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Jogar lixo no chão contribui com a sociedade ou a prejudica?

Antes de responder, devemos analisar o assunto como qualquer outro para, então, gerar uma opinião realista.


Aspecto 1: é agradável ter lixo no chão?

Pode existir pessoas que gostem de lixo, no entanto, não parece ser comum. As pessoas cuidam de suas casas organizando e limpando, fogem de locais sujos e têm nojo de lixo, então parece certo dizer que lixo não é algo agradável.

Aspecto 2: qual o argumento usado por pessoas que validam tal afirmativa?

Assim como todas as perguntas, podem haver diversas respostas, embora o argumento comum usado por quem suje a cidade seja de “provocar sujeira para, então, haver emprego de limpeza”.

Se este argumento é válido/real, então tais pessoas são a favor de tudo de ruim que gere emprego para outros e, nisso, muitas coisas ruins podem ser criadas para criar empregos visando cancelar essa nocividade.

Se precisamos de polícia para prender os bandidos, então precisamos de bandidos para que haja empregos de policiais e, nessa ideia, tais pessoas são a favor de que haja bandidos;

Se precisamos de alta produtividade nas indústrias para gerar empregos e o fator que mais aumenta tal produtividade é a guerra, então, seguindo este raciocínio, precisamos de guerras;

Se precisamos de médicos para tratar e curar doentes, então precisamos de doentes para eu haja empregos de médicos. Com isso, podemos gerar a ideia de que precisamos viver doentes para buscar médicos mantendo, assim, tais empregos na área da saúde;

Se a obesidade gera empregos médicos por conta de doenças associadas e alimenta a indústria alimentícia estimulando o emprego neste setor, concluímos que sermos obesos gerar produtividade para a coletividade.

O fato é que jogar lixo em locais públicos não nos gera muito desconforto porque nós nos movimentamos. Nós jogamos lixo e vamos embora deixando a cena ruim aos olhos para trás. Então não sentimos prejuízo para nós diretamente, diferente dos outros exemplos citados. Isso significa que quem acredita nesta ideia de criar prejuízo ao próximo sem se prejudicar é algo positivo demonstra que, na verdade, não se importa com o próximo.

A pessoa que pensa dessa maneira não joga lixo no chão de sua casa porque será ela mesma quem terá de conviver com tal cenário ruim bem como será quem o limpará, portanto, ela não quer o prejuízo para si, mas, ela realmente acredita que o prejuízo que gera a outro é positivo para este outro?

Nós queremos esses empregos de limpar o lixo que os outros jogam no chão por “nos ajudar”? Nós queremos empregos que sejam limpar a sujeira dos outros? Diante da ausência de empregos em que somos úteis e produtivos, aceitamos o que existe por necessitarmos, contudo, os empregos que realmente satisfazem as pessoas são aqueles que demandam tarefas produtivas gerando resultados bons e satisfatórios aos outros.

Atender aos outros, solucionar os seus problemas e gerar bem-estar com belas casas e comidas são as funções mais satisfatórias. As pessoas buscam por nossos sentidos porque os desejam, não porque necessitam. Nós oferecemos bem-estar, não um alívio do estresse, embora ambos sejam importantes dependendo do público o qual se atende.

Na sociedade moderna, com as necessidades básicas satisfeitas quase que constantemente, buscamos por felicidade, não por sobrevivência. Não buscamos alimento para não morrermos de fome, mas para apreciar o seu paladar; não queremos abrigo para nos assegurar de predadores ou do clima, mas um local agradável, tranquilo e harmônico para descansarmos. Este é o público geral da sociedade moderna: buscamos muito mais do que sobrevivência, queremos prazer e satisfação, então oferecer serviços básicos não é muito rentável, mas oferecer mais do que eles com mais prazer nos torna pessoas mais importantes e com clientes frequentes. Dessa forma, gerar prejuízo ao outro não é propriamente uma maneira de ajudá-lo, mas uma forma de humilhá-lo.

