Na natureza selvagem cada indivíduo luta para e por si. Cada um luta para conseguir e manter um abrigo, para conseguir alimento, para cuidar de seus filhotes e para não morrer. São comportamentos que vemos como naturais, comuns e aceitáveis para os animais diferentes dos homo sapiens, mas que condenamos em nossa própria espécie.
Na natureza julgamos como instinto de sobrevivência, no ser humano julgamos como egoísmo. Na natureza é algo comum, natural e bom por aumentar a chance de os indivíduos mais aptos de sobreviverem, no ser humano condenamos o egoísmo (alheio) porque queremos receber os benefícios do altruísmo alheio.
Não importa o que pensamos ou acreditemos, a realidade é o que é e o ser humano é um animal dentre tantos outros, que presa por sua própria vida individualmente e age de forma a conseguir o que deseja da forma que pode.
Este é o pensamento inato do ser humano e razão pela qual compreendemos todos que tentam conseguir o que desejam pelas formas que podem. Apesar disso, não queremos que sejamos usados ou prejudicados pelos outros, então estabelecemos regras formais e não formais que nada mais são do que a expressão de nossos desejos.
Criamos leis que estabelecem como crime algumas condutas como a aquisição de um objeto que pertence a outrem tido como roubo porque não queremos ser roubados. No entanto, quando acontece algum roubo a primeira coisa que questionamos é “por que a vítima não se precaveu?” demonstrando esse nosso pensamento instintivo onde cada um luta por si.
Nós criticamos a vítima em vez de acolhê-la enquanto fazemos leis que estabelecem tal comportamento como errado mostrando a nossa contradição que revela a diferença entre o que de fato pensamos e o que desejamos.
Queremos os benefícios e não queremos os prejuízos, apenas isso. Então criamos leis para restringir as condutas dos outros para que não tenhamos prejuízo enquanto buscamos formas de conseguirmos benefícios incluindo não seguir às leis. Contudo, somos todos da mesma espécie e com a mesma essência, logo, se nós, individualmente pensamos assim, os demais também o fazem concluindo que buscarão formas de restringir o nosso comportamento para não sofrerem nenhum prejuízo por nossa culpa enquanto tentam benefícios que possam causar prejuízo a outrem, isto é, a nós.
Estamos todos lutando por nós mesmos e a própria união de indivíduos é feita para aumentarmos os benefícios e dividirmos os prejuízos. Com mais pessoas temos mais proteção contra pragas, temos mais produção de comida e mais criação de tecnologias que nos beneficiam ao mesmo tempo que conseguimos quem cuide de nós quando estamos doentes e quem nos acolha quando estamos vulneráveis. Tudo para que o indivíduo tenha mais benefícios e menos malefícios.
É com essa perspectiva que vemos a vida: a busca pelos benefícios e fuga dos malefícios. Sempre.
Então achamos estranho locais onde as pessoas cumprem as leis deixando suas casas e carros abertos, bicicletas sem cadeados e reabastecimento de dinheiro em caixas eletrônicos sem seguranças. Nós enxergamos como oportunidades de furto, maneira de se conseguir o objeto (benefício) sem sermos pegos (malefício) e é por este mesmo motivo que vítimas de furtos ou até mesmo de roubos são tidas como “provocadoras do crime” porque ao demonstrarem terem o objeto de valor criou a oportunidade deste ser roubado, logo, a responsabilidade é dela, não de quem aproveita a oportunidade infringindo a lei que determina ser errado tal comportamento.
É com este pensamento que mantemos a normalização do comportamento selvagem em que cada um é responsável por suas posses incluindo pô-las em evidência e permitir uma oportunidade para ser roubada e assim nós ouvimos e falamos “por que andou com o celular à mostra? Por que não guardou a sua mochila? Por que não prendeu a sua bicicleta? Por que andou com tanto dinheiro?” São perguntas/críticas que fazemos às VÍTIMAS confirmando que concordamos com a atitude de quem roubou porque “apenas aproveitou a chance”.
Nós nos iludimos com a crença de que somos civilizados por termos muitas tecnologias que fazem com que o nosso ambiente seja diferente da natureza selvagem, mas o nosso comportamento permanece igual às presas e caçadores que encontramos nos ambientes desprovidos de intervenção humana. Não somos civilizados, somos animais selvagens disfarçados por alterarmos o local onde moramos.
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