Pular para o conteúdo

Felicidade, alegria ou euforia?

A falta de consciência sobre o que é felicidade faz muitas pessoas acreditarem que é uma emoção agradável. Contudo, existem várias emoções agradáveis e nem todas são felicidade.

 

Satisfação, realização, euforia, alegria dentre outras são emoções agradáveis que geram bem-estar, razão pela qual são visadas. Ainda assim, não são felicidade.

 

O desenvolvimento emocional das pessoas é gradual. Algumas são mais desenvolvidas do que outras o que as leva a ter emoções que as menos desenvolvidas desconhecem. Tal como o amor, que é o sentimento de maior altruísmo que uma pessoa pode sentir, de acordo com os relatos das pessoas, a felicidade também é tida como a emoção de mais bem-estar que uma pessoa consegue ter. Assim, para muitas pessoas a felicidade é conseguir alimento e saciar a fome, para outras é ganhar um dinheiro extra, enquanto que há quem acredite que felicidade seja viajar para locais distantes e outras que afirmem que felicidade seja ter a própria família. Para cada pessoa, a felicidade recebe uma definição diferente, mas com um traço em comum: bem-estar.

 

Somos indivíduos com características próprias. Cada um tem o próprio gosto, porém somos da mesma espécie e, por isso, compartilhamos de alguns gostos comuns. Por serem sentidos por várias pessoas, estes gostos não são definidos ou explicados, apenas sentidos. Se nos sentimos bem com algo bem como os demais, não precisamos explicar o que sentimos, basta dizer que temos este algo que os outros naturalmente compreenderão o bem-estar que temos porque eles sentem o mesmo. Esta é a empatia.

 

Dessa forma, para todos que experimentaram a fome, a alegria em comer é compreendida sem precisar ser explicada. Como acreditamos que as pessoas sejam como nós, supomos que os demais sintam como nós, logo, tudo o que gostamos é sentido da mesma maneira pelos outros e por conta desse pressuposto que encaramos diversas adversidades sociais porque os outros nem sempre sentem o mesmo que nós.

 

Para muitas pessoas o prazer em conseguir dinheiro é imenso e as fazem buscar dinheiro a todo custo. Facilmente são vistas como pessoas viciadas em trabalho, por ser um método de se obter o dinheiro, ou pessoas fraudulentas que buscam o dinheiro pegando de outras pessoas. O que muda é o método, mas o objetivo é o mesmo.

 

Para estas pessoas é óbvio e claro as suas ações bem como não entendem como possa haver quem não haja como elas, fazendo tudo por dinheiro. Para elas, os demais são estranhos enquanto para os demais elas são as estranhas somente porque não possuem a mesma intensidade de interesse no objeto dinheiro.

 

Há quem se sinta bem quando rodeado por pessoas, com atenção social e sendo visto como uma pessoa exemplar. Para este tipo de pessoa, festas e reuniões são essenciais bem como fazer de tudo para ser visto como uma pessoa excelente. Isso significa que a pessoa precisa constantemente ser vista por outras bem como estar sempre disponível para satisfazer as demais visando serem vistas como exemplares. Mas há quem não pense assim e despreze eventos sociais.

 

Isso mostra como as pessoas são diferentes e obtém prazeres por vias diferentes. Mas além disso, a intensidade do prazer também é mutável de acordo com as emoções sentidas antes e depois do que causa o prazer.

 

O prazer é a sensação positiva entre uma sensação ruim seguida por uma sensação boa. Quanto maior é a diferença entre ambas, maior é a intensidade da emoção. O mesmo vale para o desprazer que é uma sensação negativa entre uma sensação boa seguida por uma ruim e também é intenso conforme a distância entre as duas emoções.

 

Sendo a felicidade a ideia de prazer, temos que a felicidade é variável em intensidade, duração e de onde ela surge. Como visto, há muitas formas de prazeres de acordo com as características pessoais. Dessa forma, a felicidade é tida através da sensação (experimentação da emoção) de cada um e, portanto, cada um tem a sua própria definição do que é felicidade.

 

Para um faminto, a felicidade é comer alguma coisa, para uma pessoa que presa por sua reputação, a felicidade é estar rodeada por pessoas que a consideram uma boa pessoa enquanto para quem aprecia o dinheiro a felicidade é aumentar a sua grana. Temos, então felicidades “diferentes”.

 

Na verdade, não há felicidades “diferentes”, mas sentimentos agradáveis que são confundidos com a felicidade de acordo com a régua emocional de cada um. Quem só experimentou dor e sofrimento, a felicidade é a ausência ou mesmo a redução de ambos saindo do patamar de emoção ruim para uma boa (ou menos ruim), mas para quem tem tudo o que deseja, a pessoa varia pouco saindo e emoção boa para outra ligeiramente melhor. O bem-estar do primeiro caso é muito maior e mais intenso enquanto no segundo sequer é percebido. Quem é mais feliz, quem reduziu o sofrimento ou quem tem mais prazeres constantes na vida?

