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“Raciocínio” inconsciente

Por conta das características da espécie como o cérebro que se tem, a fisiologia e como lida com o ambiente e outros indivíduos, cada espécie tem o seu próprio modo básico de pensar incluindo o ser humano.

A forma de pensar típica da espécie humana é rápida e inconsciente gerando reações também rápidas e imperceptíveis muitas vezes. A estrutura básica do pensamento ainda é desconhecida para nós mesmos, porém, por compartilharmos a mesma forma de pensar com os nosso semelhantes, concluímos que seja um pensamento lógico uma vez que o outro também o tem. Contudo, onde está a lógica realmente? Veja mais em Por que confundimos desejo com realidade?, A confusão de um pensamento, Intelecto emocional e A estupidez humana.  

A base do pensamento na espécie parece ser a mesma. Embora muitas ideias de outros indivíduos sejam absorvidas em vez de criadas, a própria essência de absorver as ideias alheias sem críticas ou questionamentos é um comportamento comum do ser humano. Nós aprendemos a andar ao ver os outros andando; aprendemos a falar ou ver os outros falando; começos com talheres porque vemos as pessoas comendo dessa forma; acreditamos em religião se estamos imersos num lugar religiosos; falamos a língua errada se as pessoas ao nosso redor assim falam… Copiamos comportamentos, ideias e até sentimentos dos outros. basta que estejamos imersos em uma situação com determinadas características empregadas rotineiramente para que passemos a copiá-las. Ainda que saibamos que as pessoas ao nosso redor falam errado, se comportam de forma que não gostamos ou têm sentimentos que não queremos, nós os absorvemos porque não temos total consciência sobre nós, sobre o que fazemos, pensamos ou sentimos.

Aparentemente, não é somente o ser humano que possui tal característica uma vez que outras espécies como leões também aprendem observando e absorvendo dos demais. Neste caso específico, os filhotes observam como os adultos agem, absorvem tais conceitos e os repetem tal como os humanos bebês. Os leões aprendem a caçar observando os adultos caçarem e depois repetindo o que absorveu, aprendem a brigar vendo os outros lutando e tentando. O método de aprendizagem é de observação e repetição, como os humanos.

A observação consciente e a análise lógica não são comuns. Somos animais tão irracionais e instintivos quanto os demais com algumas características típicas de nossas espécie, mas outras espécies também possuem características únicas como uma visão noturna ou um faro apurado.

Nós percebemos o mundo de acordo com as sensações que temos. Concluímos que algo existe quando o vemos, ou seja, quando há estímulo visual e este estímulo é processado em nosso cérebro. Também percebemos se algo é quente ou frio, colorido ou não, áspero ou liso, cheiroso ou fedorento: tudo é resultado de NOSSA sensação em relação ao objeto sentido. Isso faz com que deficiências no corpo afetem a nossa leitura do ambiente bem como uma percepção mais apurada. Como ninguém é igual a ninguém, todos nós percebemos o mundo de uma forma única. Contudo, por termos corpos da mesma espécie temos sensores que são comuns e o resultado da ativação desses sensores bem como da análise desses através de uma fisiologia humana também o são fazendo com que tenhamos sensações similares. Assim, as pessoas que enxergam um vaso de flores em cima da mesa concluem que há este vaso, que está em cima da mesa e que tem flores. Contudo, pessoas daltônicas podem concluir que as cores são diferentes e os cegos podem ter a certeza de que tudo isso não existe já que ele não os vê. Um mesmo cenário e várias interpretações porque estas dependem do corpo que temos e do seu funcionamento. Ainda assim, temos certeza sobre o que sentimos porque a reação que temos não pode ser ignorada. Mas, é real ou só uma percepção exagerada?

As sensações emocionais funcionam da mesma forma. Sentimos se alguém é carinhoso ou ríspido, se nos ameaça ou nos recebe bem, se nos deseja ou não. Tudo isso é resultado de uma coletânea de dados que “pegamos” por nossos sensores e avaliamos inconscientemente com o corpo que temos, lembre-se: o cérebro é um órgão, uma parte do corpo. Todo esse processo é tão rápido que não percebemos, só temos a conclusão que é a sensação final: se podemos ou não confiar no outro; se somos bem-vindos ou não; se temos de ficar alertas ou podemos relaxar… O NOSSO julgamento sobre o outro nada mais é a maneira como NÓS nos sentimos em relação ao outro.

