As mulheres têm liberdade de andarem com (quase) todas as roupas que desejam. Shorts curtos e saias bem como tops e camisas com grandes decotes são roupas aceitáveis atualmente.
O uso de tais roupas não significa que desejam provocar ninguém sexualmente nem que estão receptivas a abordagens íntimas. Significa apenas que usam porque, de alguma maneira, gostam de usá-las.
Ainda que o intuito seja de provocar alguém, cada pessoa é responsável por seus atos conferindo responsabilidade àquele que age de maneira a responder a tal provocação. Em outras palavras, somos livres para reagirmos ou não às provocações e responsáveis por nossa reação, logo, quem reage à provocação se aproximando da mulher com tais peças é responsável por sua escolha de se aproximar da moça.
A moda é uma coleção de conceitos sociais advindos das crenças e emoções da sociedade e não se limita apenas a vestimentas. Temos modas de carros, cabelos, maquiagens, comportamentos dentre outras. Por sermos mutáveis, mudamos com o tempo, variamos e trocamos de opinião o que faz com que achemos algumas coisas certas num momento e errado posteriormente. Sendo a sociedade o conjunto e indivíduos, possui a mesma característica de mudança e isso é reportado na história.
Vemos a mudança da sociedade em relação a praticamente tudo. As roupas, especificamente, foram criadas para proteger o corpo e depois para embelezá-lo. No passado serviu para cobrir o corpo visando protegê-lo de olhares maldosos (com desejo) para não seduzir nem provocar ninguém. Com o tempo, a moda foi sendo alterada conforme a população alterava os seus conceitos, regras e ideais. As peças que antes eram pesadas e cheias de pano foram sendo reduzidas e outras foram criadas.
Há dois séculos atrás, imaginar uma mulher “decente” de calça era inimaginável bem como imaginar tops ou sutiãs. Mulheres que mostravam muito o seu corpo de acordo com a moda em vigor eram consideradas mulheres que provocavam sexualmente com o intuito de provocar e gerar alguma reação sexual nos outros. Por isso eram consideradas prostitutas e essa crença permanece até hoje com a diferença da moda. Com peças menores atualmente tidas como descentes e “respeitáveis”, as mulheres que provocam sexualmente exibem mais de seus corpos do que a maioria o que significa que usam peças ainda menores ou não usam algumas peças de roupas. Isso mostra que a mesma crença ainda existe e que apenas nos adaptamos a ver mais dos corpos das pessoas porque estamos inseridos em uma sociedade que possui uma moda que mostre mais do corpo da pessoa.
O ser humano é um ser que aprende pela repetição e observação predominantemente. Se vemos mulheres andando de shorts e mostrando suas pernas com constância, assimilamos tal informação como sendo normal, comum e rotineira. Também consideramos o normal como algo correto ou aceitável, então não analisamos nem questionamos, apenas aceitamos e nem nos damos conta. Dessa forma, o que nos chama atenção é o diferente e, analisando a moda de roupas por agora, na década de 2000 até os dias de hoje, constatamos que mostrar as pernas seja algo normal, comum, aceitável e certo. Com isso, se encontrarmos alguém vestido com roupas da década de 1900 estranharemos e criticaremos. Como neste caso o corpo estará mais coberto, apenas acharemos estranho. No entanto, se encontrarmos alguém que ande com roupas que cubram menos ainda do que estamos acostumados ou até mesmo sem roupa alguma, não apenas estranharemos como concluiremos que a pessoa deseja provocar outras pessoas com a exposição de seu corpo, o exato pensamento que alguém da década de 1900 teria ao ver alguém vestido com as roupas da atualidade porque era como a exposição do corpo era interpretada pela sociedade. Isso significa que aceitamos as pessoas se cobrirem mais ao apenas estranharmos e criticarmos, mas que não teremos apenas esse comportamento com quem se veste com menos do que estamos habituados a ver. Nós estranharemos, criticaremos e teremos a mesma conclusão de um século atrás de que a pessoa expõe o seu corpo visando provocar outras pessoas e, sendo assim, ela é responsável por provocar os outros o que faz com que os outros não sejam responsáveis por suas ações ou reações, mas que a pessoa que provoca seja a responsável pela provocação e pela reação de quem foi provocado.
Por outro lado, mulheres peladas em desfiles de carnaval também não são tidas como provocativas de modo vulgar, mas de um modo sensual e belo. Não são vistas como moralmente inferiores ou pessoas sem respeito somente porque estamos acostumados a vê-las assim neste cenário específico provando que o que julgamos como vestimenta errada nada mais é do que o diferente do estamos acostumados a ver como certo ou normal. Homens vestidos de mulheres, os travestis (que se transveste de mulher), são condenados e repudiados como se fossem bichos sem valor ou pior, que querem corromper outras pessoas com o seu erro (de não se vestir da maneira que queremos que eles se vistam), no entanto, no carnaval este comportamento é tido como normal e, tal como a mulher pelada não vista como alguém que busca provocar sexualmente os outros e que merece uma punição por tal ato, os homens vestidos de mulher também não sofrem qualquer represaria. Somente porque estamos habituados a ver tais comportamentos neste período do ano e, sendo habitual, é normal. Como normal é sentido pelo ser humano como correto e aceitável, tais comportamentos não são errados diante dos mesmos olhos que os condenam como errados em qualquer outro momento do ano.
