Uma pergunta feita ao longo de séculos que tem uma resposta diferente de acordo com quem é considerado artista de sucesso no momento. Um assunto sem debate, mas com muitas afirmações.
Nem mesmo artistas sabem explicar ou conceituar o que é arte.
Pintar, desenhar e esculpir são técnicas consideradas artísticas, mas um robô pode fazer o mesmo e, quando isso acontece, alega-se que não é arte. Ademais, quem use dessas técnicas sem ter um resultado apreciado por outras pessoas também não considerado artista. Logo, apenas fazer uso das técnicas artísticas não é o suficiente para definir um artista.
Uma mesma escultura ou pintura é considerada arte por algumas pessoas e não tem esta mesma avaliação para a maioria das pessoas. Então, é arte ou não é? Basta uma pessoa afirma que é arte?
Muitos trabalhos que usam de técnicas artísticas foram feitos justamente para questionar e criticar o que é a arte e “trabalhos” bizarros e estúpidos foram criados, expostos e divulgados como arte por públicos que não fazem ideia do que seja a arte tampouco compreendem as críticas feitas dessa maneira.
O que é observável são trabalhos artísticos que são assim denominados por uma pequena classe social que tem recursos de tempo e dinheiro para investir no assunto. Sejam quem tente fazer arte ou quem a aprecie, as peças consideradas artísticas são definidas como tal pelo público que goste delas o que faz com que a peça em si seja arte para alguns e não seja para muitos.
O mercado da arte é regido como qualquer outro mercado: oferta e demanda. Se há algo de interesse e alguém dispõe de alto valor monetário em troca da aquisição da obra num transação comercial, a peça comprada por alto valor é avaliada como valiosa uma vez que há público que pague caro por ela.
Vivemos num mundo que busca por poder de todas as formas possíveis e o dinheiro é apenas uma delas. Pessoas ricas que compram objetos em troca de altos volumes de dinheiro são quem definem os valores de tais peças. Se elas gostam de um objeto que consideram artístico e o compram por muito dinheiro, este objeto passa a ser visto como valioso e, assim, o seu criador também. Dessa forma, quem define o que é arte e o quanto ela vale é o público, não a pessoa que a faz em si.
Sendo o público quem define a arte, o seu valor e o artista, estes 3 itens são criações sociais e, portanto, não têm um conceito definido. Basta uma pessoa ter o contato certo para vender uma obra ridícula que passa a ser tida como artista enquanto verdadeiros artistas continuam no anonimato tanto quanto as suas obras.
E como o público define se uma obra é artística ou não? Essa é a verdadeira pergunta que define o que é arte.
O ser humano é repleto de sensores e sentidos que avaliam o meio ambiente onde está inserido. Quando recebemos estímulos que são interpretados pelo cérebro como agradáveis ao gerar algum tipo de prazer, nós definimos o objeto que causou tal estímulo como bom. Já quando a interpretação gera uma sensação oposta, o desprazer, julgamos o objeto como ruim.
Entre o objeto, o estímulo que ele fornece, o corpo que temos que recebe o estímulo, o corpo como um todo que leva a informação ao cérebro, este que o interpreta e a sensação final de satisfação ou insatisfação para, então, a nossa reação dessa opinião favorável ou desfavorável sobre o objeto existe este longo percurso que pode ser interferido ou influenciado por tudo que está vinculado a este caminho. Corpos com receptores muito ativos ou pouco ativos, caminhos rápidos ou lentos até o cérebro, a funcionabilidade do cérebro de acordo com o seu desenvolvimento, sua nutrição e capacidade de funcionar e tudo o mais que está inserido neste caminho de julgamento do meio é passível de ser afetado e, portanto, alterar o resultado final que é a opinião. É por isso que pessoas diferentes têm gostos diferente. Pessoas que enxergam estão submetidas aos estímulos visuais de cores e intensidades de cores enquanto as cegas não o que faz com que as suas opiniões ignorem totalmente essas informações. São informações importantes e julgadas por pessoas que enxergam e ignoradas por que não enxerga mostrando que o receptor de estímulo é indispensável para o julgamento desse.
