Obsessão, também conhecida como fascinação ou mais popularmente como paixão, é um sentimento intenso que nos deixa conectado a algo ou alguém de modo tão intenso que ganha grande importância em nossa vida.
De ideias a pessoas, podemos nos apaixonar por qualquer coisa ou pessoa e pensar nela o tempo inteiro ou de forma persistente.
Dito ou guardado para si, a obsessão parte do próprio sujeito que deseja tanto este objeto ou determinada pessoa que chega ao ponto de sentir que precisa dela ou que ela seja real. Diante da ausência do objeto ou da pessoa, o apaixonado faz o que pode para consegui-lo/la e, se ainda assim não conseguir e a paixão for intensa, resta recorrer à imaginação para enfim ser feliz e ter o que se precisa.
Como visto em Raciocínio inconsciente, a crença em ideias irreais ou o desejo por alguém inalcançável são sentimentos comuns no ser humano, tão comuns que não pensamos sobre o assunto, apenas sentimos certeza de que seja real porque a nossa sensação é intensa o suficiente para termos consciência dela e, então, concluirmos que ela seja real. Se a emoção é real, então o pensamento também o é de acordo com o pensamento dualista e inconsciente humano.
Tudo surge da imaginação de que ter o que acredita gerar uma boa sensação seja o meio para conseguirmos essa sensação boa. Então imaginamos como será ou seria esta situação de termos o que desejamos, de termos a satisfação e, com essa ideia na cabeça nós concluímos que ter tal objeto que nos gerará esta felicidade/satisfação seja necessário para sermos felizes.
Quanto mais precisamos de algo ou de alguém e menos o temos, mais recorremos à fantasia de imaginarmos tê-los e usufruirmos deles. Além dessa ferramenta, buscamos pelo que queremos e fugindo do que não queremos que encontramos lugares e pessoas com similaridades, a “lei da atração”.
Nós nos atraímos por semelhantes. Buscamos por pessoas que acreditam nas mesmas ilusões que nós, que queremos o mesmos que nós, que seguem os mesmos preceitos e que se comportem como aceitamos. Da mesma maneira que buscamos por parecidos, nós evitamos os opostos. Assim nós buscamos pessoas com assuntos em comum, com a mesma religião ou opinião política. Nós somos atraídos por tudo e todos por quem temos fantasia positiva: tudo que imaginamos nos dar boa sensação e bem-estar é bem-vindo e bem-visto e o mesmo para o oposto.
Evitamos pessoas com odores que não gostamos, com comportamentos que nos incomodam, com aparência que não nos é agradável, com opiniões que vão de encontra à nossa fantasia. Evitamos tudo e todos que geram mal-estar seja este real ou imaginário.
Todos nós temos a nossa própria ideologia individual que nada mais é do que a situação em que temos todas as nossas vontades atendidas. É com essa ideologia que julgamos o mundo: tudo que é parecido, favorável, alimenta a nossa ideologia ou que é próximo a ela nos é bom; já tudo que vai contra o nosso ideal, que é o nosso bem-estar, é visto como ruim.
Estamos sempre do nosso próprio lado, querendo sempre o melhor para nós mesmos e, por isso, consideramos certo o que nos faz bem e errado o que nos faz mal.
É com essas ideias básicas que construímos o resto do pensamento e chegamos a conclusões absurdas com convicção de que estão certas e com a certeza de que são lógicas.
Se vemos uma pessoa linda, nós nos sentimos bem. Como queremos o bem-estar, queremos ver esta pessoa. Julgamos a pessoa como boa porque nos faz bem, mesmo que ela não saiba de nossa existência. Se ela é linda de morrer, nós a queremos demais e desejamos olhá-la para sempre visando essa sensação boa de usufruir de sua aparência.
Podemos ficar apaixonados/obcecados por alguém sem que ela saiba de nós. Ao temos uma boa sensação visão ao vê-la, queremos manter essa sensação. Ademais, outros sentidos começam a ser ativados através da imaginação: imaginamos como é o cheiro dessa pessoa, como é olhá-la de perto, como é sentir a sua pele, ouvir a sua voz, beijar seus lábios e sentir o seu corpo. Se a visão dela é boa, então imaginamos que todo o resto também o é e achamos que este pensamento seja lógico porque é um pensamento comum da espécie. Tudo imaginado, mas tudo tão real quanto a visão de que ela existe. Temos uma paixão, um desejo intenso, uma necessidade.
Ao imaginarmos tudo isso, imaginamos que tudo isso será tão bom ou melhor quanto olhá-la reforçando a nossa opinião sobre ela bem como o nosso desejo por ela. Concluímos que nós amamos essa pessoa, que não vivemos sem ela, que precisamos dela e que a vida sem ela não tem valor porque o prazer que temos com o resto que temos não chega perto do prazer que temos com esta pessoa, real e imaginário.
Diante de uma paixão não correspondida, não podemos usufruir do que desejamos e experimentamos a frustração, tão intensa quando o desejo não satisfeito. Quanto mais se “ama”, mais se sofre quando não se tem quem se “ama”. Daí a imaginação ser um recurso muito usado possivelmente danoso a longo prazo uma vez que a pessoa consegue construir uma vida imaginária tão ou mais importante do que a vida real com a pessoa “amada”.
A vida imaginária pode “se tornar real” quando a pessoa acredita mais nela no que em sua vida. Refugiar-se nela para fugir da vida real é uma reação comum que faz a pessoa enlouquecer quando a diferença entre ambas é grande demais para se conscientizar. É com isso que pessoas enlouquecem de amor de forma literal ao criarem relacionamentos que não existem e tirarem satisfação com a pessoa real como se esta estivesse em sua imaginação. Neste momento a pessoa não distingue mais o que é real do imaginário e cria conflitos porque o que ela vive em sua cabeça não condiz com a realidade que as pessoas ao seu redor percebem.
De corações partidos por “amores” não correspondidos à frustração de acreditar em ideias e sonhos impossíveis que leva a pessoa ao delírio de se imaginar vivendo este sonho, ao acordar da fantasia com a realidade e se deparar com o choque entre desejo e realidade é grande demais para ser suportado. O recurso que usamos quando não podemos mudar a realidade é cair na fantasia onde tudo é possível incluindo voar. Quando a paixão é forte e não correspondida, cenários assim podem aparecer e devem ser tratados por psiquiatras. Ainda que a imaginação não seja tão forte ao ponto de acreditar mais nela no que na realidade, grandes frustrações ou perdas (incluindo a perda de esperança de se ter a pessoa ou o objeto que se deseja) podem ser tratadas com auxílio de psiquiatras e psicólogos bem como com outras terapias porque a perda é sempre um processo doloroso e fisiológico que, portanto, pode ser parcialmente manipulado através da fisiologia.
Uma grande frustração pode gerar depressão afetando a vida da pessoa e a frustração menos intensa pode gerar raiva por não se ter o que se deseja. Raiva do amor não correspondido, de uma promessa imaginária não feita, de um sonho que não se realiza, do futuro promissor que não chegou, da promessa divina não cumprida, do cônjuge que não lhe satisfaz completamente… Com a raiva, as pessoas conseguem machucar e até matarem os seus “amores” provando que uma mente que vive na ilusão pode gerar prejuízos severos na vida real.
E da mesma maneira que nos apaixonamos, os outros podem se apaixonar por nós e também podemos não saber da existência deles ou rejeitá-los. Podemos ser alvos de paixões e não as corresponder. É o desejo alheio por nós, pelo que temos ou pela ideia do que podemos ofertar de bom. Da mesma forma que buscamos a aproximação por quem queremos, também somos procurados por quem nos “ama”.
A paixão romântica é uma ideologia de mentes insatisfeitas que acreditam que viver tal sentimento é ter energia e disposição para viver e construir uma vida bem como para batalhar no palco da vida contra tudo que vai de encontro às suas vontades. O romance visto por quem o deseja e não o tem é imaginado como perfeito, a felicidade completa, e ,assim, esta paixão é tida como boa e desejável. Uma ideologia que, como qualquer outra, só é boa para quem a imagina e não a vive.
Exemplo disso são os relacionamentos românticos longos e a rotina que gera tédio. Para muitos casais, perder a paixão do início do relacionamento em que as novidades são boas é perder o amor. Tudo fica monótono, mesmo sendo tudo bom. Os jantares perdem a graça, o sexo não tem mais intensidade, as conversas reduzem, a sedução acaba e o casal sente fica insatisfeito, mesmo tendo tudo de bom, tudo que os outros sonham em ter porque o cérebro humano precisa de variações, seja para cima ou para baixo, satisfações ou insatisfações. A mesmice, rotina ou monotonia gera depressão por não ativar o cérebro tanto quanto ele precisa para funcionar de forma a gerar a sensação de bem-estar causando a “depressão da felicidade”. Enquanto quem deseja este cenário o idealiza como perfeito em que todas as suas vontades serão realizadas, quem o vive constantemente sofre por ser constante. Um cenário utópico para muitas pessoas e desesperador para as poucas que o vivem.
A paixão materna, ou instinto materno, é outra paixão fantasiada de perfeição porque acreditamos que amor significa disposição em satisfazer ao outro e, enquanto bebês, queremos isso por necessidade fisiológica uma vez que somos incapazes de fazê-los. Conforme crescermos, aprendemos a nos cuidar fisiologicamente, mas continuamos a acreditar que alguém, alguém que nos ama, nos dará o que queremos e, com essa certeza, buscamos o amor de nossas vidas: um servo fiel que fará tudo para nós, nos fazendo felizes, outra razão pela qual idealizamos a paixão romântica. É a transferência da maternidade perfeita para o cônjuge perfeito.
