A linguagem é uma habilidade indispensável ao ser humano porque somos sociais. Nós gostamos de sermos sociais assim como dependemos da habilidade social para nos mantermos protegidos e nutridos pelo grupo.
A comunicação é a maneira que temos de lidar com outros indivíduos. Seja a verbal, comportamental ou qualquer outro meio, nós precisamos nos comunicar para que o outro saiba sobre nós. Também precisamos saber sobre o outro porque o relacionamento é troca de favores e só podemos favorecer alguém se soubermos o que o outro deseja.
O ser humano criou várias maneiras de se comunicar sendo a linguagem verbal uma delas. Aprendida através da observação e absorção daqueles que cuidam de nós, posteriormente repetida de modo a fincar raiz dentro de nós, a comunicação verbal é indispensável à vida por facilitar a troca de mensagens de forma rápida. Conseguimos nos relacionar com muitas pessoas ao longo da vida graças a tal habilidade. De parentes a estranhos e desconhecidos na rua com quem cruzamos, pedimos informações ou de quem compramos alguma coisa, a verbalização é importante para a vida de uma pessoa que possui muitas outras em sua vida, temporárias ou permanentes.
Quando conhecemos a linguagem assim como a pessoa com quem nos comunicamos, a relação é fácil, rápida e eficiente. Contudo, parece que, mesmo depois de décadas usando da língua portuguesa “brasileira”, muitas pessoas não conseguem aprendê-la de modo eficaz.
A troca de uma palavra por outra que não seja sinônimo, mas que seja parecida, causa uma pequena distorção na mensagem expressa. Quando isso acontece, ainda é possível compreender quem fala através de um esforço de empatia. Contudo, o que é comum de acontecer são várias pequenas distorções que, quando somadas, criam uma mudança muito grande na mensagem final.
Muitas ideias são criadas por conta de tais distorções e, quando analisadas, percebe-se que elas não têm o sentido que deseja ter.
Um exemplo é a crença de que homens sejam os agressores domésticos em casos de violência doméstica. A ideia é construída assim:
- Homens costumam (não é 100% das vezes) ser mais fortes do que as mulheres
- As famílias costumam (não é 100% das vezes) ser comportas por homens e mulheres, um casal;
- Se o homem é mais forte, logo ele é o agressor
- Conclusão: o homem é sempre o agressor e a mulher é sempre a vítima.
As premissas da ideia já estão erradas ao englobar todas as situações como se fossem iguais. Nem todos os homens são mais fortes que as suas companheiras; nem todas as famílias são compostas por homem e mulher; e nem sempre o mais forte é o agressor. Em todas as premissas há erro, pequenas distorções. Ao final, tem-se uma conclusão muito mais longe da realidade do que as premissas alegam.
Existem muitos homens vítimas de violência doméstica, mas como são os mais fortes, segundo as premissas dessa ideia, não são as vítimas, mas os possíveis agressores. Como proteger a vítima neste caso?
Existem famílias em que não há um homem (adulto) e há violência doméstica. Como proteger a vítima?
Existem pessoas fortes que não usam de sua força para se impor sobre outras ou ameaçar as pessoas e, por isso, podem ser alvos de violência sem revidar. Como proteger o homem forte e vítima nesta situação?
São várias distorções que geram uma conclusão errada, mas se as premissas forem consertadas, a conclusão será diferente e mais próxima da realidade.
- O agressor é quem causa violência a alguém (não importa sexo, idade ou qualquer outra característica), então pode ser qualquer um;
- Identificar vítima e agressor é observar o relacionamento, quem ameaça e quem reage por medo
- Conclusão: é impossível identificar quem é o agressor e quem é a vítima apenas com um olhar. É necessária investigar.
O problema é que buscamos respostas rápidas, fáceis e que resolvam vários problemas ao mesmo tempo. Então ter de investigar para descobrir quem é quem num relacionamento violente consome tempo, análise e pensamento. Não queremos isso, queremos uma resposta imediata, então a primeira opção é mais adequada ao nosso desejo de agilidade em responder.
O resultado de um julgamento rápido e sem investigação é que se baseia em ideais, não em fatos, portanto, todas as pessoas que não se enquadram nos ideais colocados nas premissas da ideia sobre violência doméstica sofre injustiça. São homens que precisam de ajuda e que são julgados como agressores; mulheres que são vítimas de outras mulheres e não são reconhecidas como tais porque não há um homem agressor; homens fortes que não usam de sua força para machucar outrem e sofre agressões enquanto é visto como o agressor e, portanto, sendo punido por tal…
Vítimas que precisam ou querem ajuda e são consideradas agressoras, sendo punidas por tal ou vítimas que não são reconhecidas como tal, então não merecem ajuda.
O nosso foco é o tempo, não a realidade. Queremos as coisas rápidas, não certas. Temos pressa, não boa moral.
Outro exemplo está associado à ideia de ajudar pessoas que têm menos condições de estudos. As premissas são:
- Os estudos são a única maneira de melhorar a condição de vida;
- Os pobres costumam ser as pessoas com menos condição de estudo;
- Os pobres costumam ser negros;
- Conclusão: os negros precisam de ajuda nos estudos.
E quem consegue subir na vida sem os estudos tradicionais? E o que acontece com quem não é negro e precisa de ajuda? E os outros pobres que não são negros?
Um detalhe importante sobre este assunto é que, legalmente, a cor da pessoa é dada por ela mesma. Apesar disso, existe um julgamento feito por outras pessoas que alegam se a pessoa está correta ou não invalidando completamente a lei que estabelece a autodeclaração de cor. Não é possível que ambos estejam certos: ou a cor é autodeclarada ou não é.
