Estarmos dentro de uma situação nos gera uma perspectiva, quando distante do cenário, temos outra. Por conta disso conseguimos rapidamente julgar os outros e não a nós mesmos da mesma maneira. É assim que vemos sociedades antigas como antiquadas, primitivas, passadas, desatualizadas enquanto nos vemos como o oposto, mas somente porque desejamos que isso seja realidade. Diante de cenários similares, agimos da mesma maneira que as sociedades que condenamos por serem burras e passionais, mas nós desejamos tanto que não sejamos como elas que chegamos ao ponto de NEGAR a realidade para manter essa nossa crença uma vez que é mais agradável. É mais gostoso acreditar que somos melhores do que aceitar que somos tão primitivos e ruins quanto séculos e milênios atrás. Por isso optamos em que acreditar.
Acreditar na realidade necessita de muita inteligência e humildade, características muito raras que apenas poucas pessoas excepcionais possuem/possuíram, ainda assim, apenas em alguma áreas. A burrice e a passionalidade é a regra, não a exceção e afirmar o oposta por desejar que seja real, por desejar que há organização e segurança no mundo é mais uma prova de que somos justamente o que não queremos ser: passionais e bestas.
O ser humano tem a capacidade singular de observar de fora e de dentro. Analisar as situações quando suas emoções estão brandas e usar do intelecto para pensar e julgar e, quando inserido no cenário, ter acesso às emoções mais intensas e, assim, ter informações das duas perspectivas gerando um quadro mais completo sobre toda a situação. Mas a bestialidade humana é grande demais ao ponto de desconsiderar e até mesmo NEGAR as informações de outrora. Quando imersos na situação de tensão, esquecemos ou ignoramos as informações que tínhamos ao olhar de fora e agimos de maneira passionais, sem pensar, sem sequer entender o que se sente. Após sair da tensão, sem essas emoções intensas, esquecemos do que sentimos e voltamos a avaliar a situação apenas com a perspectiva de fora.
Por conta disso é muito comum as pessoas viverem a mesma situação básica (a tensão) diversas vezes uma vez que ela age de um jeito (dentro da tensão) ou de forma muito diferente (fora da tensão). é por conta disso também que julgamos e condenamos os outros rapidamente e, quando nos vemos na mesma situação, dizemos que somos exceção, que não é a mesma coisa que o outro passou, dentre outras desculpas porque QUEREMOS manter estas duas perspectivas, mas como não conseguimos uni-las, nós as mantemos separadas direcionando-as para as pessoas: eles e eu. Para mim, a situação é delicada, excepcional, diferente, tensa. Para eles, é uma situação ridícula, fácil de ser resolvida, desprezada.
Esse direcionamento que damos às nossas emoções é resultada do desconhecimento de como as emoções agem, o que significam, de onde surgem. Direcionamos a raiva que sentimos por não conseguirmos algo que desejamos para a pessoa que está mais próxima deste objeto de desejo e, assim, criamos a ideia de que o outro nos impediu de conquistar o que desejamos. Raiva de chefes, pais, mães, irmãos, familiares, cônjuges, amigos e outras pessoas são apenas uma tentativa de personificar o que não enxergamos e não sabemos o que é ou o que significa.
Somos primitivos, mas isso não significa que devemos ser assim para sempre, mas que temos muitas limitações, portanto, devemos nos atentar para as várias possibilidades de limites que sofremos sem perceber.
O diagnóstico de uma doença tal como a constatação de nossas limites são informações para que saibamos lidar melhor com a doença ou com os limites. Se não conseguimos fazer de um jeito, então talvez devamos tentar de forma diferente, o mesmo vale para um paciente: se há alguma mudança fisiológica no corpo por conta de uma doença, então pode-se usá-lo para um objetivo ou perceber que o corpo não funciona como um corpo normal, que precisa de atendimentos específicos e fazer as atividades de fora diferente.
O conhecimento de nossas limitações, erros e maneiras errôneas de pensar nos oferece a possibilidade de, quando dominados por tais erros nós possamos pensar a respeito e, antes de concretizar uma ideia errada, analisá-la, corrigi-la e, então, pô-la em prática evitando consequências danosas.