Diante de sensações intensas, concluímos que elas são reais e, sendo reais, são fatos, não mera opiniões que podem ser rejeitadas ou ignoradas. É assim que sentimos e lidamos como o mundo: acreditando que o que sentimos são fatos e usando estes “fatos” para os nossos planos e pensamentos.

O ser humano busca o prazer. Seja físico como comer quando se tem fome; o social ao termos amigos; intelectual ao temos conhecimento ou o emocional ao nos sentirmos felizes, queremos a satisfação.

Do mesmo modo que misturamos todas as informações coletadas por nossos sensores identificando se uma pessoa é bonita ou feia, cheirosa ou fedida, ameaçadora ou receptora, nós também buscamos a satisfação de modo cinestésico, usando todos os sensores que possuímos. Queremos alimentos saborosos, pessoas bonitas, bondade, receptividade, autoestima, valorização, superioridade, segurança dentre outras boas sensações e buscamos tudo isso ao mesmo tempo e misturado.

Às vezes comemos para aliviar o estresse ou meditamos para acalmar o coração, usando de ferramentas físicas para satisfazer uma vontade mental ou o oposto porque somos um conjunto de sensações que se mesclam e sentimos o resultado final: estamos bem ou não.

Não sabemos o porquê de estarmos bem ou mal, apenas sentimos se estamos ou não. Não conseguimos identificar tudo o que sentimos, apenas as sensações mais fortes como a fome estrondosa diante de um espinho imperceptível em nossa pele. Talvez o sintamos se não tivermos uma fome tão monstruosa.

Também sabemos pouco sobre as emoções existentes. Se não a conhecemos, como podemos identificar se a sentimos ou não? Por isso somos animais instintivos que reagimos de acordo com as nossas sensações buscando sempre por alguma boa sensação.

Diante de uma situação que não nos sentimos bem, concluímos ser ruim e, portanto, que devemos sair dela. Podemos nos planejar e fazer ações que mudem a situação (o nosso redor) ou que mudem a nós mesmos gerando o resultado final (situação + nós mesmos = dinâmica entre nós e o mundo = como nos sentimos) diferente. Contudo, quando não conseguimos fazer essa alteração e não suportamos a sensação de mal estar que temos com a dinâmica que temos, cabe a nós imaginar algo melhor.

Imaginamos um mundo em que temos o que acreditamos que nos fará felizes; imaginamos o amor que sonhamos; imaginamos a riqueza que queremos; a casa que desejamos; a família feliz que queremos. Na imaginação, tudo é possível e por isso tantos recorrem a este métodos como forma de alcançar a felicidade. No entanto, ao voltarmos para a vida em que estamos, nos deparamos com a realidade de não termos o que desejamos.

Seja uma pessoa, um amor, um estilo de vida ou qualquer outra coisa, ficamos frustrados e tristes quando não o temos e o queremos. Podemos tentar consegui-los ou viver na imaginação onde quase podemos tê-los e conseguimos até experimentar a felicidade de os ter através da criação mental porque o corpo não distingue o que é imaginado do que é sentido uma vez que ambos (o objeto e a imaginação do objeto) causam o mesmo efeito corporal ao estimular as mesmas regiões corporais que geram a conclusão boa ou ruim.

Imaginar um belo bife com purê de batata ou um chocolate faz o corpo se preparar para comê-lo da mesma maneira que acontece quando estamos em frente a estes alimentos. Quanto mais imaginamos, mais “vemos” e mais nos preparamos para tal atividade ou sensação, portanto, quanto mais imaginamos uma comida gostosa, mais salivamos, mais desejo por comê-la temos e mais pensamos nela ao ponto de chegar a buscá-la na vida. Ver ou imaginar, a “visão imaginada”, são o mesmo e, por isso, reagíamos à imaginação como se fosse real.

É assim que podemos ser felizes dentro de nossas mentes: imaginamos o que desejamos e usufruímos do que queremos tendo tudo o que buscamos. Contudo, ao voltarmos para a realidade e percebermos que não temos o que imaginamos, ficamos frustrados. Como fugir dessa frustração? Imaginando a felicidade.

A melhor parte da imaginação é que ela é totalmente dependente de nós. Podemos fazer qualquer coisa que queremos dentro de nossas mentes como passear em uma praia linda, com águas transparentes e mornas, uma areia aveludada e ar puro. Encontrar tal cenária é quase impossível: o sol queria e arde a pele, o vento risca o corpo levando a areia solta, a praia não é perto e a água talvez seja turva ou fria. A praia dos sonhos existe apenas nos sonhos e não existe a possibilidade de encontrá-la, apenas em nossas mentes. Portanto, este sonho é somente um sonho sem chance de se tornar real.

Imaginar objetos que são visivelmente óbvios e concluir que eles não existem é fácil porque é visível. Contudo, quando se trada de ideias, abstratas, não visuais e nada concretas (práticas/objetivas/reais), nós conseguimos não apenas imaginá-las, mas visualizar a sua prática de modo a acreditar que sejam possíveis de se tornarem reais.

É assim que ideias são criadas e alimentadas por mentes por meses ou anos fazendo a pessoa ter duas vidas simultâneas, mas diferentes: a vida mental, em que se tem tudo, e a vida real, resultado de sua própria produção e organização. Quanto mais se deseja algo que não se têm e há pouca ou nenhuma esperança de o conseguir, mais caímos na tentação mental de imaginar tê-lo porque é a forma que temos para aliviar a angústia que sentimos diante da realidade de não ter um desejo satisfeito.

 

 

 

 

A crença em ideias irreais ou o desejo por alguém inalcançável são sentimentos comuns no ser humano, tão comuns que não pensamos sobre o assunto, apenas sentimos certeza de que seja real porque a nossa sensação é intensa o suficiente para termos consciência dela e, então, concluirmos que ela seja real. Se a emoção é real, então o pensamento também o é de acordo com o pensamento dualista e inconsciente humano. Como todos (ou quase todos) tem essa maneira de pensar, então concluímos ser verdadeira porque acreditamos que a maioria esteja certa, exceto quando estamos convictos de alguma ideia (a sensação é forte demais para ser ignorada ou desprezada ou mesmo desprezadas pelos outros).

Tudo surge da imaginação de que sentiremos felicidade ou saciedade ao termos o que acreditamos que nos dará essas sensações. Então imaginamos como será ou seria esta situação de termos o que desejamos, de termos a satisfação e, com essa ideia na cabeça nós concluímos que ter tal objeto que nos gerará felicidade/satisfação seja necessário para sermos felizes.

A imaginação é necessária para a construção e planejamento da vida, contudo, quando excessiva ou quando ignora a realidade, gera transtorno. Imaginar que um prato de comida possa aliviar a fome é uma ideia imaginada baseada na experiência recorrente de que a alimentação reduz ou elimina a fome provocando o bem-estar de não ter uma sensação desagradável (fome). Uma imaginação pautada na realidade que, portanto, age como um guia para o planejamento e, dessa forma, nós nos planejamos em fazer refeições com a constância que acreditamos ser necessária para evitar a sensação de fome. Da mesma maneira, cozinhamos antes de sentirmos a fome nos planejando para que a refeição fique pronta quando a sensação de fome surgir em vez de só pensar em cozinhar quando a fome já existir.

 Quando não temos a experiência do que nos gera bem-estar e nos satisfaz, nós não sabemos o que fazer propriamente para alcançar essa satisfação. Podemos usar de experiências, procurar conhecimento para ver o que é mais provável de acontecer e nos planejar baseado em experiências diversas sejam nossas ou de outras pessoas. Ao pensarmos e estudarmos, temos uma chance maior de criar um plano favorável às nossas vontades. Contudo, este comportamento de estudar e planejar também não é normal na espécie humana. O normal é a ação sem consciência e um pensamento desconhecido gerando um comportamento despercebido.

Aceitar a insatisfação, angústia, sofrimento ou dor não é uma característica nata do ser humano. Então, se não conseguimos nos planejar e criar a situação que desejamos, nós criamos imagens do que desejamos em nossas mentes e nos satisfazemos mentalmente e por um momento. É neste instante que a angústia reduz, o sofrimento alivia e nos sentimos melhores e mais descansados e é por conta disso que buscamos a imaginação quando não conseguimos conquistar o que desejamos na realidade. É assim que ideias absurdas e fantasiosas são criadas e alimentadas: necessidade do presente em ter algum bem-estar.

O desespero para alcançar o que acredita desejar associada à falta de planejamento realista cria e alimenta tais fantasias que faz o indivíduo imaginar a felicidade e quase alcançá-la dentro de sua própria cabeça. Somos felizes enquanto imaginamos o que desejamos e, por isso, nós escolhemos imaginá-los, ainda que de forma descontrolada ou inconsciente, viver nesta mundo paralelo onde a felicidade é possível.

Todos nós imaginamos coisas absurdas e situações impossíveis ou improváveis. A questão é o quanto se vive na imaginação e na realidade bem como a distinção entre ambas.

O comportamento repetitivo, o pensamento recorrente de ideias absurdas e a busca por mais e mais do que já se tem são formas de buscar a felicidade quando o indivíduo não sabe o que deseja. Ele apenas sente uma angústia, um incômodo ou uma insatisfação. Sem saber o que fazer para calar tal sensação desconfortável, busca por prazeres conhecidos, por mais prazeres ou por ideias sem sustentação prática, mas que geram esperança causando-lhe bem-estar. É assim que várias pessoas vivem vidas insatisfeitas, embora cheias de prazeres. A busca por dinheiro sem parar, por sexo sem freio, por festas constantemente, por outros prazeres o tempo inteiro. É um comportamento repetitivo que faz a pessoa acreditar que ter mais satisfação proveniente da mesma fonte é uma maneira de reduzir ou eliminar a angústia porque por instantes a pessoa se sente melhor. No entanto, não soluciona o problema, apenas o ignorar e obtém satisfações momentâneas que as fazem se sentirem melhores como um remédio para dor tomado constantemente que não cura a origem da ferida.

Sem saber o que fazer para calar o sentimento que atrapalha ou desfazê-lo, a pessoa busca formas conhecidas de satisfazer uma sensação desconhecida e isso acontece porque nossa espécie teme o desconhecido.

Não queremos conhecer novas coisas nem saber que coisas desconhecidas existem. Queremos a segurança sobre o que sabemos e, por isso, evitamos ter contado com sentimentos novos, ignoramos angústias desconhecidas e fugimos de novas ideias que vão de encontro àquelas que acreditamos. Logo, queremos satisfazer um sentimento que não sabemos o que é de uma maneira conhecida e, para evitarmos perceber que não funciona e que precisamos mudar, nós fazemos sempre mais do mesmo na esperança de que um dia terá o resultado que desejamos, mesmo sem sabermos ao certo o que é este resultado. Só sabemos que é algum bem-estar, a ausência da angústia desconhecida.

— É assim que pessoas gostam de comprar o que não precisam: a sensação de poder e liberdade de adquirir algo são agradáveis e, visando ter mais dessa sensação, a pessoa compra demais.

— É por isso que várias pessoas vivem em festas fazendo sociais: elas gostam de pessoas novas para quem podem contar a mesma história antiga; de rir e ver pessoas bonitas; de flertar e receber elogios. Visando ter mais dessas boas sensações, a pessoa busca sempre por situações similares.

— É assim que o sexo, a bebida alcoólica e outras drogas entram e permanecem nas vidas de quem quer felicidade e não sabe como fazê-la: tudo isso gera boas sensações que aliviam a angústia momentaneamente tirando o peso dela por breve momento. Quando este momento acaba, a pessoa busca por mais (bem-estar através de tais práticas).

— É assim que muitas pessoas comem demais: o ato de comer bem como o alimento ingerido provoca bem-estar e, portanto, é uma medida similar às demais citadas. Diante de uma angústia incontrolável e desconhecida, sem saber o que fazer para eliminá-la, a busca por sensações boas para contrabalancear as ruins é uma reação comum do ser humano.

Diante de uma forte depressão, tais fugas são meios de aliviar o sofrimento do indivíduo e fazê-lo ter esperança de um futuro melhor, de alguma salvação, de ter forças para enfrentar o insuportável e, então, não se machucar ou não se matar diante do desespero sem esperança.