Julgamos o mundo inteiro dessa forma. Usamos tudo o que temos para sentir o mundo e concluir ser bom (prazeroso) ou não. Quando vemos uma pessoa bonita nós a julgamos como boa, exemplar e queremos permanecer olhando porque o seu visual estimula os olhos, que estimula toda uma via neural que termina em ativar uma área no cérebro que gera sensação agradável. Este é o significado de beleza: sensação de bem-estar. Pode ser uma beleza física, olfativa ou de sabor. É tudo a mesma coisa, embora se use palavras diferentes para cada sentido como beleza, cheiroso e saboroso e a arte não é diferente.
Quando vemos algo que nos provoque bem-estar nós apreciamos e pinturas, desenhos e esculturas ganham a nossa atenção quando nos provocam esta sensação agradável. É assim que julgamos ser uma arte bonita. Contudo, não é a beleza que define a arte para alguém.
Obras que geram horror, ódio ou nojo também são consideradas artes porque provocam alguma emoção na pessoa que a aprecia. Então tem-se que arte é a quando algum objeto gera alguma sensação em alguém. Como as pessoas são diferentes. Não sentir-se-ão iguais ao olharem o mesmo objeto e, assim, o que será julgado como arte para alguns não terá a mesma opinião de outros configurando a arte como algo pessoal que reflete mais a pessoa que interage com o objeto do que o objeto em si.
Nós temos as sensações físicas referentes ao corpo que temos nos configurando sensações similares. Objetos que provocam sensações físicas são os que têm mais sucesso em provocar o maior número de pessoas porque temos corpos semelhantes que, então, geram conclusões igualmente semelhantes. Uma barata provoca nojo em grande parte das pessoas ao estimular o corpo delas de maneira parecidas. Porém não somos feitos apenas de sensações físicas compartilhadas. Temos outros sentimento que envolvem outras áreas da vida como a social e a intelectual e estas podem ser estimuladas também.
Obras que atiçam sentimentos sociais, intelectuais e psicológicos são as que repercutem mais porque estes sentimentos são mais intensos e marcantes nas pessoas. Embora o público para tais obras seja menor, é um público que reage mais intensamente e de forma impulsiva o que faz com que divulguem mais o assunto, critique, elogie e compre elevando o valor da obra. Quanto mais uma obra atiça um sentimento, mais importante ela é para o público que a vê e a sente e, por isso, eleva o seu valor de mercado.
O valor da arte não está na disponibilidade dela no mercado, mas na intensidade de sentimento ou de emoção que ela causa em alguém. Pode haver apenas um quadro perfeitamente pintado no mundo e não ter valor algum e ter milhões de outros quadros iguais que provocam uma emoção intensa em que o vê fazendo que com valham mais do que o outro que não possui similar.
A regra do mercado nunca foi quantidade em si, mas a procura pelo objeto. Um objeto é mais valioso quando provoca fortes emoções em seu público porque, assim, este se disponibiliza a pagar por ele tanto proporcionalmente ao valor que sente que ele tem, ou seja, a emoção que ele fornece. Muitas pessoas aceitam pagar caro por comida porque a julgam como algo bom e indispensável, isto é, com grande valor em suas vidas. A sua ausência provoca grande mal-estar o que faz com que a sua presença provoque o oposto e, assim, para evitar o mal-estar, aceitam pagar caro.
