Muitas pessoas falam que o passado era melhor, que o mundo está acabando, que tudo está piorando… Mas quais argumentos são usados para chegar a tal conclusão?
Como visto em Nostalgia de um passado inexistente, Os jogos do Coliseu atualmente e Passado X presente: o passado era melhor? , o pensamento humano é composto por uma coletânea de distorções, imaginação, criatividade, idealização, poucos fatos, muitas especulações e comparações parciais que visam um determinado resultado.
Muitas pessoas falam que a violência está terrível e que tudo está piorando, no entanto, se analisarmos bem os FATOS constataremos o oposto.
– Temos mais direitos do que no passado;
– Trabalhamos menos;
– há menos lutas domésticas;
– há mais formas de pedir ajuda;
– a definição de violência abrange mais aspectos que no passado permitindo a denúncia de mais comportamentos prejudiciais;
– dentre outros.
O cérebro humano consegue fazer muitas coisas como acumular imagens e ideias. Tal como uma única notícia que se repete inúmeras vezes fazendo com que vejamos várias vezes e, então, concluirmos que ela aconteceu todas essas vezes que vimos, nós conseguimos acumular imagens e ideias em nossas mentes.
Os noticiários são um exemplo prático de como inserir uma ideia ou sensação em uma pessoa. Passando repetidas vezes a mesma imagem chocante, nós absorvemos todas elas como se fossem situações diferentes, ou seja, a cada vez que vemos a imagem nós a processamos como mais uma dela, ou seja, um acontecimento que se repetiu.
Repetir ideologias é outro exemplo de como absorvemos ideias apesar da realidade e de formar cumulativa. Repetimos inúmeras vezes que os pais amam os seus filhos ao ponto de acreditar nisso apesar de haver várias situações em que isso claramente não acontece. Diante do fato em que prova que a nossa ideia não está correta, nós reforçamos a nossa crença repetindo-a ainda mais. Fazemos isso porque queremos que tal crença seja real num processos claro de distorção da realidade ou a sua negação.
O sistema de repetição é uma forma básica de aprendizado que há em muito animais: os filhotes olham os mais velhos e tentam repetir seus comportamentos. No ser humano temos o processo de caminhar, comer com talheres e o vocabulários. Em espécies caçadoras há o comportamento de caça e as espécies que são presas há o comportamento de vigília e fuga. Tudo aprendido com os mais velhos.
De tanto ver os mais velhos tendo o mesmo comportamento, os mais jovens o absorvem e passam a repetir num comportamento de aprendizado básico.
É assim que aprendemos a maioria das coisas. Nós observamos e repetimos. Este processo é a base da educação acadêmica em que os alunos copiam as ideias dos professores em seus cadernos ou de outras formas. Os exercícios feitos em casa são justamente formas de repetir o conceito recém-descoberto até que seja absorvido e, então, basta repeti-lo na prova para conseguir uma boa nota.
Esse funcionamento é o normal no ser humano. Acumulamos informações, sejam visuais, abstratas ou vindas de outros sentidos. Nós simplesmente acumulamos. Dessa mesma forma, acumulamos as informações ao longo da vida, portanto, uma pessoa mais velha já teve ciência de mais violência do que uma pessoa simplesmente por ter tido mais tempo para saber sobre elas. Assim ela conclui que há mais violência no mundo do que no (seu) passado. Ela compara a coletânea de notícias ruins que têm conhecimento com a coletânea de notícias ruins que tinha quando mais nova e obviamente conclui que há mais. Assim ela tem a certeza de que o mundo está mais violento.
Apesar dessa conclusão “óbvia”, temos acesso a muitas informações que a contradizem ou que a confirme.
Alguns comportamentos que atualmente são vistos como violentos não tinham o mesmo julgamento no passado como o direito por sexo do homem dentro do casamento que forçava a mulher a transar (se disponibilizar) mesmo contra a sua vontade e que atualmente é considerado violência. Dessa forma, como não era considerado violência, não entrava na estatística, ainda que pessoal, como tal fazendo com que a pessoa não visse como algo violento. Outro exemplo é a surra que os pais podiam impor aos filhos como castigos assim como maridos também podiam surrar suas esposas como forma de punição, comportamento inaceitável atualmente. só era considerado violência quando a vítima perdia a consciência, morria ou sofria graves sequelas que a impedia de realizar as suas atividades enquanto qualquer agressão física atualmente é tida como ilegal.
Estes exemplos mostram que a violência não existia em tais comportamentos fazendo com que a análise fosse favorável para a ideia de uma vida mais pacífica e melhor. Mas, era mesmo?
Dessa forma, há mais comportamentos registrados como violência atualmente do que no passado favorecendo a ideia de que havia menos violência no passado. No entanto, se verificarmos os comportamentos totais com as definições atuais concluiremos que havia mais violência no passado do que no presente. O direito ao sexo pelo homem dentro do casamento atualmente é tido como estupro, um crime, enquanto que no passado não era. A sensação de submissão, de imposição do outro e de violência da vítima permanece. O que mudou foi apenas o julgamento sobre este comportamento. Assim, no passado o estupro era um direito masculino, mas não contava como violência tal como surras que não chegavam a deixar o outro deficiente.
Ao analisarmos os comportamentos, veremos que a violência era maior no passado. Casamentos de homens com meninas de pouco mais de 10 anos eram comuns o que as transformava em vítimas de estupros consecutivos ao longo de suas vidas uma vez que era apenas um direito do marido.
Outras ideologias que pregavam violência também foram abolidas como a escravatura e ideias de hierarquia de classes, sendo esta ainda vigente na prática. Surrar, bater, queimas, maltratar e torturar escravos (por classe, cor, etnia, idade, sexo…) não era considerado violência, mas um direito que o dono do “objeto” tinha sobre suas posses. Mulheres, crianças, negros, índios, ralé e proletariado eram tratados de acordo com as leis vigentes que garantiam que tais comportamentos não era violentos. Porém, se o fizermos atualmente seremos gravemente julgados por crimes bárbaros porque apena atualmente converteu o direito do proprietário do “objeto” em um comportamento violento e criminoso sobre outra pessoa.
Se consideramos apenas o que é tido como violência, talvez encontremos mais violência atualmente uma vez que cada vez mais usa tal nomenclatura para comportamentos que prejudicam outras pessoas. Contudo, se avaliarmos os comportamentos em si, claramente temos a conclusão oposta.
Veja mais em Nostalgia de um passado inexistente, Conseguimos perceber a realidade ou nos afogamos em nossos próprios sentimentos? e A confusão de um pensamento.