Para quem observa de longe, enxerga apenas os resultados posteriores como dívidas gigantescas, múltiplos relacionamentos superficiais ou insatisfatórios, doenças sexuais, alcoolismo, vícios e obesidade porque, sem sentir o desespero daquele que busca refúgio em tais ações, os julga como se esta sensação não existisse e, se não existe, por que alguém faria tudo isso? Por que alguém agiria de modo prejudicial para o futuro se está bem agora? Ninguém age de uma forma prejudicial se não sentir alguma vantagem, ainda que por um breve instante.

Contudo, se observarmos o indivíduo como ele é ou está em vez de como acreditamos que seja, nós o enxergamos na realidade, não em nossa fantasia. Em nossas mentes os outros são felizes se assim queremos acreditar; têm tudo o que desejamos se queremos acreditar que eles têm; são inferiores a nós se desejamos ser superiores… Em NOSSAS mentes, os outro são o que NÓS queremos que sejam, mas quando olhamos para eles com o filtro da realidade, nós o enxergamos mais reais e, assim, percebemos mais as suas dores e seus sofrimentos.

Para quem vive mais na imaginação do que na realidade, o julgamento é sempre favorável à própria opinião porque julga o mundo como deseja que seja. Já para quem julga baseado na realidade, há mais empatia e compreensão resultando em mais conhecimento e planos bem sucedidos.

A angústia intensa e sem solução passa a ser um problema intolerável e real tal como uma perna quebrada que nunca se cicatriza. O que fazer diante de tanta dor? Tomar remédio que alivie essa dor, no entanto, a perna não se recupera, o que fazer? Continuar tomando o remédio para dor e, quando esta dor é no coração, o sofrimento é emocional e os remédios são igualmente emocionais conseguidos através de ações que gerem bem-estar como compras, sexo, comida e drogas. Se não podemos fugir de nosso corpo debilitado, podemos gerar fantasias e alucinações para não o sentirmos por algum tempo e, assim, finalmente descansar dessa dor sem solução.

É interessante perceber que quanto mais intensa é a dor ou o sofrimento de alguém, menos empatia sente pelos demais. Nada mais interessa além de amenizar esta dor e a pessoa age de forma muito egoísta afirmando que precisa e merece mais ajuda do que as outras sem saber das dores alheias. Portanto, a pessoa se torna mais insuportável sendo excluída de círculos sociais o que afeta a possibilidade de ajuda. Dessa forma, pessoas que vivem na fantasia por ser mais tolerável do que a realidade, briga com todos que não entram no roteiro fantasioso e a sua vida é uma briga constante com tudo e com todos para que se enquadrem na sua fantasia porque aceitar a realidade é doloroso demais. Ou seja, a pessoa se torna uma pessoa chata, briguenta e iludida, uma ótima receita para criar transtorno psiquiátricos.

Tais comportamentos prejudiciais a longo prazo são, muitas vezes, ações desesperadas para o indivíduo suportar a dor que sente o que, portanto, faz dessas ações atitudes ações de salvação (momentaneamente) tal como um remédio para dor que não corrige o que está errado favorecendo o quadro doloroso por não curá-lo (angústia).

Da mesma maneira que usamos drogas, comemos, bebemos, jogamos e transamos excessivamente para conseguir algum bem-estar e aliviar o peso que carregamos em nossos corações, também criamos ideias que alimentam uma imaginação feliz.

Imaginar todos felizes; imaginar que somos amados; que seremos reconhecidos; que seremos ricos; que seremos idolatrados; que seremos grandiosos dentre outras fantasias são soluções mentais temporárias que aliviam o peso da dura realidade de não ter o que desejamos. Assim como o excesso de atividades anteriores que geram um problema físico/corporal por serem atividades com satisfações/prazeres corporais, a imaginação exagerada e distante da realidade  gera problemas mentais a longo prazo.