Sendo a fome uma sensação física mais básica, é a que mais se busca satisfazer e aliviar. Então tudo que satisfaça tal vontade é tido como bom e importante, mesmo que haja vários iguais no mundo. Porém, a sua produção em massa faz com que o público tenha mais opções para escolher e, então, escolhe a mais barata como uma arte que provoca uma sensação física comum às pessoas. Já as iguarias, arte que provoca uma intensa sensação, são diferentes. Comprar alimentos refinados ou ir a restaurantes com pratos valiosos são condutas de pessoas que apreciam o paladar. Elas não querem acabar com a fome, mas sentir sensações boas, diferentes e intensas através do paladar tal como pessoas que apreciem quadros de intensa emoção que são apreciados por pouquíssimas pessoas. Nem todos têm recursos para apreciar tais iguarias e artes por não poderem ir aos restaurantes ou museus ou galerias, e nem todos apreciarão as mesmas comidas e obras. Porém, alguma iguaria ou obra será de intensa apreciação a alguém tornando-a valiosa.
É assim que o comércio dos prazeres refinados funciona: ele é mais individualizado e caro. Tal como críticos gastronômicos que avaliam os pratos enquanto pessoas leigas não se importam com os mesmos, os críticos da arte fazem o mesmo neste setor avaliando as obras feitas de acordo com as suas próprias avaliações, ou seja, se eles sentiram prazer ou desprazer ao interagir com a obra.
A estética é outro exemplo desse comércio refinado. Todos querem saúde que tem o conceito de ausência de dor. Porém, saúde também é tida como bem-estar geral fazendo com que a estética, algo que afeta o bem-estar pessoal, seja parte da saúde. Entretanto, enquanto todos buscam a saúde básica como ausência de dor, ou seja, funcionamento básico e essencial do corpo, menos pessoas buscam a estética por não apreciarem tanto esta área. Algumas pessoas valorizam demais tal setor da medicina enquanto outras não se importam. Ainda assim, os procedimentos estéticos são mais caros do que os tratamentos médicos que possuem um público maior e isso se deve à importância que o público da estética dá a esta parte da medicina. Não é a quantidade de pessoas que determina o valor, quando o quanto o público está disposto a investir nesta parte em sua vida.
Há quem não se preocupe com a estética, há quem viva para isso, há quem não se importe com restaurantes chiques ou artes e há que obtém grande satisfação nestas áreas e é a intensidade dessa satisfação que avalia o valor de tal investimento. Daí existirem obras de arte num preço exorbitante enquanto a maior parte das pessoas sequer se importa com a sua existência. O mesmo vale para os jantares chiques, iguarias e procedimentos estéticos.
A arte nada mais é do que a sensação de algo e o objeto que causa tal sensação é tido como arte. Atores e atrizes, pessoas que passam sensações através dos sentidos visuais e auditivos, são considerados artistas. O mesmo vale para músicos que promovem sentimentos em seu público.
É interessante notar que, quanto mais refinado é uma sensação, menor é a quantidade de pessoas que a sente. Sendo as emoções e os sentimentos as sensações mais refinadas e criadas a partir de experiências pessoais, não sendo ensinadas ou compartilhadas por muitas pessoas, a arte torna-se ainda mais particular. Ao estimular uma emoção em alguém, a pessoa já deve possui-la dentro de si de alguma forma. Latente ou atiçada, a emoção é parte da pessoa e só pode surgir quando algo a fazer ficar mais intensa. Contudo, nenhuma obra consegue causar uma emoção nova em alguém, ou seja, a obra é apenas uma forma concreta de expor um sentimento que o público já possua.
É por isso que obras que emocionam algumas pessoas não tem significado algum para outras pessoas: estas pessoas não têm a mesma emoção que aquelas.
A arte é apenas uma maneira de estimular uma emoção ou um sentimento que uma pessoa já possua e, quanto mais intensa essa emoção, maior é o valor que a pessoa dá a esta arte.
Não importa as técnicas usadas, a imagem exposta, o que significa ou sua explicação. O que define a arte como tal é o público e este considera arte tudo o que o faz sentir alguma emoção ou algum sentimento. Promover fome ou cansaço, sensações básicas e mais fisiológicas, não é arte. Arte é necessariamente provocar uma emoção ou um sentimento que afete a psicologia do indivíduo fazendo-o sentir algo mais intenso e marcante.
Arte é uma forma de promover alguma emoção a alguém