Muitas pessoas adoram a sensação que a pimenta gera na língua ou no corpo e as mesmas julgam que sentir dor é algum ruim e, portanto, errado.
A sensação que a pimenta gera no corpo humano é por conta da ativação de receptores de dor que temos na boca, isto é, a pimenta gera dor. No entanto, por ser uma sensação apreciável por muitos, esta percepção sai da realidade e não é vista como tal.
Por outro lado, há quem goste de se arranhar, se cortar, se queimar ou mesmo queira morrer, mas diferente das pessoas que apreciam a dor que a pimenta oferece e não são vistas como estranhas ou erradas por conta desse prazer que obtêm com a dor, quem deseja as primeiras opções são vistas como erradas, doentes ou que tenham outras alterações graves.
O ser humano é um animal de manada e burro que segue tendências, replica o que aprende e raramente pensa. É com estas características que absorvemos uma cultura e a replicamos sem sequer perceber perpetuando-a por onde passamos. Nós aprendemos que determinados comportamentos são aceitáveis ou desejáveis independentemente da motivação, explicação ou compreensão. Nós simplesmente vemos que é um comportamento adotado por muitos e, ao sermos animal de manada, nós aceitamos o que é repetitivo.
Esta característica explica porque muitas pessoas têm vidas similares às vidas que tiveram quando criança: elas aprenderam quais comportamento e ideias são aceitáveis com a convivência das pessoas próximas e, tendo essa referência como um comportamento normal ou aceitável, tendem a repeti-lo em seus relacionamentos replicando o que foi absorvido.
É assim que crianças que convivem com brigas, gritos e violência em casa aprendem que tudo isso é normal e aceitável, logo, não acham estranho lidarem com pessoas dessa maneira.
A segunda possibilidade mais comum é a tendência de buscar o oposto. Quando a pessoa passa por alguma situação emocionalmente intensa e ruim conhecida como trauma, ela tende a se afastar de tal situação a quase qualquer custo e, por conta disso, tende a ir ao extremo oposto.
Eventualmente algum indivíduo possui alguma capacidade cognitiva capaz de analisar a sua própria vida e escolher o que quer para o seu futuro a cada momento. Esta pessoa escolhe como agir, quais pessoas quer ao seu redor, corta as que não lhe beneficia e busca as que lhe faz bem. Aceitar a convivência com alguém por ser normal é burrice, logo, não é a melhor opção para esta pessoa. Ainda assim, ela faz parte de uma espécie com limitações intelectuais e anda com a manada na maioria de sua vida adotando comportamentos culturais como rotineiros e apenas eventualmente os altera por não concordar com eles.
Diferente da maioria que julga normal e regra a ser seguida os comportamentos que são costumeiramente adotados por outros integrantes da manada, esta pessoa não se importa muito em viver em bando e ser admirada ou querida porque fazer as melhores escolhas para si e criar a vida que deseja é uma opção e a escolha mais inteligente.
Quando somos incapazes de analisar algum assunto, nós replicamos o que conhecemos num processo que economiza a energia de pensar e tempo. Quanto menos capacidade temos de pensar, mais replicamos o que acreditamos ser comum na sociedade por achar ser o correto, esperado, normal ou aceitável.
Muitas pessoas criam vidas insatisfatórias por conta desse comportamento de repetição ao escolherem se casarem por acharem ser o normal, terem filhos porque o comum e terem um trabalho ruim porque outras pessoas também o têm. Elas escolhem (mesmo sendo inconsciente) o que fazem apesar de não ser o que as satisfaz e posteriormente sentem-se oprimidas e presas a uma vida que desgostam e as pressionam para serem o que não são.
O comportamento de manada é comum em muitas espécies e explica porque comportamentos tolos são encontrados aos montes dentre eles a ideia de que dor seja ruim.
De forma geral o ser humano tem características comuns dentro da espécie e é baseada nelas que criamos regras e leis. A sensação de um corte na pele costuma ser ruim para a maioria das pessoas levando-as a acredita que sejam algo ruim, logo, algo que deva ser evitado e qualquer coisa contrária é vista como errada porque o certo é não ter tal ferimento.
Assim criamos regras de que gerar tal sensação em nós e em outros seja errado e visando manter comportamentos certos, criamos punições para o que não segue tal regra. A ideia de lesão corporal nada mais é do que o ferimento do corpo físico do indivíduo e, sendo a pele o órgão que mais reveste o corpo, logo a imaginamos ferida quando lidamos com a ideia de ferimento.
Da mesma maneira que acreditamos na dor de um corte na pele, acreditamos em todas as demais sensações que temos, sejam reais ou não. Das mais intensas que são as corporais às mais sutis encontradas na parte emocional de uma pessoa, nós acreditamos em todas elas. Portanto, todos que não concordam conosco são julgamos como errados por nós.
Este é um dos motivos pelo qual a empatia é difícil no ser humano bem como a crença nas palavras do outro já que vemos algo e ouvimos outra ideia sobre o mesmo assuntos além de termos as nossas próprias sensações em relação ao tema abordado. É como uma pessoa que trabalha com algo que não gosta por conta do pagamento e uma pessoa que tem muito mais dinheiro do que precisa e faz o que quer da vida: por conta da diferença de estilos de vida, elas têm sensações diferentes fazendo-as terem dificuldade em entender a outra.
Acreditamos no que sentimos como se fossem fatos e os usamos como tais para tentar argumentar e impor as nossas opiniões sobre os outros visando influenciá-los a fazer o que queremos que façam, mas também acreditamos no maior grupo seja real ou imaginário. Se imaginamos que a maioria das pessoas é de uma determinada forma, facilmente acreditamos que tal forma seja comum e normal, logo, aceitável para fazermos também.
Somos indivíduos, mas dentro de um grupo, então também somos o coletivo. Esta posição nos gera muitas sensações contrárias por virem da perspectiva individual ou da coletiva e, sem analisarmos as sensações, nós não as entendemos e ficamos confusos. Entretanto, é com essa mistura que vivemos, convivemos e fazemos, hora afirmando que o que a maioria acredita ser verdadeiro é, hora afirmando que o que sentimos é a verdade.
É com essa ideia base que julgamos as pessoas que se sentem diferente de nós sejam ou estejam erradas e nesta perspectiva ter muitas pessoas apreciando a dor que a pimenta gera na boca, acreditamos que é algo bom, normal, comum ou aceitável. Já quando vemos alguém agindo de uma forma que não apreciamos em nós mesmos, que não entendemos, que não é rotineiramente encontrado, nós o julgamos como errado, estranho ou doente.
Assim chegamos a outras ações que costumam gerar insatisfação à maioria das pessoas fazendo com que sejam classificadas como nocivas, ruins ou erradas. A questão não é a ação em si, mas como nós nos sentimos em relação a tal ação.
Encontrar alguém que aprecie o mesmo que nós é uma maneira de reforçar a ideia de que o nosso gosto é bom, correto ou aceitável. Com muitas pessoas apreciando a dor da pimenta ou encontrar o uso da pimenta regularmente faz com que seja vista como normal e o que é normal é aceitável ou replicável. Assim, usufruir da pimenta é tido como algo bom e sem problema.
Esta forma de pensar, mesmo que seja inconsciente, pode ser razão para a criação de seitas, religiões, lutas, motins ou guerras. Basta uma ideia ser disseminada o suficiente para que muitas pessoas acreditem nela e lutem por ela.
Enquanto uma pessoa que aprecia a dor que a pimenta gera é vista como normal por haver muitas outras que têm o mesmo gosto, uma pessoa que sente prazer em cortar a pele é vista diferente. Sendo um comportamento incomum, entra no grupo dos estranhos e julgados como errados. Visando impor a ideia de que tal comportamento seja ruim, procuramos argumentos que sustentem a nossa afirmação, contudo, o real motivo de termos tal opinião é que não entendemos. Se sentimos uma sensação ruim quando nos ferimos e temos empatia física para com o outro, concluímos que seja uma sensação ruim para o outro também, logo, não tem lógica buscar tal sensação ruim. Ademais, como não vemos tal comportamento como normal ou frequente, não o identificamos como normal, sendo assim, é classificado como anormal e, então, errado. Mas, e se tal comportamento se tornasse regular?
A mudança cultural acontece gradualmente justamente por conta disso. Levamos anos e gerações para aceitar novos conceitos e comportamentos até que se tornem normais ou certos. O que antes era comum gradualmente deixa de ser como a ideia de escravidão de grupos humanos ou uma estrutura social rígida que deve ser seguida como foi por muitos anos tendo o casamento como a base dessa organização social.
Ferir-se é um comportamento tido como errado uma vez que feridas geram dor e não gostamos de dor, embora ainda afirmemos que ingerir pimenta não está dentro dessa categoria de comportamento. Buscamos argumentos de sensatez, criação de cenários mentais sobre nossos ancestrais ou hipóteses negativas sobre o assunto para convencer que se ferir não é normal nem aceitável, mas o fato é que nós nos sentimos desconfortáveis com isso e somente por conta desse mal-estar que julgamos tal comportamento como errado.
Viver em sociedade é uma tática que desenvolvemos e possibilitou sobrevivermos por mais tempo, melhor e expandir o nosso domínio. Embora vivamos em sociedade por conta dos benefícios que temos nesta relação como indivíduo, não desejamos arcar com prejuízos de outros, isto é, como indivíduo queremos os benefícios do coletivo e como coletivo não queremos sustentar ou ajudar outro indivíduo.
Assim, comportamentos que beneficiam o grupo de alguma forma são bem-vistos, aceitáveis ou incentivados enquanto o oposto sofre com punições, sansões ou julgamentos negativos. É nesta perspectiva que temos os comportamentos que afetam o bem-estar (produtividade) do indivíduo como bons ou ruins uma vez que gera benefícios ou prejuízo ao coletivo respectivamente. Então, se uma pessoa se fere propositalmente e reduz a sua capacidade produtiva, é vista como tendo uma ação errada enquanto uma pessoa gera mais produção ao coletivo é tida como boa e desejável.