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Ideal X Realidade

É comum sonhar em ter o que se deseja e, nisso, para muitos é comum sonhar com a felicidade que não se tem.

A felicidade, para estas pessoas, é a satisfação de todas as suas vontades, uma ideia genérica, abstrata e nada realista. Imagine ter tudo o que se deseja o tempo todo:

Imagine que você esteja com fome. A felicidade, neste caso, é comida. Você come e fica feliz, mas, então, continuar comendo deixa de lhe fazer feliz. Mais do que isso: continuar comendo lhe faz Infeliz.

Este paradoxo não vale apenas para a fome ou vontade de comer, mas para (quase) todas as vontades do ser humano. Queremos socializar, mas não o tempo todo; queremos comer, mas nem sempre; queremos dormir, mas não o dia toda; queremos ser amados, mas o excesso também nos incomoda… Tudo em excesso ou escassez nos incomoda porque temos um ponto ótimo ou ponto de equilíbrio que é o nível adequado de algo que nos satisfaz.

A insatisfação por excesso e escassez nos gera a mesma sensação: opressão, falta de algo, incômodo. Queremos mais paz quando tem muita gente perto de nós, mas queremos gente perto em vez de vivermos isolados.

Ademais, este ponto de equilíbrio varia com o nosso bem-estar. Quando estressados, queremos distância de pessoas, queremos ficar sozinhos. Quando melhores, queremos socializar. Quando felizes, queremos socializar ainda mais. Da mesma forma, quando doentes, não queremos ir para festas ou eventos, queremos dormir mais do que o adequado quando estamos saudáveis.

O ser humano é uma mistura de muitas reações provenientes de muitos estímulos, então não somos sempre os mesmos, apesar de algumas características permanecerem por mais tempo como padrões, e por sermos sempre diferentes que o externo é sempre percebido de forma diferente.

Somos um sistema próprio, fisiológico, psicológico, mental e emocional, que interagem com um sistema externo, o ambiente. Barulhos altos nos incomodam, mas determinadas frequências em determinadas alturas nos são agradáveis e cada um tem essa característica específica. Algumas pessoas gostam de música clássica, orquestras ou sinfonias, outras preferem forró, pagode ou funk. Do mesmo modo, a altura da musica é agradável também é uma característica prazerosa que depende da pessoa.

Colocar a música que gosta, no volume que gosta, quando não se deseja ouvi-la não gera o mesmo efeito agradável que quando desejamos ouvi-la. Portanto, o exato mesmo estímulo pode ser percebido como desagradável porque costuma apreciá-lo.

A felicidade é algo momentâneo, não algo certo e determinado. Não é absoluta e para sempre, mas apenas desejos não satisfeitos que, quando satisfeitos, produzem efeitos opostos fazendo com que a pessoa pare de desejar esta “felicidade” e até passe a senti-la como infelicidade.

Apesar disso, é comum acreditarmos que a felicidade seja algo determinado porque não pensamos sobre o assuntos, apenas sentimos que não estamos felizes. Sem fazermos qualquer avaliação sobre nós, sobre o que desejamos, sobre o que nos satisfaz, julgamos saber tudo isso e criamos de forma confusa, abstrata e inconsciente o conceito de felicidade da qual tanto falamos que desejamos. O mais fácil é perceber insatisfações regulares como problemas financeiros ou de relacionamentos e, então, criar a ideia de que felicidade seja não os ter. dessa forma, a felicidade é ter dinheiro (o oposto do problema financeiro) e um bom relacionamento, talvez uma cara-metade ou alma gêmea com quem não se tenha problemas de relacionamento. No entanto, assim como a comida em excesso que é desejada quando gostosa e quando temos fome e o seu excesso nos faz passar mal, o mesmo vale para o dinheiro e o relacionamento “perfeito”.

Frisamos demais no que não temos e queremos julgando isso como felicidade, porém, ao tê-la, nos deparamos com outros problemas que não imaginávamos porque estamos focados apenas em conseguir o que não tinha. Tudo após a conquista é ignorado até que apareçam e isso é um dos problemas pelo qual as pessoas não se entendem.

Quem sonha em ter mais dinheiro para gastar do que tem de fato acredita que pessoas ricas, que estejam nesta situação de poderem gastar o quanto quiserem (na visão de quem deseja esse dinheiro e não tem) sejam felizes e tenham TUDO. Elas não pensam em mais nada, apenas nisso e é com somente isso que conseguem concluir que as pessoas ricas são felizes, uma conclusão vinda de pensamentos emocionais criados na imaginação. Sem dado, sem fato, sem lógica.

Um exemplo fácil de perceber isso é quando se observa a saúde. Vemos pessoas lindas e felizes em novelas, seriados e filmes e julgamos que elas sejam assim. Desconhecemos e ignoramos os sofrimentos pessoais porque estamos focados no que desejamos e não temos. Muitos destes artistas aparem com doenças graves, sem tratamento ou cura e mostram como é o sofrimento e o esforço que fazem todos os dias e que o público não sabe ou despreza quando passa a ter conhecimento. Com o foco em dinheiro, todo o resto é desprezado e não entra na avaliação da vida feliz que o artista aparentemente tem. Já quem passa por alguma doença similar e tem noção das dificuldades que o artista passa compreende e sabe que mesmo ter tanto dinheiro não seria o suficiente para ser feliz.

Outro exemplo são as pessoas presas: eventualmente algum noticiário fala sobre alguém preso e, de acordo com a empatia do público para com o crime cometido pelo detento, se julga se ele já sofreu o bastante ou não. Contudo, esse julgamento é também imaginário. O público não sabe como eram as instalações em que o detento ficara até então, não conhece o sofrimento que ele passou, sabe um pouco sobre o crime cometido e sequer participou do julgamento e, ainda assim, julga se é justo o detento sair ou não do sistema prisional. Isso mesmo: NÓS olhamos o momento de alguns segundo sobre o detento, lembrando do pouco que sabemos do crime cometido e julgamos se é justo ou não. Ignoramos e desprezamos tudo o que se passara para esta pessoa.

Isso se trata de UMA pessoa. Uma pessoa é variável, com julgamento parcial e ilusório. Como ser feliz com essa realidade? Quando há mais pessoas, existe ainda a interação entre as pessoas envolvidas sendo mais estímulos para lidar.

Enxergamos nos outros o que queremos: pessoas que têm o que não temos e queremos; pessoas mais ricas; pessoas mais bonitas… Também nos vemos ao contrário: somos mais por termos roupas mais caras; somos melhores por termos mais amigos; somos mais felizes por comprarmos mais… O pensamento que temos é, na verdade, a escolha (mesmo que inconsciente) de ideia que queremos ter, ou seja, escolhemos a conclusão que desejamos ter. assim, o que nós julgamos como felicidade é variável de acordo com o nosso bem-estar do momento, contudo, podemos ainda idealizar uma vida sem os problemas corriqueiros e determinar isso como felicidade.

Mas as pessoas são diferentes, então o que é felicidade para um, pode não ser para o outro. talvez uma pessoa rica não tenha relacionamentos bons e acredite que felicidade seja ter uma família harmoniosa e feliz enquanto a pessoa que sonha em comprar mais coisas acredite que felicidade seja ter mais dinheiro para gastar.

Com estas duas pessoas podemos perceber que a felicidade não é um estado social, governamental ou de mundo. Não existe um jeito de organizar as pessoas de modo que todos sejam felizes porque cada um tem o próprio conceito de felicidade bem como este muda o tempo todo de acordo com a própria pessoa. Mesmo assim, queremos acreditar que podemos ser felizes e a maneira de acreditar nisso é criar ideias e sonhar.

O sonho nada mais é do que imaginar a situação ideal. Quando sonhamos, reagimos como imaginamos e, por pouco tempo, desfrutamos dessa felicidade. Mas como é algo apenas em nossa cabeça, podemos excluir tudo que não queremos e colocar o que desejamos.

Uma viagem na floresta é linda. Cachoeiras, flores, borboletas, pássaros, árvores… Contudo, na realidade é: terra, mosquitos, formigas, calor, umidade, sede, água não potável, ausência de comida, bichos brigando e se matando. Podemos excluir tudo isso na nossa imaginação, mas não na realidade. Resultado: podemos imaginar tudo o que desejamos incluindo a felicidade de todo o mundo.

O problema é que não tem como todos serem felizes. Se não tivéssemos os outros exigindo de nós, não seríamos felizes porque sempre queremos algo. Estamos sempre insatisfeitos. Ainda que sejamos felizes por alguns momentos como quando matamos a fome, não dura muito.

A satisfação alimentar mostra como não fazemos nada quando estamos satisfeitos e felizes: apenas curtimos sem fazer nada. Comemos, ficamos lentos, queremos dormir e fazer nada. Até que a fome apareça novamente ou outra insatisfação seja percebida. Então temos a motivação para agir e buscar formas de satisfazer essas vontades.

Levando em consideração que isso acontece com todas as pessoas, é fácil perceber que todos sempre estarão descontentes, portanto, essa infelicidade é o padrão, o normal, a realidade.

A questão é o delírio no qual nos refugiamos quando estamos cansados. Buscamos imagens boas em nossas cabeças que nos gerem alguma alegria em contradição à realidade que vivemos, o sonho. Os sentimentos de desespero, raiva, ódio e quaisquer outros que nos incomode são abrandados pelas boas imagens que criamos em nossas mentes, portanto, acreditar nelas é algo bom, prazeroso, libertador e um alívio.

Os sentimentos que nos incomodam nos cansam e o descanso é justamente o bem-estar, a felicidade. Sendo os sentimentos passíveis de serem manipulados por ideias e situações emocionais bem como altamente mutáveis, tudo que dependem deles também são muito mutáveis e, nisso, está o que achamos ser felicidade.

Muitas ideias levam em consideração a sociabilidade. Acreditamos que outras pessoas tenham direitos e deveres assim como nós, mas, como visto, o nosso pensamento é muito tendencioso para a conclusão que desejamos ter, então é fácil “percebermos” que temos mais direitos e os outros tenham mais deveres.

Os pais têm o dever de cuidar de seus filhos. Porém, quais cuidados? Alimentação? Abrigo? Educação? Satisfação emocional? Queremos que as pessoas satisfaçam as nossas vontades e, apenas por conta disso, concluímos que assim deve ser. Então, quando elas não agem dessa forma, nós entramos em conflito questionando e exigindo desculpas bem como o cumprimento de seus “deveres”.

A fidelidade sexual é um exemplo muito interessante porque não há cláusula alguma sobre isso nas relações nem mesmo nos contratos de casamentos ou afins, no entanto, muitas pessoas consideram que seja uma cláusula e motivo para brigar com o cônjuge se este não a cumprir. Observe: não há cláusula a respeito, porém há expectativa não expressa direta e claramente ao cônjuge sobre este comportamento. Ou seja: esperamos um determinado comportamento de alguém e, quando isso não acontece, brigamos e exigimos o comportamento que desejamos em vez de vermos o outro como o que ele é: o outro.

Se uma única pessoa não sabe o que é felicidade, não percebe a maleabilidade do assunto, mistura sonhos com realidade, acredita que os outros devam ser como ela deseja ao mesmo tempo que luta para não ser o que o outro quer que ela seja, como imaginar um relacionamento sem briga? Um mundo sem guerra?

As pessoas têm conflitos consigo mesmas, como não ter com outras pessoas se ela mesma não está plena? A realidade é que a vida é assim. Temos conflitos o tempo todo e são justamente estes que nos motivam a agir. O conflito entre fome e comida, conflito entre desejar ter companhia e o outro desejar algo em troca, conflito entre ideais de felicidade, conflitos entre os ideais de comportamentos e a realidade, conflitos, conflitos e mais conflitos.

Conflitos, brigas e guerras cansam. As pessoas querem descanso e, para isso, imaginam um mundo em que terá o que deseja e é este mundo impossível de ser criado, realizado, concretizado, feito, construído que a pessoa justamente afirma ser possível e que um dia existirá. Ela não fala sobre o mundo, mas sobre o seu desejo, no entanto, a falta de competência para se expressar faz com que ela faça uma afirmação em vez de expressar opinião e as pessoas entendem da maneira que foi dita, não como foi sentida por quem disse.

Com outras pessoas desejando um mundo similar ao “expresso” em forma afirmativa ou usando de ideias abstratas como felicidade, um grupo se forma e passa a reforçar a ideia que nada mais é do que uma IDEIA. Perceba que estas pessoas não sabem explicar como é este mundo perfeito, ideal e feliz assim como não possuem qualquer esboço de um plano para alcançá-lo (como planejar conseguir algo que se desconhece?), ou seja, é apenas um delírio coletivo alimentado por sonhos de pessoas infelizes.

O cansaço em viver em conflitos e brigas faz com que as pessoas desejem evitá-los, portanto, não querem pensar em nada sobre o assunto. Pensar na pessoa com quem sempre briga, nas situações que incomodam e quaisquer outras coisas que lhe gere uma sensação ruim é desgostoso e cansativo. Para mudar isso e aliviar a mente e o coração precisa do oposto: satisfação, bem-estar e boas relações. Ao não se ter na vida, pode-se apelar para a imaginação e criar a fantasia na cabeça, no entanto, sempre é necessário voltar à realidade porque é onde estamos.

Uma pessoa mais sensata percebe que conflitos são parte da vida, portanto, o ideal é saber lidar com eles a medida que surgem e que a probabilidade de se tornarem reais aumenta, ou seja, é necessário pensar e trabalhar justamente com essa característica tão cansativa: os conflitos constantes.

Como pensar sobre algo que tira a paciência, paz e sossego? É impossível. A exaustão aparece logo após a ansiedade ao se cogitar em pensar sobre o assunto, então, para evitar todo esse mal-estar, ignoramos e deixamos de lado tanto quanto o possível, até que algum conflito apareça novamente.

Perceber que a satisfação total tida como felicidade por muitos e, na verdade, um problema, não é para qualquer um. Até mesmo ler/ouvir a explicação é muito difícil, principalmente para as pessoas que têm certeza sobre esses assuntos abstratos que nunca pensaram, afinal, quanto menos sabemos, mais certeza temos. Ademais, aceitar que a vida é como ela de fato é, como vemos todos os dias, é para os corajosos e inteligentes. Aceitar que este mundo perfeito em que todos serão felizes, respeitar-se-ão e viverão sorrindo não existe e jamais existirá é demais para as pessoas mais cansadas porque é somente esse sonho que as motiva a ter esperança e continuar as suas batalhar diárias.

A ilusão, o delírio, o sonho e a fantasia, uma coletânea de ideias irreais que promovem alguma sensação agradável é fundamental no ser humano porque descarrega o peso emocional que leva bem como gera esperança, sendo esta indispensável à vida.

Veja mais em Delírios Saudáveis, Delírios Saudáveis II e Por que esperamos milagres? Para entender mais como a mente humana funciona.

Portanto, manter a esperança de que a fantasia de um mundo perfeito posso ser real em algum momento da humanidade é o que motiva muitos a persistir na luta da sobrevivência e, inevitavelmente, entrarão em conflito com as pessoas mais realistas novamente encontrando as brigas sociais porque estas sim são reais.

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