Uma pessoa que imagina que um dia será rica, reconhecida, amada, admirada e popular enquanto enfrenta a realidade de ser uma zé ninguém que trabalha arduamente em troca de um salário que considera ruim e que não é popular cria uma grande distorção entre o que vive e o que imagina. Manter tal imaginação por muito tempo, assim como beber com constância ou comprar frequentemente que geram alcoolismo e dívidas, também gera prejuízos. Vivendo em dois mundos distintos, identificar o que é realidade e o que é fantasia começa a ficar difícil e pode chegar ao ponto de a pessoa não saber distinguir ambos. Assim, a pessoa se torna convicta de que deve ser rica, embora não seja; que merece reconhecimento apesar de não o ter; que deve ser amada, ainda que não seja; que é admirada, mesmo não sendo; e que as pessoas buscam a sua companhia, mesmo ninguém a desejando. Com todas essas “certezas” alimentadas por fantasias diariamente ao longo dos anos ou apenas meses, a pessoa “percebe” a diferença entre fantasia e realidade como uma punição feita por alguém. Se acredita ser rica e não é, então conclui que alguém rouba dela ou que a explora. Então o seu objetivo é identificar quem a explora e a rouba e escolhe-se uma ou mais pessoas para ocupar este lugar em sua mente. Chefes e pessoas invejadas costumam ser alvos de quem tem este transtorno delirante uma vez que o ser humano julga os outros conforme os seus sentimentos, logo, se não gosta do emprego e o faz, culpa alguém que o “obriga” a trabalhar. Da mesma forma, as pessoas invejadas, que têm o que se deseja, são pessoas que “geram” este mal-estar comparativo, portanto, é a “origem” do mal-estar. Se estas pessoas não tiverem tudo isso ou não existirem, o mal-estar desaparece e, ao associar à imaginação, acreditar que tais pessoas mereçam castigos, punições ou mesmo a morte é o raciocínio lógico de quem já vive apenas em sua própria realidade mental.

A raiva oriunda da “falta de reconhecimento” também é criada e cultivada pela imaginação. A pessoa imagina ser importante, acredita ser importante e, então, conclui ser importante. Sem outras pessoas sustentando essa sua perspectiva, julga que as demais agem de modo a desprezá-la porque a sua importância é real/verdadeira e, se não é reconhecida pelos outro, então são os outros que estão agindo de modo errado e, portanto, devem ser punidos. A raiva é o sentimento enérgico de culpar alguém por alguma falta grave cometida e não ser reconhecido social e publicamente para que tem certeza de sua grande figuram é uma falta gravíssima. O ódio entre nações e grupos menores surgem, em sua maioria, por fantasias dessa maneira. O grupo que odeia imagina o comportamento errado do outro grupo e nutre essa imaginação chegando ao ponto de acreditar que seja real. Ódios entre países e grupos que duram gerações são criações mentais de pessoas que não conhecem aqueles que odeiam. Elas odeiam convictamente sem ter real consciência de quem são o outro grupo.

Acreditar ser rico e não o ser também gera outra situação: o gasto de recursos financeiros além da capacidade de arcar. Os créditos fornecidos por bancos bem como empréstimos são regularmente usados de modo desmedido e a pessoa chega ao ponto de perder os créditos, não conseguir fazer mais empréstimos e não conseguir arcar com os custos que tem passando para uma situação deplorável. Perder imóvel, bens e até recursos alimentícios é a consequência de quem age dessa forma delirante.

Toda ação gera resultado, contudo, ao vivermos em nossas mentes longe da realidade, pensamos, imaginamos e planejamos dentro dessa “realidade criada”. Assim, agimos conforme os nossos planos e esperamos determinados resultados, contudo, as nossas ações são feitas da realidade, não na imaginação, o que gera resultados reais, não os imaginados. É dessa forma que toda ação planejada na imaginação que ignora a realidade criar uma vida difícil e cheia de “surpresas” haja visto que se espera um resultado e se tem outro. portanto, quanto mais se vive na imaginação, menos se faz na realidade e menos satisfação se tem na vida real criando um ciclo vicioso que se retro alimenta: quanto mais se imagina, menos se produz na vida real; quanto menos se produz na realidade, mais se foge para a imaginação.

Tem-se pessoas com vários tipos de transtornos delirantes, mas acreditar ser mais do que se é de fato é um dos delírios comuns entre os indivíduos humanos e, sendo um pensamento comum, as pessoas concluem estar correto. A raiva por não ser reconhecido gera brigas e transtornos com os demais uma vez que a pessoa luta para impor a “sua verdade” (perspectiva/fantasia/imaginação). Da mesma forma, os outros compartilham da mesma crença agindo da mesma forma e com a mesma raiva por não ter reconhecimento social que julga merecer. Todos lutam uns com os outros por não terem tal reconhecimento que julgam merecer, para exigir que os outros ajam do modo desejado e por não reconhecer os outros uma vez que estes não têm nada demais a oferecer para ter mais relevância no grupo. Uma sociedade que disputa entre si e que cada um tenta impor a sua própria fantasia sobre os demais e se revoltando quando a sua ilusão não é acreditada pelos outros. Todos vivendo em suas próprias loucuras e sobrevivendo em meio a lutas constantes.

