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Orgulho

O sentimento de ser superior ao outro é primitivo e remota a épocas muito antigas. Em um meio selvagem em que quem vence a luta contra a morte por correr mais do que a outra presa, ser melhor do que o outro é algo necessário para se manter vivo. 

Mas a trapaça não é vantajosa somente na sobrevivência. Trapacear e inferiorizar é uma maneira de se realçar como melhor opção e ser escolhido como líder, como companheiro, como parceiro, para conquistar um posto social ou admiração dos outros que lhe renda benefícios.

Com superioridade em suas habilidades, o indivíduo sobrevive e se prolifera perpetuando a espécie e este comportamento que o favorece também se mantém ao longo das gerações sendo um resultado de pessoas mais adaptadas ao meio.

A competição é entre indivíduos, da mesma espécie ou não. O primeiro objetivo é não ser o pior para não ser repudiado, excluído ou devorado. É primordial a pessoa não ter atenção por ser a pior opção. Dessa maneira ela não perderá a vida nem será prejudicada por punições sociais como a exclusão.

Vencida esta competição, surge a segunda: aparentar ser o melhor. Para este quesito, fama e atenção são indispensáveis e o indivíduo quer necessariamente se sobrepor aos demais porque ser o líder, o mais querido, mais amado, mais idolatrado, mais desejado significa que outras pessoas satisfar-lhe-ão sendo benefício direto. 

Daí que pessoas poucos habilidosas desejam tanto serem amadas e adoradas: é um meio para conseguir seu pequeno exército que atenderá às suas vontades e, dessa forma, a pessoa consegue a felicidade (satisfação) e serem orgulhosas é um meio para um fim (conseguir pessoas para lhe obedecer).

O comportamento do ser humano não é diferente dos demais animais. Buscamos alimentos e água para satisfazer as nossas vontades (físicas) e fazemos alianças quando essas nos beneficiam ou facilitam o acesso ao que desejamos.

Os mesmos comportamentos que temos para satisfazer as vontades “básicas”, que são àquelas que aumentam a nossa expectativa de vida de forma mais imediata como a manutenção do corpo através da alimentação, são usados para satisfazer outras vontades, as mais “elaboradas” como as emocionais e as ideais. Lutamos com todos que são contra as nossas ideias e envergonhamos os outros para nos sentirmos superiores. Estes exemplos são nada menos do que a luta contra a ameaça para manter a segurança que fazemos contra um animal que possa nos ferir (fisicamente) e “correr” mais do que o outro ao desprezá-lo para sermos melhores e “sobrevivermos”.

Como visto em Você quer controle ou felicidade?  e O que você quer: controle ou felicidade?, enquanto o orgulhoso precisa dos outros porque se compara a eles e precisa se sentir mais valorizado do que eles, o egocêntrico se foca em si sem necessitar dos demais.

Todos orgulhoso é necessariamente egocêntrico porque busca a própria satisfação, contudo, nem todo egocêntrico é orgulhoso porque não precisa se sentir acima dos demais.

O orgulhoso precisa ser melhor do que os outros, mas isso não significa que ele precisa melhorar para alcançar tal resultado. Reduzir o outro, atrapalhá-lo ou fazer qualquer coisa que o faça ser reduzido é uma forma eficaz de ser melhor do que ele. Como o mundo atual tem muitos orgulhosos, tal comportamento de tentar se dar bem às custas dos outros é comum. Quantas pessoas caem em golpes por acreditarem que terão algum tipo de facilidade ou privilégio que os demais não têm? Quantas pessoas pegam o que não lhes pertence só porque achou eu conseguiu pegar de alguma forma? As corrupções, de grandes montantes de dinheiro visto em notícias ao uso do automóvel do emprego para uso restrito usado para fins pessoais, de quem rouba da empresa àqueles que falsificam documentos ou entradas para eventos, todos estão buscando se dar bem às custas dos outro.

A sensação de ter um benefício enquanto os demais não o possuem gera a sensação de valorização e de grandeza. Com um pensamento hierárquico em que as pessoas são organizadas e valorizadas de forma vertical em que os de cima valem mais, todos os orgulhosos querem ficar na parte de cima para se sentirem valorizados. Todos querem ser reis para serem importantes e serem servidos porque nesta perspectiva de vida os menos importantes devem servir aos mais importantes.

É interessante notar que a pessoa busca a valorização dentro de uma estrutura social, ou seja, ela necessita ser validada como alguém importante por outras pessoas o que a faz ser refém da opinião pública. Em outras palavras, a pessoa é refém dos outros.