Pulando este detalhe superimportante no debate da ideia de ajuda nos estudos para as pessoas negras, ainda encontramos outros vários problemas por conta da falta de uso correto das palavras.
Assim como no caso anterior, fica claro que as premissas são meros arredondamentos de alguns assuntos, contudo, somar muitos arredondamentos geram um resultado final longe do resultado correto. Considerando uma passagem de ônibus com o valor de R$4,05 e o uso de duas passagens por ida para ida e volta do trabalho, podemos arredondar e contar como R$4. Assim, precisa-se de R$8 por dia. Levando em consideração 5 dias de trabalho por semana e 4 semanas no mês, temos 4×5= 20 reais em uma semana e 20×4= 80 reais por mês. No entanto, se a pessoa separar R$80,00 por mês, ela não conseguirá trabalhar todos os dias porque foram os poucos centavos que, ao serem descartados, fazem a diferença no final. A conta correta, porém mais difícil e longa de se fazer, é de 4,05 x 5 = 20,25 por semana. Em um mês com 31 dias, tem-se 22 dias úteis, portanto, são 2 semanas mais 2 dias, logo 4,05×2+20,25×4=8,1+81=89,1, um número diferente da conta arredondada provando que as pequenas diferenças causam grandes diferenças quando somadas. Quem arredonda o valor da tarifa de ônibus dessa forma? Provavelmente ninguém porque sabe que o valor final será errado e que, por isso, tornará impossível trabalhar todos os dias do mês. Como ninguém quer deixar de trabalhar para receber menos, então é uma ideia ruim fazer esta conta. É melhor levar mais tempo e cuidado com a conta certa do que fazê-la com rapidez e afobação gerando o resultado prejudicial. No entanto, quando entramos no campo da sociologia e das ideias, onde não fazemos avaliações, não testamos nem colhemos resultado, é mais fácil aceitarmos especulações como se fossem dados e opiniões como se fossem fatos. Se não temos como provar rapidamente e corretamente um resultado tal como na matemática, ficamos propensos a aceitar as distorções.
O nosso foco na agilidade, a nossa falta de percepção sobre as distorções somado com a nossa falta de compreensão sobre a linguagem que usamos faz com que ignoremos e não reparemos detalhes importantes que afetam o resultado final. Dizer “eu acho que devemos fazer isso” e dizer “devemos fazer isso” são duas ideias completamente diferentes onde temos uma opinião na primeira e uma afirmação na segunda. Sendo uma afirmação, é um dado ou um fato, uma conclusão lógica, no entanto fazemos afirmações quando queremos dizer somente a nossa opinião.
Imagina quantas vezes vocês afirmou algo que era uma opinião. Você não tinha testes, avaliações ou resultados que comprovassem a afirmação que você falou, então era apenas uma opinião.
Agora pense que, tal como vice, os outros também fazem afirmações sobre idealizações (opiniões). Observe quantas pequenas alterações começam a se juntar. Acreditamos que as afirmações que os outros fazem sejam realidade uma vez que são afirmações, não opiniões, então as levamos em consideração para criamos as nossas próprias opiniões, as quais são expressas por nós em formas de afirmações. São os 5 centavos da passagem que se somam a cada vez que se entra no ônibus. Em um dia são somente 10 centavos, mas quanto vale ao longo de um ano? São 10 centavos por dia, 10×5 dias na semana = 50 centavos. São 4 semanas no mês, então 4×50=200 centavos (R$2). Sendo 12 meses por ano, temos 12×200=2400 centavos (R$24). Mas nós temos todos esses dias, temos mais ou temos menos?
Não temos 4 semanas num mês resultado em 48 semanas num ano, temos 52 semanas num ano resultando em 364 dias, portanto, são 52×50=2600 (R$26). Ainda assim, falta um dia. Se for dia útil, acrescenta mais 10 centavos na conta, se for fim de semana, não.
O arredondamento serve para contas pequenas e para imaginarmos os algarismos significativos que existirão no resultado final visando termos uma mera ideia da unidade de grandeza que existirá no final da conta e sabemos disso na matemática porque temos de fazê-la para nos planejarmos. Se nos planejarmos o valor das tarifas de ônibus que usaremos em um ano fazendo arredondamentos, não conseguiremos todo o dinheiro necessário para o transporte. Como tememos não conseguirmos ir ao trabalho porque impactará o salário, o qual é o que buscamos, então tomamos o cuidado para não errarmos nas contas.
O pensamento lógico não é um pensamento restrito à matemática, mas restrito às informações e aos dados que temos. É a união entre informações sem que emoções do indivíduo seja incluídas no processo de racionalização o que faz com que todas as pessoas cheguem à mesma conclusão tal como a matemática quando realiza a mesma conta diversas vezes. Portanto, é um pensamento muito assertivo e útil dentro da linguagem porque dizermos que “as pessoas são boas” e dizermos que “acredito que as pessoas são boas” são duas ideias completamente diferentes.
O pensamento lógico é um pensamento muito difícil para o ser humano porque somos emocionais. Porém, com esforço e atenção, conseguimos desenvolvê-lo e podemos usá-lo de modo a evitarmos as confusões e brigas com as pessoas o que nos afeta positivamente diretamente. Quem não deseja paz e tranquilidade em sua vida? Identificar se as informações que se obtém são dados ou opiniões muda completamente a estrutura do pensamento e, consequentemente, a conclusão final. Quanto mais próximos da realidade está esta conclusão, mais efeitos previsíveis temos, quanto mais distante, menos resultados concretos se tem. Como vivemos na realidade, é preferível vivermos com resultados reais e os tendo, podemos nos planejar de modo a termos a vida que queremos.
Observe.
Analise.
Pense.
Crie.
Faça.
Aproveite.