Conhecimento só ajuda para quem o usa. Ignorá-lo é prova da ausência de conhecimento de como usar o que se sabe de forma benéfica. Muitas pessoas alegam que o ser humano e ruim, cruel e drástico. De fato, temos todas essas características, mas não apenas elas.
O ser humano conseguiu fazer com que milhões de desconhecidos trabalhem unidos e organizados. Várias pessoas que sequer sabem da existência de outras trabalham juntas visando a produção de bens e serviços atendendo o bem-estar de muitas outras pessoas. Nenhum animal conseguiu tal proeza. Conseguimos criar maneiras de resolver os problemas físicas (doenças) elevando a qualidade e a expectativa de vida, o que significa menos sofrimento individual ao não ter tantas mortes e sofrimentos em seu entorno.
Conseguimos fazer bombas e armas de guerra, contudo, usamos das mesmas tecnologias para benefício de muitas pessoas posteriormente.
Somos primitivos, baseados em extração, seja do ambiente ou de outrem. Para tal, precisamos ter o controle local ou do outro e, para isso, fazemos guerra. Ainda assim, a conquista de múltiplas relações comerciais é uma maneira de se evitar mais guerras ainda. Se podemos fabricar e comercializar os bens, por que invadir um lugar e matar pessoas? Essas mesmas pessoas podem consumir os nossos produtos fortalecendo o vínculo em vez de criar desarmonia ou inimizade.
Muitas guerras não existiram por conta dessa características que sabemos administrar, ainda que parcialmente, mas saber o que poderia ter acontecido é impossível, então não vemos essas possibilidades piores e, então, não valorizamos o que temos atualmente.
Quando mais primitivos e mais extrativista, sem muita capacidade de produzir e comercializar (trocar objetos), precisávamos de terras para colher e caçar e, para tanto, precisávamos lutar para manter o domínio sobre o território. Pessoas e animais que invadissem o nosso território eram recebidos com guerras ou algumas trocas se nos favorecessem. Ao escassear o alimento, precisávamos lutar para conquistar outros territórios e entrávamos em conflitos com outros animais e pessoas. Esta é a vida animal, e qual a relação com os tempos modernos?
Impérios, reinados e outras estruturas de dominação são justamente o controle de território e seus cidadãos. A expansão é justamente a conquista de novos territórios com recursos para satisfazer as pessoas dessa sociedade em expansão e este tipo de guerra é comum na história humana. Impérios crescerem e morreram, reinados também. A luta pelo domínio de um lugar para ter os seus recursos visando usá-los para si é o comportamento da espécie e é justamente agindo de forma diferente que conseguimos evitar tais guerras.
Conseguimos evitar a normalidade da guerra, as mortes por doenças e a imposição de novos grupos sociais através da força e do medo. Não aceitamos mais reis e rainhas que devem ser servidos. Agora eles devem servir à população, caso contrário, serão depostos e isso é perceptível em nações que ainda possuem monarquia. Contudo, como visto em “Homo sapiens primitivo atual “(colocar link), temos muitos limites e somos incapazes de satisfazer a nós mesmos, então criamos ideias de que outros devem nos satisfazer, ideia que satisfazer corações orgulhosos e mentes pequenas atraindo multidões deste tipo de pessoa por quem discursar a ideia de que “todos ‘merecem’ ser reis”, “todos ‘merecem’ ser servidos”.
Dominar uma população besta que não sabe o que pensa, como pensa, o que sente ou o que quer é fácil. Palavras bonitas são a base para atrair essa massa de gente e, assim, a moda atual é a disputa pela narrativa mais agradável aos ouvidos e coração da maioria, não mais quem tem mais poder de fogo. O medo da guerra foi trocado pela sedução, a insegurança passou e agora há a esperança. Os sentimentos de conquista são agradáveis e, portanto, fáceis de serem cativados sem armas ao mesmo tempo que atraem a multidão em vez do medo que faz as pessoas terem raiva de quem sentem medo. Agora ganha quem seduz, não quem amedronta (nas mídias e discursos) e isso faz a população não se revoltar, mas idolatrar o chefe. Este é o modelo primitivo atualizado.
Veja mais em A confusão de um pensamento e Por que confundimos desejo com realidade?
Veja também: somos emoções e sentimentos com um pingo de consciência.