Se ela precisa da aprovação, elogios dos outros e valorização feita pelos demais, é porque é algo importante que não consegue por si mesma. Isso significa que a pessoa não se sente importante e, ao precisar se sentir assim, ela recorre às outras pessoas. Se ela não consegue se sentir importante é porque a sua autoestima é muito baixa e ela não tem inteligência emocional o suficiente para construí-la ou aumentá-la tal como uma criança que não sabe cozinhar e sente fome: ela pede comida aos pais sempre que com fome.

Um dos problemas dos orgulhosos são os delírios de grandeza que têm. Com a crença de que o melhor vale mais e está acima dos demais e com a sensação de certeza de que são essas pessoas, eles agem de maneira coerente com os seus delírios acreditando que são importantes enquanto não têm tanta importância quando desejam ter ou acham que têm. É fácil observar esse comportamento em tons de voz que desprezam os outros e críticas alheias que realçam as suas próprias virtudes.

Todos os métodos de inferiorização são empregados. Dos mais sutis aos mais obscenos. O orgulhoso PRECISA se sentir acima dos demais e, como não busca a própria melhoria, precisa destruir o outro para que a diferença entre ele e a sua vítima fique mais evidente e, assim, a sua conclusão seja mais fácil e rápida lhe gerando o resultado de superioridade.

Preconceitos e comportamentos baseados em ideologias orgulhosas são exemplos disso. A crença de que algumas raças, tribos, sociedades, classes, sexo, faixa etária, profissão ou outro tipo de grupo seja melhor ou superior a outro é prova de que o pensamento orgulhoso é normal na espécies. Guerras, torturas e muitas mortes foram o resultado de pessoas com tal delírio que afirmavam que outros grupos deveriam servi-las ou mesmo ser exterminado por ser “inferior demais ao ponto de não merecer viver – bênção concedida apenas a quem a merece (pessoas superiores). Muitas pessoas podem pensar logo na segunda grande guerra, mas as cruzadas, imposição de religiões, crença de que mulher vale menos que homem, de quem uma religião é melhor/superior às outras, de que escravos valiam menos, de que um grupo específico deveria ser escravo e servir, de que um executivo é mais importante do que um porteiro, de que um zelador é um ninguém e que um empresário é, de que prostitutas não valem nada dentre outros exemplos, todos abastados na história da humanidade e presente na atualidade são exemplo de como somos orgulhosos, como julgamos de maneira a desfavorecer o outro para que nós nos sintamos superiores ao nos comparar com eles. Em vez de buscarmos a melhoria pessoal, o que demanda muito esforço, é muito mais fácil apenas machucar os outros para que nos sintamos saudáveis.

O orgulhoso tem o delírio de grande e ausência de um equilíbrio emocional que criam uma autoestima equilibrada e de acordo com a realidade. Visando satisfazer e alimentar o seu delírio, se comporta como se fossem mais importante que os demais e que os demais devem ser desprezados por não terem valor em comparação a ele. Ele PRECISA machucar os outros para se sentir melhor. Diferente de um sádico que se satisfaz com a dor (física) do outro, o orgulhoso se satisfaz com o sofrimento (dor emocional) do outro. Sem desenvolvimento emocional, ele é uma pessoa sem valor emocional, sem conhecimento emocional e, para se sentir próximo ou superior ao outro, precisa infringir um sofrimento nele para que ele se sinta ainda pior (com desenvolvimento emocional ainda mais baixo). No fim, é uma questão de comparação da inteligência emocional que o orgulhoso tem em deficiência e, para não ser a “presa” (o pior), busca alguém que consiga inferiorizar para que o seu campo emocional fique abalado e ele fique fraco. A analogia física para esta situação é que o orgulhoso machucaria a perno do seu competidor para que ele caia e seja a presa enquanto ele foge e sobrevive.

Em última instância, o orgulho é uma maneira de elevar a autoconfiança a qual é indispensável à vida por gerar segurança em si mesmo e motivar a pessoa a agir, produzir, aprender e a viver. Quem não tem confiança em si fica passivo, espera a vida acontecer e isso é desfavorável uma vez que o mundo não existe para servi-lo, mas que pode feri-lo. Confiantes, nós saíamos de nossas casas para trabalhar e estudar criando um a vida e produtividade, inseguros, ficamos acuados e parados, esperando e raramente acontece algo bom.

Veja mais em Por que confundimos desejos com realidade?, A confusão de um pensamento, Pensamentos, Ascenção do pensamento.

1 comentário em “Orgulho”

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