulhados na mesma ideia sobre a mulher e estas novas mulheres não estavam num mundo novo.
A luta por direitos iguais ganhou notoriedade. Com facilidade de comunicação ao se encontrarem em postos de trabalhos e serviços, sem confinamento familiar e com novas maneiras de comunicação, unir mulheres a favor de uma manifestação passou a ser possível e assim elas fizeram.
Uma grande luta contra o ideal de mulher escrava começou e muitas mulheres participaram contra esse ideal imposto ás mulheres por bastante tempo. O resultado foi a imposição de suas próprias vontades e desejos como a vontade de permanecerem aptas e aceitas em trabalhos fora de casa com remuneração. Leis foram criadas, mas o ideal permanecia na crença popular que evitada cumprir a lei tanto quanto era possível.
Como a cultura não muda de um dia para o outro, mas requer gerações que mudem pouco a pouco uma ideia, a impressão de leis também não gerou grande diferença. As mulheres PODIAM trabalhar com remuneração em postos que antes eram delegados exclusivamente a homens, mas isso não era sinônimo de que isso acontecia realmente.
Não foi apenas uma manifestação ou manifestações de uma única geração de mulheres. Gerações diferentes de mulheres lutaram por direitos iguais e conquistaram vários legalmente. Contudo, conseguir ter direitos legais não significava não terem mais os deveres de outrora, mas que elas podiam legalmente fazer mais do que antes enquanto mantinham os seus deveres legais e culturais.
Assim nasceu a mulher que tem um trabalho, uma profissão, mas que continua sendo a responsável pela alimentação e abrigo da família, cuidado e educação dos filhos e a satisfação masculina quando chega em casa.
A boa sensação de independência e valorização social além da própria socialização que surgiam com a vida profissional resolveu vários problemas mentais, emocionais e psicológicos femininos. Com a liberdade de lidar com mais pessoas e ter mais estímulos em suas vidas, a ansiedade, depressão ou “histeria” foram amenizados, contudo, a quantidade de afazeres aumentou elevando o cansaço.
As reclamações por trabalhares demais foram muitas vezes ignoradas, desprezadas e até mesmo usadas como arma contra elas por quem estava insatisfeito com suas novas possibilidades. “Você quem pediu por isso, agora aguenta” foi uma ideia comum, afinal, as mulheres tinham lutado por tal direito e agora reclamavam do mesmo? Não fazia sentido.
Outra onda de mulheres surgiu crescendo com uma geração sobrecarregada sem apoio familiar. Mães estressadas e exaustas foram um modelo comum para estas novas mulheres que viam de perto o esforço árduo delas sem manifestação alguma dos homens para ajudá-las. Homens e mulheres trabalhavam a mesma quantidade de horas, mas ao chegar em casa os homens descansavam e as mulheres não. Se ambos trabalhavam igual fora de casa, por que dentro de casa era diferente?
As meninas não entendiam essa mudança gradual e sentiam a injustiça que suas referências ou ideais femininos passavam. Todos os dias que viam, ouviam, liam ou sabiam sobre isso, mais a injustiça crescia dentro de seus corações e alimentava a raiva pelos homens que tinham vidas cômodas e cheias de mordomias.
Elas aprenderam com estes exemplos que mulheres trabalhavam mais do que homens e não tinham qualquer valor por tal, então, quanto chegou a hora de se tornarem mulheres, a raiva pelos homens já estava instaurada e, assim como as suas mães e outras adultas exerciam o machismo sem perceberem, elas colocavam esse descontentamento e essa revolta em tudo e todos que se relacionavam.
Namoros começavam bem, mas logo a agressividade feminina aparecia. Uma disputa frenética e constante para saber quem era melhor, quem fazia mais dinheiro, quem trabalhava mais e quem tinha mais valor aparecia nas meninas que aprendiam sobre relações românticas e conjugais. Garotos e homens bons que as tratavam bem, com carinho, amor e respeito recebiam patadas sociais sem entenderem, o que eles tinham feito para elas se compararem sempre? Eles só queriam uma vida tranquila e feliz na companhia delas, mas elas cismavam em disputar o valor delas com o deles e sempre se mostrarem superiores.
O cansaço de lidar com tal violência emocional e mental constante fez com que muitos desistissem de se relacionarem porque elas criavam brigas onde não existiam e lutavam para serem valorizadas quando isso já acontecia. Livres para namorarem ou não, a relação conjugal se tornou uma opção e deixou de ser uma obrigação, portanto, a manutenção da relação já era uma prova de que a mulher era valorizada: o homem escolheu ficar com ela.
Desistir da relação e procurar por uma mulher mais normal ou menos surtada era uma opção, mas com tantas tendo crescido sob essa situação, encontrar uma que não tivesse tanta raiva de homem era difícil e manter-se solteiro passou a ser uma opção viável e muito mais agradável do que lidar com essas mulheres briguentas.
O número de solteiros aumentou por vários fatores sendo os citados apenas alguns. Mulheres revoltadas com o passado descontavam nos homens do presente responsabilizando-os pelo que suas ancestrais passaram. Ela era bem tratada, cuidada e valorizada, mas de tanto ver e ouvir mulheres raivosas por suas vidas infelizes culpando os homens por tal, elas repetiam o comportamento, as ideias e até mesmo os sentimentos.
Homens que não fizeram nada de ruim recebiam a ira das mulheres que eram bem tratadas sem entender e sem serem realmente culpados ou responsáveis. Eles eram mais imparciais do que os seus antecessores e crescerem em lares em que a mulher tinha mais valor, contudo, apenas serem bons não era suficiente para quem crescera sob um teto cheio de raiva de homens.