Da mesma forma que comer, beber e transar geram bem-estar e aliviam a sensação ruim, fantasiar com o que se deseja também gera essa sensação sendo a razão pela qual recorremos a este método quando não conseguimos ter o que desejamos na realidade.

A imaginação de termos o que desejamos é uma forma de criar esperança e, assim, continuarmos vivos. Sem esperança de alguma satisfação e com perspectiva de apenas dor e sofrimento, o raciocínio mais lógico é de se matar ou de, pelo menos, não buscar nada. Não buscar significa não buscar alimento, nem higiene, nem segurança… Em outras palavras: a desesperança significa morte diretamente, quando o indivíduo a gera, ou indiretamente, quando a pessoa não zela por sua própria vida. Dessa forma, tal como as drogas e os jogos, a ilusão é uma ferramenta que prolonga a vida de uma pessoa ao lhe dar esperança e vontade de continuar batalhando para sobreviver e que, da mesma forma que os demais métodos geram prejuízo a longo prazo, a fantasia também gera decadência, perdas e até demência.

Somos sociáveis e relacionamentos proveitosos nos são essenciais. Uma pessoa com delírios age de modo distante da realidade o que a faz ter atritos e conflitos com outras pessoas de modo persistente. Sem bons relacionamentos, a pessoa sofre socialmente acarretando prejuízo em sua saúde e, assim, reduzindo a sua expectativa de vida.

Do mesmo modo que distrações e diversões físicas excessivas geram danos aos relacionamento do indivíduo, a fantasia excessiva também os gera. Contudo, por não ser tão obviamente percebida ao não ser visual e pontual, passa em nossas vidas como se não existisse. Sentimos que algumas pessoas são mais difíceis, com gênios fortes ou problemáticas, mas não identificamos a origem de seu comportamento tão irreal que gera tantas brigas com os demais.

Todas as fantasias exageradas geram estes tipos de problemas. Todas essas paixões, independente de serem religiosas, políticas, viciosas ou obsessivas são danosa a longo prazo e salvadoras de imediato.

Muitas pessoas criam ideias de uma sociedade em que todos são felizes e que as suas vontades são satisfeitas. Diante da realidade de não conseguir se satisfazer, a pessoa imagina que alguém ou algo lhe dará o que deseja, sejam políticos, a bondade humana, um deus, deuses, espíritos, rituais, cultos, penitências… Não importa área de pensamento, o raciocínio é o mesmo: o uso da imaginação para criar esperança.

As paixões políticas e religiosas são mais facilmente percebidas porque os conflitos são grandes demais para serem ignorados. Por possuírem muitos delirantes (seguidores), tais ideias são fomentadas por seus próprios integrantes num ciclo que se retroalimenta: quando mais se imagina, mais se imagina e mais se crê; quanto mais se crê, mais se imagina; quanto mais se imagina e mais se crê, mais certeza as pessoas têm sobre suas ideias.

Guerras são a prova de tais delírios coletivos: acreditar que apenas uma religião é certa ou que todos devem acatá-la; acreditar que uma nação seja soberana e que as demais devam obedecê-la; acreditar que um povo é melhor e que deve mandar dos demais; acreditar que se deva doutrinar os demais; acreditar que alguém deve mandar e alguém deve obedecer… De grupos imensos em forma de impérios, reinados ou nações à individualização em que as pessoas brigam individualmente para se imporem sobre as outras, o sistema de funcionamento é o mesmo: a crença de que se deva dominar e ser obedecido porque acredita-se que deva ser assim uma vez que se deseja viver com serviçais lhe satisfazendo.

Talvez seja um delírio humano. Tão humano e tão frequente que chega a ser normal e, se é normal, não é errado e é saudável, afinal, o normal é visto como saudável. Veja mais em O sábio do futuro é o louco de hoje, Delírios saudáveis e Delírios saudáveis II.  

 

 

 

 

 

1 comentário em ““Raciocínio” inconsciente”

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