O ser humano desenvolve a percepção de si e do mundo bem como de si no mundo. Isso depende de suas capacidades bem como de suas crenas. O fato é que surgimos no mundo com a percepção limitada de que o mundo é nós mesmos.
O bebê não percebe os outros ou as necessidades dos outros, apenas as suas e, ainda assim, confusas. Por conta disso precisa de alguém que lhe ofereça tudo o que deseja e essa percepção de mundo é comum a todos.
Conforme crescemos, nos deparamos com outras pessoas como os familiares com quem convivemos. É na convivência e das lutas diárias entre o eu e o ele que aprendemos que os outros também possuem necessidades e buscam satisfazê-las bem como não conseguem se satisfazerem completamente tal como nós.
Aprendemos a trocar: trocar favores, ajudas, elogios, desabafos, atenção e tudo o mais que desejamos ter e o outro deseja obter. Mas o mundo não termina nos nossos familiares, percebemos que há vizinhos e colegas de escola e trabalho e da mesma maneira complicada que lidamos com quem convivemos em casa, lidamos com os demais.
É assim que a nossa consciência sobre o mundo se expande: conforme percebemos os outros ao olhá-los e não limitarmos a nossa percepção a nós mesmos, isto é, não valorizarmos somente a nós mesmos.
Esse desenvolvimento acontece aos poucos, do nosso círculo pessoal para os mais distantes e desconhecidos. Quanto mais egoísta é a pessoa, mais preza por si e, em segundo lugar, pelos que a rodeiam e a influenciam diretamente. Quanto menos egoísta, mais a pessoa percebe que o mundo é feito por pessoas como ela que precisam de várias coisas e que todos trocam para conseguirem o que desejam.
Embora todos nasçamos com a mesma percepção, nem todos a desenvolvem ao ponto de perceberem-se realmente no mundo. As pessoas mais egoístas se focam demasiadamente em si mesmas e desconsideram as demais razões o suficiente para buscarem vantagens pessoais em prejuízo de outrem.
Os golpes, a corrupção, as mentiras e os enganos são expressões dessa perspectiva muito limitada a si mesmo. Pessoas ricas e velhas continuam a não se importar com o mundo no qual está inserida como se ela não estivesse nele. Com o foco total em seus prazeres e suas satisfações, nada mais lhe importa, então o prejuízo dos outros não as incomodam.
Por outro lado, adolescentes e até mesmo crianças percebem que o mundo é comporto por muitas pessoas e que tudo é resultado das relações entre todos tendo os grupos afetando outros e a maioria, portanto, o bem-estar do outro é uma forma de criar o próprio bem-estar enquanto o mal-estar alheio pode lhe provocar algum dano.
As percepções limitadas desprezam os desconhecidos e grupos sociais distantes, no entanto, todos estão interligados. Não enxergar a ligação de todos com todos não a faz desaparecer, significa somente que somos cegos e incapazes de perceber a realidade.
Muitas pessoas desprezam os pobres e moradores de rua como se fossem pessoas que não lhes dizem respeito e quem não se importam, por outro lado, não querem moradores de rua nas regiões em que passam ou moram, contudo, se muitas pessoas não têm lares acolhedores, elas vivem nas ruas e prejudicam esses ricos visualmente e emocionalmente ao gerarem descontentamento e sensação de insegurança. Este é um exemplo como classes tão adversas e aparentemente distantes estão interligadas e o que afeta um afeta a outro por consequência. Mas as mentes pequenas, que se restringem apenas a si mesmas quando muito aos familiares próximos, ignoram essa ligação.
Se não nos importamos com vizinhos ou com o nosso país, por que nos importarmos com pessoas de nações diversas ou de outros continentes?
O poder de influência das pessoas e dos grupos é maior do que percebemos. Somos influenciados por tudo: músicas que importamos, comércio proveniente de outros países, alimentos que consumimos… Tudo gera influência, então se um povo exporta algo, outro o importa e, então, fica sob influência do produto importado. É assim que países com grandes exportações influenciam diversas culturas sem violência, mas ganhando poder sobre elas.
Os aplicativos de compras internacionais ou de locais específicos são exemplo de como importamos objetos de outras culturas além de descobrir mais sobre elas. É na própria página de produtos que descobrimos o que o outro país gosta, tem e acha normal e, após visualizarmos muito, passamos a normalizar também, portanto, a nossa cultura é alterada.
Vídeos em plataformas digitais influenciam os expectadores com a sua língua, sotaque, edições e tudo o mais que os vídeos expõem influenciando os expectadores a desejarem (ou não) os produtos apresentados. Em tempos passados, quando não se tinha acessos rápidos sobre outras culturas, éramos mais limitados e não sabíamos o que mais havia no mundo. Agora, com a agilidade das mídias, logo descobrimos uma novidade em outros lugares e a desejamos também a importando em forma concreta ao comprarmos ou de forma abstrata, ao incorporarmos em nossas ideias.
A influência é global, não local, mas muitas pessoas não percebem e até chegam a negar tal acontecimento. Estas pessoas ainda são muitos restritas a si mesmas relevando quando se trata de pessoas de círculo próximo, os agregados emocionais.
Ao crescermos ou convivermos muito com determinadas pessoas, as relações se misturam em vários aspectos sendo um deles o emocional. Com o vínculo formado, o bem-estar do outro de alguma forma nos impacta e, por conta disso, passamos a desejar o bem para o outro, um egoísmo indireto.
A percepção mais restrita e limitada é da pessoa que realmente não se importa com mais ninguém. Sendo uma sociedade a criação da humanidade que permitiu a sua existência e tem a base a relação social, tais pessoas são vistas com desconfiança e medo. Como confiar em uma pessoa que não se importa com os demais?
Depois dessa restrição total, surge a restrição exclusiva em que a pessoa se importa quase que totalmente consigo, mas releva com as pessoas próximas principalmente com os filhos que são sentidos como partes ou extensões de si mesma. Outros familiares próximos também podem ser sentidos dessa maneira como irmãos ou pais.
Essa percepção é super comum, embora não seja aceita ou assumida. Com a ideia de controlar os outros como algo negativo, as pessoas não querem ser vistas como tal porque prezam por suas reputações, isto é, serem bem-vistas pelos outros. No entanto, o comportamento de não aceitação do outro prova a realidade.
A vergonha de ter algum parente que não age conforme o desejado e a revolta por ter alguém que tem um comportamento “errado” (descubra o que é realmente certo ou errado COLOCAR LINK DE 7/5/25) são provas claras de que interpretamos esta pessoa como parte de nós e que, portanto, deve nos obedecer.
Os filhos são exemplos claros e vivos dessa ideia: eles fazem o que os pais permitem, vestem o que os pais escolhem, comem o que os pais determinam, estudam o que os pais optam. Os filhos apenas obedecem, mas isso muda conforme crescem e aumentam as suas habilidades (principalmente de cuidarem de si mesmos). Dessa forma, se os filhos apenas obedecem, eles fazem o que permitimos e, portanto, o comportamento que possuem é diretamente resultado de nós favorecendo a ideia de que são partes de nós e que devem permanecer obedientes.
A adolescência costuma ser marcada pela luta pelo poder na relação entre os adolescentes que passam a terem suas próprias ideias e os pais que tinham o controle do adolescente até então.
Esse período de maturidade para os dois lados da relação é importante para que as pessoas percebam e distingam os próprios limites sobre o outro. Sempre temos como influenciar o outro, mas controlar está em outra escala.
Enquanto adolescentes, nós passamos pelo período em que desejamos não sermos mais de nossos pais e queremos ser de nós mesmos; enquanto pais, queremos continuar com o controle dos filhos. Passando pelos dois lados da relação, temos a oportunidade de aprender várias vezes e de diversas formas, mas muitos ainda preferem continuar lutando pelo poder sobre o outro.
A busca pelo poder é a capacidade de ordenar e ser obedecido. Para as pessoas mais carentes, o poder é o ideal de vida porque, sendo carentes, não têm capacidade para se satisfazer e precisa que outros o façam tal como um bebê. Velho, adulto, jovem ou criança, essa percepção é nutrida pelas próprias carências e pelas experiências de vida que a favorecem ou não. Pessoas carentes que lidam com quem não se deixa ser controlado aprende que não tem tanto poder sobre o outro quanto gostaria, já as que conseguem manipular os demais usam de suas habilidades sociais para manter tal controle e a família é o local onde tudo isso se desenvolve em primeira instância.
As relações de carinho e raiva ou de amor e ódio são normais nos seres humanos e até mesmo benéficas. Relações sem conflitos ou esforço são relações vazias e tediosas que prejudicam mental e emocionalmente os envolvidos ainda que sejam idolatradas e fantasiadas como o ideal para quem vive no inferno de relações conturbadas.
A convivência faz com que as pessoas tenham de se ajudar mutuamente, mas os defeitos que entram em atrito criam conflitos e confusões. Enquanto amamos alguém por nos fazer feliz em algum aspecto, a detestamos por nos fazer infeliz em outro e este é o tipo de relação que temos com a família e quaisquer outras pessoas porque ninguém nos complementa completamente.
Sendo a família o nosso berço de origem, precisamos dela para sobreviver e nos desenvolver, contudo, há características que não conseguimos aceitar ou lidar e entramos em colisão nutrindo carinho, agradecimento, preocupação, amor, raiva, nojo, desprezo e quaisquer outros sentimentos criados e nutridos pelas percepções do indivíduo em relação ao outro.
É essa mistura de sentimentos que nos deixam confusos e dificultam identificar a relação que temos com o outro.
Com tudo isso, temos:
– gratidão por sermos cuidados;
– carinho por sermos queridos;
– raiva por não sermos ouvidos;
– inveja por não sermos tão bons quanto o outro;
– respeito por admirarmos as qualidades do outro;
– solidão por não sermos compreendidos;
– inferioridade por sermos desprezados;
– e a lista continua.
A relação com as autoridades familiares é de subordinação e, mesmo que o filho cresça e tenha a sua vida independente, a relação de subordinação alimentada pelos primeiros longos anos de sua vida permanece, então a opinião dos pais não são meras opiniões, mas informações importantes a serem levadas em consideração e não devem ser ignoradas até porque ignorá-las é como ignorar os próprios pais e isso não se faz com o líder ou chefe e são como os vemos quando jovens. Exemplo disso são as relações de dependência dos filhos com os pais mesmo morando separados ou com suas responsáveis por suas vidas.
Com grande parte das pessoas no primeiro degrau de desenvolvimento, elas se restringem a perspectivas de si mesmas, portanto, veem tudo em relação a elas.
Os pais são exemplos claros dessa perspectiva pequena e restrita: nós os vemos com pai e mãe, não como homem e mulher, como pessoas com defeitos e qualidades e características de personalidade como quaisquer pessoas. Nós os definimos pela relação que temos com eles associado à idealização que temos sobre eles, então concluímos que mãe deve cuidar de nós (filhos), por exemplo e não pensamos que, como qualquer pessoa, ela tenha os sonhos objetivos, dificuldades, carências e sucessos. Nós vemos somente a parte que queremos e podemos ver que é justamente à relacionada ao tipo de vínculo que temos com ela.
É com essa perspectiva de nós ema relação aos outros que julgamos as pessoas que possuem mais do que nós como ricas, pessoas com mais recursos como pessoas com oportunidades enquanto nós não as temos, pessoas que possuem o que desejamos como pessoas felizes e por aí vai: sempre analisando o outro em relação a nós, não a eles mesmos.
É assim que vemos os nossos pais como nossos responsáveis e até culpados por nossa infelicidade, os nossos irmãos como pessoas próximas que devem nos auxiliar e nos guiar, nossos tios como uma espécie de “substitutos” de nossos pais e o mesmo vale para os primos em relação aos nossos irmãos. Tudo voltado para nós.
Como convivemos em sociedade (grande como uma nação e pequena como uma família), sempre lidamos com os outros que também enxergam o mundo da sua própria perspectiva, portanto, enquanto os vemos como pessoas que devem prestar ajuda, eles também nos veem dessa maneira.
A sensação de proximidade e posse sobre o outro não é somente derivada da luta constante por poder sobre ele (que acontece mais em famílias) e a influência que temos sobre ele, mas da própria linguagem que usamos.
Os pronomes possessivos (meu, teu, dele, nosso, vosso, deles) usados para indicar ligação entre as pessoas salientam essa ideia alimentando-a sempre que usamos. Ao usarmos muito, alimentamos cada vez mais a perspectiva de posse. Assim, temos percepções simultâneas de posse e de indicação.
Aplicando a ideia sobre objetos, temos:
– a MINHA casa é branca (indicação de posse);
– as MINHAS roupas são confortáveis (indicação de posse).
Aplicando a mesma ideia como referência/ligação:
– a MINHA escola é grande (indicativo de local);
– a MINHA nação é unida (indicativo de qual nação).
Ao usarmos o mesmo pronome com a intuito de indicar a relação com a pessoa, inevitavelmente interpretamos como indicação de posse também:
– o MEU namorado é legal (indicativo de relação) à o namorado é MEU (sensação de posse);
– a MINHA família fala alto (as pessoas de convívio próximo) à as pessoas da MINHA família falam alto (sensação de posse).
Além do pronome usado, temos a natureza de buscar possuir tudo para que controlemos tudo, assim, podemos controlar os prazeres e desprazeres que temos selecionando o que desejamos e alcançando a satisfação.
Ao virmos de uma família, é nela que buscamos o poder inicialmente porque é quem temos contato. É controlando os pais que conseguimos alimento, moradia e segurança porque não conseguimos por nós mesmos e é com essa ideia, mesmo que inconsciente, que seguimos a vida até amadurecermos e subirmos mais um degrau no desenvolvimento pessoal. Infelizmente muitas pessoas continuam neste primeiro degrau e buscam sempre controlar os demais para conseguir o que desejam porque são incapazes de criarem a própria satisfação.
É com essa ideia que tantas pessoas lutam pelo poder na ralação e buscam posições políticas: para controlar o(s) outro(s) e fazê-lo agir de maneira a lhe beneficiar.