A raiva das mulheres associada à fantasia de um mundo em que seriam como desejavam as faziam imaginar que teriam o que desejavam se os homens não as tratassem tão mal no passado. Perder essa esperança por conta de regras sociais que desprezavam as mulheres fez com que muitas culpassem os homens por não viverem neste mundo ideal e bom que seria se tivessem a liberdade que desejavam. Agora, com tal liberdade, este mundo ainda não é real provando que não foram os homens quem impediram este mundo desejado de existir.
O desprezo feminino criou muitos problemas sociais realmente, mas não foi o único motivo pelo qual o mundo era ruim. Contudo, com uma inteligência ainda muito primitiva, analisar tudo isso é improvável e, para muitos, somente um sonho distante que mais se assemelha a um delírio do que a uma realidade, então impor a responsabilidade sobre os homens passa a ser uma certeza, não apenas uma vontade.
Classificando o mundo entre eu e ele ou nós e eles, dividimos os grupos e os desafiamos colocando-os como rivais em uma disputa em que algum será o melhor. Assim, temos homens X mulheres lutando para se provarem melhores do que o outro em vez de se unirem para somarem suas forças visando resolver o conflito.
Com a classificação simples e rasa dos grupos, identificar o outro e o categorizar em um grupo é rápido e fácil. Se é homem, entra no grupo dos homens, quem oprimiu a mulher (grupo) por muito tempo e é culpado pela infelicidade dela, se é mulher, se enquadra no grupo feminino que sofreu e é vítima.
Na perspectiva de vítima, o outro é o responsável por suas dores e prejuízos bem como por indenizá-la por tais e, acreditando nisso, as novas mulheres que não sofreram com a opressão rígida de séculos e décadas passadas, culpam todos os homens, incluindo quem não tenha participado de tais opressões que elas não viveram no passado, por seus infortúnios e exigem indenização. Mas, é justo exigir indenização de homens atuais sobre o que os homens do passado e que não eram controlados pelos atuais terem feito às mulheres também do passado?
É justo os homens do presente pagarem pelo que não fizeram? É justo que homens atuais devam pagar pelo que homens desconhecidos do passado fizeram com os ancestrais das pessoas atuais?
E as mulheres de agora, deveriam ter regalias e indenização pelos séculos de escravidão social que elas não viveram? Se sim, quem deveria pagar por tais indenizações sem que seja vítima desses novos direitos?
É possível que o mundo fosse melhor se as mulheres não tivessem nascido em um lugar que a desprezasse tanto, contudo, acreditar que isso seria realidade nos leva a sentir que perdemos este mundo quando, na verdade, ele nunca existiu. É como quase ganhar na loteria: nunca se ganhou, mas sentiu que tinha ganhado e, por não receber o prêmio, sente que o perdeu.
Nós imaginamos como seria bom se tivéssemos o prêmio, se o mundo fosse justo, se homens fossem adoráveis com as mulheres, então voltamos para a realidade e nos deparamos com um mundo muito distante do que imaginamos e nos frustramos. O orgulho nos faz acreditar que a culpa não é nossa, então procuramos alguém para culpar, terceirizando a responsabilidade por nossas infelicidades e identificamos o culpado como aquele que vemos quando sentimos o mal-estar (frustração).
A raiva chega logo depois como resultado de uma depressão emocional e ativação física nos fazendo ter muita energia para lutar contra o que nos desagrada na última possibilidade de reaver o controle e mudar a situação para o nosso favor.
Com a raiva sendo persistente, cria-se o ódio e a raiva se respinga por tudo que temos alguma ligação, então as relações que temos sempre receberão um pouco dessa raiva e, crescendo com pessoas assim, é natural absorver e repetir essa raiva.
Sempre respinga partes de nós em tudo o que tocamos, então se estamos sempre com raiva, espalhamos raiva; se estamos sempre insatisfeitos, espalhamos insatisfação; se estamos sempre alegres, contagiamos os outros com alegria; se estamos felizes, espalhamos felicidade.
Essa pequena visão sobre uma classe social determinada é uma possibilidade. Pessoas pobres que sempre precisaram trabalhar para se sustentarem não entra nesta ideia assim como escravos e outros grupos. As mulheres de classes sociais média ou que desejavam essa idealização sobre a classe média, que tinham famílias ideais para a época foram as que possivelmente passaram por tal situação. O amargor de suas ancestrais influenciaram as suas vidas mesmo com tantos anos de diferença.
Isso mostra como impactamos o futuro e como o passado nos impacta. Sendo animais reativos e instintivos, que repetem os outros sem pensar por nós mesmos, repetimos a cultura sem percebermos achamos tudo normal e aceitável pelo simples fato de estarmos acostumados aos comportamentos que vemos desde que nascemos. Nós normalizamos tais comportamentos e os replicamos mostrando e influenciando a todos que temos contato sejam parceiros, filhos ou outros familiares perpetuando a cultura que absorvemos mesmo se formos contra tais ideias.
Observe-se.
Analise-se.
Descubra-se.
Aperfeiçoe-se.
Seja feliz.
Mulheres cresceram sob a raiva de suas mães contra os homens e a sua disputa com eles. Muitos homens bons e imparciais sob a questão de quem vale mais encontraram mulheres raivosas sem motivo. Por que eles deveriam pagar pelo que não fizeram? As mulheres deveriam ter regalias e indenizações pelos séculos de escravidão social? Por quem? Por que os homens de hoje, que não fizeram parte dessa opressão, devem pagar pelas escolhas de homens desconhecidos de seu passado?