 

A régua emocional do ser humano se inicia com sensações básicas e instintivas do corpo e se desenvolve para outros aspectos. Quanto mais avançamos nesta área da vida, mais brandas ficam as emoções. Saímos da dor e do medo, emoções intensas, passeamos por frustrações e incômodos, emoções menos perturbadoras, e passamos a experimentar emoções cada vez mais brandas.

 

O ser humano funciona num movimento pendular, alternando entre um polo e outro quase que 100%. As emoções também funcionam dessa forma. Se conseguimos sentir apenas as mais intensas ruins, conseguimos sentir somente as mais intensas boas alternando entre céu e inferno na mesma intensidade. Dessa maneira, as pessoas com prazeres constantes e, consequentemente sem tanta variação nas emoções, são pessoas que experimentam desprazeres brandos os quais sequer são percebidos (sentidos) por pessoas que vivem em emoções mais intensas. Daí parece que pessoas que possuem (quase) tudo na vida não usufruem de momentos de felicidade intensas (euforia) ou felicidade mediana (alegria), apenas de felicidade, uma sensação de bem-estar constante. Enquanto um fiapo de roupa no lugar errado pode ser perturbador para uma pessoa que tem (quase) tudo por gerar o desprazer (sensação ruim após sensação boa), para quem vive nas emoções intensas não significa nada porque o desprazer gerado é pequeno demais para ser percebido.

A felicidade é a constância de prazer na vida e a infelicidade é a constância de infelicidade, sendo emoções duradouras, ou seja, sentimentos.

 

As pessoas que vivem mais próximo da infelicidade passeiam entre a euforia e desespero e o seu medidor emocional está ajustado para a intensidade de emoções nesta escala. Por isso elas não conseguem sentir emoções mais brandas e, consequentemente, não entende quem as sentem assim como não conseguem imaginar como são tais emoções.

 

Quanto mais brandas são as intensidades das emoções que sentimos, mais conseguimos sentir prazer de forma constante e mais reagimos aos desprazeres eliminando-os rapidamente. Isso mantém um nível mais constante das emoções agradáveis.

 

Observe que o desenho é um gráfico que mostra o desenvolvimento das emoções das mais básicas às mais complexas, das mais intensas para as mais brandas assim como o movimento pendular entre as emoções que, quanto mais intensas, maior é a distância entre as emoções percebidas. Por isso que no início do gráfico o movimento pendular é maior e a infelicidade também: há menos constância de satisfação uma vez que se sente o desespero muitas vezes, sendo uma emoção muito ruim/desagradável. Já no final tem-se uma variação menor entre mal-estar e bem-estar, entre ânimo e depressão resultando em uma satisfação mais constante, ou seja, mais felicidade (emoção boa a longo prazo).

 

A nossa régua de medição emocional não apenas se expande para frente, saindo da infelicidade no sentido da felicidade, mas se prende às emoções mais recentes representadas pelos pêndulos na vertical. Quanto mais sensível é uma pessoa, mais sente pequenas variações emocionais e reage a elas enquanto as demais não percebem que houve uma mudança por ser sutil demais para sentirem. Assim, as pessoas mais sensíveis reagem a pequenas variações enquanto as pessoas menos sensíveis só reagem quando as variações são maiores. É assim que as pessoas mais intensas percebem a felicidade como algo maravilhoso, vibrante, intenso e eufórico e as pessoas mais sensíveis a percebem como um bem-estar constante, sem muita variação. Também é por isso que pessoas menos sensíveis não se incomodam como detalhes que provocam pequena variação emocional, visto que não os sentem, enquanto as mais sensíveis ficam muito incomodadas com coisas “sem importância”.

 

A nossa reação é estimulada por nossas emoções. Se não sentimos nada, não fazemos nada. Se desejamos algo intensamente, agimos de forma descontrolada. Se queremos algo sem desespero (mais brando), o buscamos de forma planejada e organizada e isso explica o funcionamento das pessoas.

 

As pessoas mais intensas reagem a grandes mudanças emocionais (prazeres e desprazeres), variando entre céu e inferno com rapidez. Entre a dor e a euforia, a pessoa conhece estes extremos e, por perceberem apenas coisas que provocam grande variação emocional, reagem somente a situações em que sintam tal variação. Portanto, têm vidas compatíveis com suas emoções e poder de reação. Elas reagem ao que provoca grande incômodo ou a muita “felicidade” e assim, entre tapas e beijos, ódios e amores, paixões e brigas, vivem suas vidas.