Se a pessoa trabalha com algo que visa minimizar o prejuízo de outras pessoas, ela trabalha na parte das necessidades básicas e, sendo isso não muito valorizado/procurado pela população, o seu trabalho não é tão respeitado ou valorizado quanto àqueles que produzem resultados satisfatórios e felizes aos outros.

Os serviços de necessidade básica de existência e saúde só são valorizados quando escassos, mas quando em grande oferta, o seu valor é reduzido. As pessoas não se incomodam muito de ter lixo por onde passam, exceto de o lixo é grande e gera focos de pragas e doenças, então, até chegar neste nível, o lixo é tolerado e exemplo disso é que as próprias pessoas não limpam as suas calçadas ou por onde passam. Elas enxergam o lixo, o ignoram e passam.

Só quando o lixo está em uma grande quantidade gerando grandes prejuízos à vida é que passa a ter mais importância, mas, mesmo assim, apenas nas vidas das pessoas que sofrem com ele. O “pouco” lixo nas estradas e calçadas não é suficiente para criar danos nesta escala, então a sua limpeza também não possui grande valor para as pessoas.

Os empregados que limpam a cidade são pessoas que fazem este serviços desvalorizado socialmente mesmo que evitem diversas doenças. Como não convivemos com este cenário caótico de doenças por conta de lixo, não percebemos a importância da limpeza urbana constante.

Enxergamos o sumiço do lixo e, eventualmente, alguns trabalhadores limpando a cidade, mas se ver o prejuízo final e só enxergando meros lixinhos soltos sem que nos gerem mais prejuízo do que apenas uma poluição visual, não achamos que sejam tão nocivos.

Enxergar os limpadores urbanos como pessoas que limpam pouco (o pouco que vemos) e ter uma mentalidade pequena e egoísta pode favorecer a distorção da percepção da realidade e criarmos a ideia de que estes trabalhadores “precisam da nossa ‘ajuda’” para terem trabalho a fazer e, então, manterem os seus empregos.

Se ninguém jogar lixo pela rua, ainda haverá lixo. Folhas de árvores, galhos, pequenos lixos que caem sem percebermos, terra e outros entulhos que são empurrados com chuvas e ventos continuarão a existir e estes trabalhadores permanecerão empregados. Eles não precisam da nossa “generosidade” para terem empregos. Na verdade, nós os sobrecarregamos com essa atitude tão egoísta que nos faz pensar sermos heróis quando, na verdade, somos, egoístas que geram mais transtorno para eles.

O orgulho, emoção que acreditar sermos mais capazes ou mais importante do que de fato somos, nos faz acreditar que somos melhores ou mais valiosos do que os outros enquanto a realidade prova que isso não é verdade. Desejando alimentar esse sentimento, agimos como se valêssemos mais do que os outros e, assim, criamos a ideia de que somos caridosos ao provocar problemas sociais ao pensarmos que haja pessoas que precisem de tais problemas para terem empregos de solucionar tais situações.

Se realmente fôssemos melhores, nós ajudaríamos os outros, mas sem essa capacidade e acreditando que a temos, caímos na cilada psicológica de acreditar que o errado é certo e que o certo é errado. É assim que concluímos que sermos boas pessoas é sermos otárias e sermos ruins é sermos normais ou bons por nos dar bem quando podemos em prol de outrem.

Essa distorção é muito comum. Quanto menor é a mentalidade de uma pessoa, maior é a tendência de distorcer a realidade para caber na sua fantasia de ser uma pessoa boa, excelente, exemplar e caridosa que ajuda os outros porque aceitar a realidade sobre pode ser um fardo mais pesado do que o possível de ser aguentado.

Ademais, não sentimos em nossos bolsos diretamente o pagamento pelo serviço de tais pessoas, então fica fácil agirmos de uma maneira a “ajudar” ao outro. Se fôssemos nós a pagar diretamente pelos empregados, nós jogaríamos lixo na rua? É por isso que é fácil alegarmos que damos trabalho para estas pessoas enquanto nós não pagamos (não sentimos que pagamos) por seus serviços e é por isso que não vamos a médicos com frequência para lhes dar empregos: porque nós pagamos por tais profissionais.

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