REAÇÃO E AÇÃO
A ação é o ato de agir, de tomar alguma atitude, de fazer alguma coisa. A ideia de ação parte do pressuposto de que o indivíduo está parado, estático, e decide por ele mesmo fazer alguma coisa. Dessa forma, ele é responsável por sua ação.
Já a reação é o ato de re-agir, isto é, a pessoa age em relação a algo ou a alguém. Portanto, a pessoa recebe algo (o resultado da ação do outro) e age em resposta a tal estímulo. Como a reação costuma ser algo muito rápido, é impensada. Com isso, constatamos que não seja responsabilidade de quem reage, mas de quem provoca.
Esses conceitos emocionais fazem com que tenhamos esta conclusão o que faz com que quem reaja a uma provocação não seja responsável por esta, mas aquele quem a provoca. Dessa forma, as pessoas que se vestem de forma provocante são as responsáveis pelas reações de quem reage às suas provocações.
Vemos isso em muitos exemplos como na política em que uma pessoa fala mal da outra, a xinga e não para de criticá-la provocando-a até que ela reaja de alguma maneira. Também é curioso perceber que quem provoca o faz de um jeito visando uma reação em outra esfera, ou seja, a pessoa usa a esfera verbal ao usar palavras para provocar o outro visando este outro reagir e ter uma resposta violenta com gritos ou mesmo com o início de uma luta física. Como temos a crença de que violência é necessariamente física, analisamos e julgamos como errado aquele que reagiu de forma errada (com violência) e desprezamos o fator que o levou a agir de tal modo.
Em pessoas evoluídas e civilizadas, quem sente ser provocado informa que está se sentindo provocado e pede para o outro parar ou se afastar e o outro atende a tal vontade evitando qualquer tipo de discórdia. Contudo, vivemos em um mundo selvagem onde buscamos brigas para ganhá-las se nos sentirmos vitoriosos ou para nos impor a outrem. Então provocar aquele quem desejamos que reaja a nossa presença é um comportamento comum, normal e, portanto, aceitável e certo. Daí que condenamos quem reage a provocações verbais de forma física como o errado da história e vítima aquele que provocou intencionalmente porque ainda estamos presos à ideia de que violência, algo errado e inaceitável, é física.
O fato é que nós julgamos tudo de acordo com o que sentimos. Se nos sentimos que reagimos, nós acreditamos que não temos responsabilidade sobre nossas (re)ações. Como o ser humano é dualista julgando tudo como se houvessem apenas duas opções necessariamente opostas e jamais conjuntas, se nós não temos responsabilidade pelo que fazemos, alguém mais deve tê-la e, assim, concluímos que se reagimos a algum estímulos ou a alguém, o responsável por nossa reação é este objeto ou pessoa.
Este julgamento é comum bem como o anterior, depende apenas se estamos inseridos na provocação ou não. Dessa forma, para quem analisa à distância, que não sente provocação alguma, não existe provocação. Para quem sente algo e, principalmente, se reage, sente que foi provocado e que não tem responsabilidade por sua conduta e, para quem não se sente provocado, nada acontece. Isso significa que o mesmo objeto ou pessoa pode ser provocativo ou não a outrem e apenas quem sente algo em relação ao objeto é quem julga se o é ou não. Em outras palavras, se um homem olha uma mulher passando na rua sem sentir nada, ela é somente uma mulher assim como todas as demais, porém, se ele sente algo por ela, ele a julga como provocativa e, quanto mais intensa é a sua sensação, mais forte é a sua reação (o seu comportamento) ao ponto de não conseguir se segurar. Então, por ser provocado, a responsabilidade não é dele, mas dela e com isso ele conclui que a mulher é responsável por seu comportamento.
Muitos estupros são vistos com esta ótica, tanto por parte de homens como por parte de mulheres que questionam a vítima do estupro visando criticar a maneira que se vestia ou se comportou (se foi de forma “errada”; provocante) em vez de olhar para o estuprador como o responsável pelo crime provando que este comportamento reativo é tido como passivo e sem culpa bem como a crença de que as roupas devam estar dentro do esperado (mostrando partes do corpo que são aceitáveis de mostrar de acordo com a moda e crença popular da época).
Por isso muitas vítimas não buscam ajuda ou não relatam. São pessoas fragilizadas e vulneráveis que buscam apoio e ajuda e ouvir críticas e questionamentos que sugerem que elas seja as culpadas por seus sofrimentos piora ainda mais a sua situação.
Compreenda mais sobre o comportamento de concordância para com os agressores em Vítimas não inocentes e Por que concordamos com os agressores?