 

São pessoas que percebem brigas corporais e não notam nenhum abuso verbal ou um comportamento ameaçador que seja sutil. Pessoas que ignoram palavras ofensivas por perceberam somente o que afeta fisicamente e é por isso que situações com pequenos problemas se tornam gigantes e impossíveis de serem solucionadas. São pequenas ofensas que não são percebidas, mas nutridas por anos a fio até que finalmente entra na capacidade de detecção emocional da pessoa e ela se sente ofendida, mas sem saber o porquê. Quando as ofensas começaram? Como? Por quê? Não encontram estas respostas porque não perceberam de início, somente após acumular dor o suficiente para ser percebida. É o que acontece com vítimas de abusos: só percebem o abuso após estar escancarado enquanto as pessoas externas o notaram há anos antes, ao primeiro olhar agressivo ou à primeira opressão sutil.

 

Já as pessoas mais sutis percebem pequenas variações o que as fazem reagir rapidamente assim que notam uma variação. Isso significa que logo que algo surge, elas reagem e buscam terminar com o incômodo em vez de deixá-lo existir, se manter, se intensificar e então estourar. Seguindo o exemplo anterior, são pessoas que se incomodam com a maneira que são tratadas sutilmente como a forma de olhar ou a entonação de voz. Percebido o problema, buscam solução e, assim, as agressões invisíveis não se somam ao longo do tempo e não culmina numa explosão de fúria.

 

É interessante perceber que a maneira de ser de uma pessoa é um ciclo que se retroalimenta. Quanto mais intensa é a pessoa, mais intensa é a emoção que precisa sentir para perceber algo diferente, e quanto mais precisa para sentir, mais o ajuste da régua emocional se mantém no lugar onde está, ou seja, mais a pessoa precisa de emoções intensas para reagir. Do mesmo modo acontece para o oposto: as pessoas mais sutis sentem os detalhes com mais facilidade e, quanto mais fácil é de perceber, mais rápida é a reação, logo a pessoa reage às sutilezas rapidamente.

 

Temos duas maneiras básicas de nos desenvolvermos emocionalmente:

  • Vivendo as experiências que nos gerem as emoções, momento em que as sentimos e reagimos;
  • Estudando a nós mesmos e as emoções.

O ser humano não é bom em analisar e pensar, apenas em reagir e, por isso, costumamos a viver da forma número 1, reagindo aos estímulos, às nossas emoções, aos acontecimentos, numa vida passiva onde não somos o agente de transformação ou criação, apenas o agente passivo que reage somente quanto provocado tal como um animal selvagem que reage instintivamente. Veja mais em A normalização da passividade.

 

Quanto mais temos consciência do que fazemos, do que pensamos e do que sentimos, mais possibilidades temos de reagir bem como temos mais assertividade nas ações que ESCOLHEMOS ter em vez de apenas reagir. Em outras palavras, termos consciência ou conhecimento sobre o mundo, incluindo nós mesmos já que somos parte do mundo, maior é nosso poder de ação sobre a vida que temos e isso significa que temos mais oportunidades de criar os cenários que desejamos.

 

Perceber as próprias emoções é um desafio muito difícil. requer concentração, muita atenção, energia, tempo, disposição e autoanálise, coisas que pessoas intensas não costumam ter. Contudo, nos tornamos bons em tudo que nos dedicamos porque aprendemos, então a dedicação em estudar a nós mesmos nos leva a sermos bons em entender a nós mesmos, a saber o que sentirmos, o que queremos, o que não queremos e isso é fundamental para criarmos as vidas que desejamos.

 

Tenha consciência e crie a vida que deseja em vez de esperar que alguém lhe dê. O caminho pode não ser fácil, mas depois de começar a ter os primeiros resultados planejados, os próximos passos ficam mais fáceis com os resultados desejados. A vida começa a “entrar nos eixos” e quanto mais controlada (programada) é, menos emoções intensas se tem, então é preciso aprender a sentir as emoções mais brandas e assim a vida se transforma de um caos reativo a uma vida tranquila por ser planejada.

 

Você pode esperar que aconteça algo para você experimentar novas emoções ou pode se esforçar para sentir a si mesmo e identificar as emoções que têm, de onde elas veem, o motivo e quais os gatilhos que as ativam. Sabendo disso, basta evitar os gatilhos que estimulam sensações ruins e ativar os gatilhos que produzem sensações boas.

 

A vida é simples, um resultado lógico entre o que sentimos, pensamos e fazemos. Só precisamos ter consciência desse sistema para o dominarmos.

 

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *