Acostumados a vermos dinheiro sendo trocados por diversos objetos e serviços, associamos o seu poder de compra e, assim, acreditamos que ele tenha valor. Muito valor. No entanto, isso não é bem verdade.
Se formos para outro país e levarmos o dinheiro em nossa moeda, provavelmente não conseguiremos adquirir nada uma vez que a nossa moeda não seja valorizada neste país em questão. Não importa o quanto de dinheiro tenhamos, não tem valor algo e não conseguiremos comprar nada.
Por outro lado, da mesma maneira que vendemos nossas ideias e mão de obra em nosso país, podemos fazer o mesmo no outro país e adquirir o dinheiro local. Isso mostra que o real valor está em nós, não no dinheiro.
Podemos trocar riquezas, produtos e serviços sem usarmos dinheiro porque a verdadeira riqueza não está na moeda, mas nos produtos pelos quais ela é trocada.
Além disso, quanto mais valiosa é a nossa oferta, mais as pessoas estão disposta a abrir mão de seu dinheiro para adquirir a nossa oferta mostrando o valor que possui.
A verdade é que o dinheiro é uma maneira de quantificarmos o valor de algo, não o valor real. Como mensurar o valor de um produto? Qual comparação devemos fazer para fazer tal análise? Como comparar se não há outro produto similar com algum tipo de número para termos ideia de seu valor?
A busca pelo produto com o menor valor, um comportamento comum no ser humano porque buscamos o máximo de benefício com o mínimo de custo/esforço, é exemplo de como não conseguimos mensurar o valor de um produto por ele mesmo. Nós buscamos produtos similares e os seus preços para termos noção do quão valioso ele é. Quem olha para um produto e apenas decide quanto está disposto a pagar por ele sem perguntar o valor monetário do mesmo?
E como o vendedor calcula o seu preço? Avaliando o valor de produção e o quanto o mercado está disposto a pagar.
Há muitos produtos que são baratos para serem criados, no entanto, com o mercado pagando alto por eles os vendedores elevando o preço por saberem que venderão. Caso isso não aconteça, eles abaixam o preço até que chegue ao valor que o mercado aceita pagar por eles conferindo o valor dos produtos.
Dessa forma, quem confere valor ao produto não é o produtor, nem o vendedor, mas a população que o consome e se disponibiliza a pagar por ele.
Nós somos os produtores de riquezas bem como os avaliadores das mesmas num ciclo complexo de inúmeros indivíduos que definem os preços sem que se deem conta porque cada um está forcado em si mesmo.
Somos livres para comprar o que desejamos, mas só fechamos negócio quando o vendedor aceita a nossa oferta (num mundo não violento), isto é, ambos os lados precisam aceitar o valor a ser trocado pelo produto.
Há quem ache caro uma refeição individual por R$50,00, mas há quem esteja disposto a pagar tal valor e isso depende da situação geral desde o quanto de dinheiro a pessoa tem, o quanto pode gastar, quão faminta está, se há outras opções mais baratas… O dinheiro não tem valor algum, o que tem valor é a refeição.
Outra prova disso é a inflação que acontece quando há mais dinheiro do que riqueza. Como essa ideia é abstrata e muitas pessoas pensam em economia como algo grandioso como no tamanho de um país, não em si mesmas, vejamos um exemplo:
Suponha que há 1 bolo retangular simples e duas pessoas. Podemos dividir esse bolo em duas partes iguais e cada uma ficar com um pedaço. Cada pedaço será a metade do bolo original e, sendo grande, ambas terão bastante bolo para comer. E se o bolo for um simples cupcake? A metade de um cupcake certamente é menor do que a metade de um bolo e cada pessoa terá menos bolo, mas ainda assim, metade dele.
Isso mostra que, de acordo com o tamanho do bolo (da riqueza), a fatia (fração) tem um valor proporcional igual, no entanto possuem valores absolutos muito diferentes e são estes que impactam nossas vidas.
A metade de um bolo comum mata mais fome do que a metade de um cupcake, mas ainda assim é uma metade.
Agora suponha que haja mais uma pessoa totalizando 3. O bolo fatiado igualmente para 3 pessoas ainda é suficiente, mas o cupcake passa a ter uma fatia consideravelmente menor, mesmo representando o mesmo 1/3 do total.
Agora imagine que há 10 pessoas para comer o bolo. O bolo grande possui 10 fatias iguais e todas elas menores do que as iniciais que eram de metade. O bolo de cada um não enche mais tanto a barriga de cada, mas o total permanece o mesmo. Enquanto isso, o cupcake sequer consegue ser repartido em 10 partes iguais por ser pequeno demais.
No próximo cenário temos 50 pessoas para comer o bolo. Com fatias pequenas, cada um consegue ter uma amostra do bolo para sentir um pouco do gosto, mas certamente não matará a fome de ninguém. Já o cupcake deixou de ser bolo e virou uma distribuição de farelo que não tapa nem o buraco do dente.
Os bolos continuam com o mesmo tamanho (riqueza). Repartir para mais pessoas (produzir mais dinheiro) não faz com que todas recebam o mesmo pedaço original que equivale a metade do bolo, apenas com que cada porção seja menor e o mesmo vale para o cupcake.
Não importa por quanto dividamos o bolo, ele ainda permanecerá com o mesmo tamanho. Então, para elevar a quantidade de bolo para cada pessoa tem-se 2 opções:
– aumentar o bolo total para que, quando dividido, tenha pedaços com tamanhos suficientes para todos comerem bem;
– reduzir a quantidade de pessoas pelo qual o bolo é dividido.
Numa sociedade a segunda opção é rara (senão impossível), então resta a primeira opção. É assim que o dinheiro funciona: representa uma parte da riqueza, portanto, se esta for pequena, não importa por quantos será dividida, continuará pequena.
Outro exemplo é colocar mais água no feijão quando há mais pessoas para se alimentar do que alimento realmente. A quantidade de feijão não muda, apenas a quantidade de água. Contudo, como o volume de água do alimento enche a barriga, é possível que nos sintamos saciados com menos feijão (caroços) e é assim que nos enganamos quanto à quantidade e ao volume da comida.
Mas este macete não dura muito. A água é absorvida mais rápido, logo, se há mais água no feijão sentiremos fome mais rápido e, portanto, teremos de nos alimentar mais vezes.
Quando este macete é usado para dividir o alimento por mais 1 ou 2 pessoas e há excesso não sofremos com ele porque teremos alimento para depois, quando ficarmos com fome. Já quando o feijão é selecionado para uma quantidade determinada de pessoas, qualquer repartição a mais impacta em todos se alimentar-se-ão dele. Assim, várias pessoas “abrem mão” (deixam de receber) de uma pequena parte que talvez não seja percebida por ser muito pequena e mais uma pessoa se alimenta. No entanto, se for para dividir o feijão com mais várias pessoas, todas sentirão o impacto de terem menos feijão e mais fome.
A quantidade de feijão permanece, mas a quantidade de caroço por pessoa foi reduzida ao repartir a mesma quantidade de feijão por mais pessoas.
Como vemos o feijão com o caldo, nossa mente entende ser alimento, não água com alimento e, processando esse “dado”, concluímos que há mais feijão, mas há somente mais caldo.
Este é um dos métodos que são usados para manipular e enganar as pessoas porque não temos a visão clara do que é água e do que é feijão.
Ademais, para os que chegam e não participam do processo de cozinhar o feijão, não sabem quanto de feijão realmente há. Eles sabem apenas o que recebem e quanto outras pessoas ao seu redor também recebem. Ao ver que tem uma quantidade similar à das pessoas ao seu redor, conclui-se que fora feita uma divisão em partes iguais e que todos tem pouco feijão. Mas quem garante que a cozinheira não pegou mais para ela? Afinal, ela quem cozinhou e teve o trabalho de servir, por que não deveria receber mais? E quem comprou o feijão, não deve receber mais por isso? Por outro lado, e quem está com mais fome, mesmo não tendo feito nada, não merece receber? Talvez se for um parente, um familiar… E se for um desconhecido em um lugar distante?
Ademais, nós participamos da produção do feijão ou não?
Nós trocamos riquezas por dinheiro, dinheiro por riquezas e riquezas por outras riquezas, mas não trocamos dinheiro por dinheiro porque o dinheiro vale o que vale enquanto produtos diferentes podem possuir a mesma riqueza e, então, serem trocados.
Nós compramos e vendemos riquezas, mas não compramos dinheiro.
Por que temos dificuldade de entender isso?
Como analisar e quantificar uma riqueza? É muito difícil, no entanto analisar números é mais fácil porque basta compará-los e identificar o que tem um número maior e concluir sem esforço ou perda de tempo que o maior número é o mais caro. Dessa forma, usamos o dinheiro (números) para quantificar as riquezas já que não conseguimos fazer por nós mesmos e ficamos refém deste sistema por nossa incapacidade de mensurar as riquezas.
Itens que estão à venda e que não gostamos não nos não são riquezas para nós. Mesmo tendo dinheiro, não nos sentimos confortáveis em abrir mão de nosso dinheiro por tal item, portanto, para nós, este item não é uma riqueza.
Por outro lado, há coisas que desejamos e não temos todo o dinheiro necessário para trocar pela riqueza que desejamos. É fácil imaginarmos e falarmos “se eu tivesse dinheiro… compraria”. Neste caso, nós concordamos que a riqueza desejada é valiosa e que trocaríamos o valor monetário por ela se o tivéssemos reforçando o valor da riqueza em questão.
A pobreza é a ausência de riqueza, não de dinheiro.
Vendemos e compramos riquezas, mas não compramos nem vendemos dinheiro.
Há quem diga “compramos dinheiro ao fazer empréstimo”, mas isso não é propriamente comprar dinheiro, mas comprar crédito, uma espécie de nota promissória que garante que o valor emprestado será devolvido com juros. Estes juros, visto como “venda” de dinheiro nada mais é do que o valor do crédito dado ao cliente. A pessoa recebe um determinado valor (empréstimo) e paga o mesmo mais os juros no tempo acordado, isto é, no crédito firmado.
O dinheiro é uma forma de facilitar a análise do poder aquisitivo da riqueza em uma sociedade e facilitar a troca de mercadorias ao ser o intermediário uma vez que tudo pode ser convertido em dinheiro e dinheiro pode ser convertido em tudo, mas nem tudo pode ser convertido em tudo diretamente.