A sensação de posse é mesclada com o que vivemos e conseguimos entender que o que é do outro também é e deve ser nosso porque é assim que aprendemos enquanto crianças.
A casa é dos pais que pagam por ela, mas a criança entende que a casa dela e essa ideia é reforçada rotineiramente por família, vizinhos e ideais sociais. Da mesma maneira, a comida e os objetos em casa, conseguidos pelos responsáveis, são divididos e os demais integrantes da família usufruem alimentando a ideia de que o que é do outro (dos responsáveis) também é deles e com essa ideia muitas pessoas que não se desenvolvem pessoalmente caem na armadilha de acreditar que esse sistema que funciona dentro da família com quem temos relações próximas e diretas pode ser feito em larga escala na sociedade como um todo. Isso mostra o quão infantil essas pessoas são e que busca substitutos dos pais para lhes prover tal como era quando crianças.
Com todas essas sensações misturadas, acreditamos emocionalmente que as pessoas com quem temos contato próximo são pessoas sob o nosso controle porque temos influência sobre elas de algum modo. É trocando e oferecendo prazeres e soluções que cultivamos relações benéficas ao mesmo tempo que fazemos o outro sentir que nos deve algo ou uma vontade de retribuir, portanto, fará o que puder para nos gerar bem-estar.
A relação direta, mesmo sem qualquer palavra, gera uma sensação de proximidade. O simples contato visual pode ser reconfortante ou intimidador nos fazendo sentir bem e protegidos ou mesmo agredidos e violentados. A relação é iniciada antes mesmo de termos consciência sobre ela: são com os nossos sentidos e processos inconscientes que interpretamos o outro e agimos de modo que julgamos adequado à situação e ao que desejamos nesta relação. Se desejamos algo, tratamos o outro com gentileza, se desejamos impor medo, somos agressivos.
É assim que conseguimos influenciar desconhecidos: ofertando bem-estar ou mal-estar a eles.
Com toda essa mistura de sensações e pensamentos inconscientes que reagimos à vida e interpretamos as pessoas que temos acesso diretamente como pessoas sob a nossa influência e controle, portanto, nossas. É por conta dessa percepção que sentimos vergonha de alguém que se comporta mal ou nos sentimos confrontados ou mesmo desafiados quando não agem como desejamos que agissem: nós temos a sensação de que são nossos, partes de nós, que controlamos, portanto, devem agir como nós queremos.
O problema é que as pessoas não apenas são diferentes, mas muitas compartilham dessa mesma visão sobre si, logo, o conflito com alguém que acredite que ela deva obedecê-lo enquanto ela mesma acredita que o outro deve obedecê-la acontece de forma inevitável.
Temos ideias de individualização em que todos têm as suas peculiaridades e que devemos respeitar porque desejamos sermos respeitados por nossas particularidades, no entanto, desejamos que o outro seja de uma maneira específica a nos agradar e ele também deseja que ajamos de modo a satisfazê-los.
Enquanto podemos dominar um objeto sem resistência dele contra nós, nós buscamos esse mesmo poder sobre os demais, principalmente os mais próximos. Nós sentimos que são partes de nós como se fossem extensões de nós mesmos, dessa forma, são agregados emocionais: não são partes de nós, mas nos atingem emocionalmente como se fossem.
É assim que o sofrimento de um parente próximo nos angustia também como o seu sucesso nos gera alegria. Não são nós, mas é como se fosse.
Se por um lado é ruim essa percepção restrita, por outro é ela mesma quem amplia os nossos horizontes mesmo contra a nossa vontade porque o bem-estar do outro nos influencia bastante, assim, prezar pelo bem-estar do outro passa a ser algo importante para nós ampliando a nossa perspectiva de que apenas nós individualmente não é importante, mas que as pessoas ao nosso redor também o são.
É dessa maneira que abrimos mão do egoísmo e entramos no egocentrismo: deixamos de ser a única coisa importante para sermos o centro com satélites ao redor que também são importantes para o centro.
Quanto mais egocentristas somos, menos egoísta somos. Enxergamos o outro, os demais e percebemos que o mundo inteiro é composto por pessoas como nós que criam e fazem o mundo acontecer.
Somos o centro de nossas vidas, mas não a coisa mais importante do mundo;
Vemos que os demais têm as suas relevâncias;
Percebemos que as relações de todos interferem no todo;
Entendemos que precisamos ser o melhor que podemos para colaborar com o todo;
Enxergamos a nossa pequenez diante do universo;
E a nossa gigantesca presença em escala menor, mas que influencia o universo inteiro.
Todos são importantes, cada um em sua escala e posição, e passamos a valorizar mais os outros de modo a nos mantermos no centro como foco de nossas vidas, mas que há muito além do que as nossas satisfações no mundo.