A paixão química, nomeada como vício, é outra paixão que nos deparamos regularmente. Seja em nós ou em outras pessoas, nós temos o seu conhecimento, mas diferente da paixão romântica e da materna, que desejamos por idealizarmos a seu respeito, o vício não está na mesma classe da divisão dualista humana. Contudo, para quem está na situação de desespero, o vício é a esperança de se libertar das amarras apertadas da angústia profunda o que o torna um assunto compreensível para quem passa por situação similar.
Ademais, o vício é pregado como ruim e, sendo seres que absorvem ideias e as repete, nós achamos que seja ruim. Não pensamos nem estudamos o assunto, repetimos o que ouvimos. Da mesma forma, a paixão romântica e a materna são ideias comumente pregados como boas por serem ideais de massas de pessoas que repetem constantemente que são boas. Nós, como animais irracionais que somos, repetimos os ideais de outros. Assim, mesmo tendo os mesmos sintomas, os mesmos sentimentos, as mesmas crenças e os mesmos comportamentos, nós conseguimos a proeza de concluir que são opostos: errado e bons. Se fôssemos seres pensantes perceberíamos o absurdo dessa “conclusão”.
Qualquer obsessão nos faz pensar em nosso objeto de desejo com tanta intensidade que esta meta de o conseguir se torna quase que a única coisa que nos importa. É uma forma de hipnose que nos mantém focados em poucas coisas e ignoramos todo o restante. Uma mãe consegue abrir mãe de si mesma para cuidar do filho, uma reação obviamente estúpida porque se a mãe não estiver bem, o bebê, seu dependente, sofre também. Portanto, prezar pela própria saúde é a base para poder cuidar do bebê e é esta dedicação completa que desejamos de quem nos ama mostrando que não queremos amor, mas alguém que nos sirva para termos o que não conseguimos ter por nós mesmos. Idealizamos a mãe quando precisamos dela e transferimos essa idealização para o parceiro romântico quando o buscamos.
Quanto mais obcecados estamos por alguma coisa, mais oferecemos para tê-la. Disponibilizamos a nossa atenção, o nosso tempo, as nossas ideias, os nossos recursos, as nossas emoções… Quanto mais queremos algo, mais nos esforçamos para tê-lo.
Uma obsessão comum é a obsessão pelo trabalho. Pessoas vendem o tempo que têm para o trabalho para além de suas funções ou de seu expediente conforme estipulado no contrato de trabalho. Não se importam em trabalharem nos finais de semana, de perderem férias, de chegarem tarde em casa e saírem cedo e aceitarem toda oferta que surge. O trabalha está acima de tudo e de todos e, por ser uma obsessão comum, é normal e, sendo normal, é vista como boa. Contudo, toda obsessão é ruim porque é o exagero.
Assim como todos os sentimentos, não pode ser controlada, contudo, pode ser analisada, estudada e tomar decisões que favorecem a redução dessa intensidade a longo prazo. Parar de trabalhar e se abster não é possível para muitos, contudo, deixar de trabalhar todos os dias pode ser uma opção assim como cumprir apenas o tempo de expediente combinado saindo e chegando na hora. Regular o próprio horário e fazer uma agenda de horário com atividades além do trabalho são formas de gerenciar essa obsessão e reduzi-la gradativamente, mas requer consciência e esforço bem como o poder de decisão de falar não para o trabalho além do assinado em contrato.
Todos os desejos advêm da imaginação de que algo possa nos satisfazer. Quando baseada na realidade, a satisfação é possível com a imaginação de que comer possa aliviar a fome: uma imaginação pautada em experiências. Quando baseada unicamente em satisfazer o nosso desejo sem sabermos ao certo como satisfazê-lo, nós imaginamos possibilidades em nossas mentes e, com essa imaginação, imaginamos a felicidade em ter o que achamos que queremos. Seja um parceiro, uma família, status, dinheiro, comida, sexo… Imaginamos o que acreditamos que possa nos satisfazer e quanto mais desejamos algo, mais imaginamos essa satisfação. É assim que conseguimos não nos importar com mais nada quando precisamos de dinheiro, não pensamos quando estamos dominados pelo tesão, não pensamos em nada além de comida quando famintos, não nos importamos de arriscar perder a nossa família quando a única coisa que nos importa é o status e é assim que vemos pessoas obcecadas com determinados objetivos a vida inteira sem perceberem que estão perdendo todo o resto, afinal, o resto não importa tanto quanto o objeto de desejo.