Temos a tendência de acreditar que nossos desejos não sejam apenas sensações reais, mas fatos concretos que não podem ser contestados ou refutados.
Experimentamos o mundo através do corpo que temos. É através da visão que concluímos formas e cores; do tato que descobrimos texturas; do olfato que sentimos odores; do paladar para sentir gostos; audição para sentir as vibrações que identificamos como sons; e vários outros sensores que nos permitem sentir o mundo externo e interno.
Sabemos se há algo de errado com nossos corpos através de vários sensores internos, sentimos ardor ou dor ou carinho dependendo da intensidade da força aplicada em nossa pele e sentimos alterações internas provenientes dos processamento de diversos sensores.
Por conta disso concluímos que tudo o que sentimos seja real, porque é real para nós. Contudo, pode não ser para o outro.
Podemos sentir uma arranhada como uma lesão enquanto outra pessoa a sente como carinho e essa diferença de interpretação varia de acordo com as particularidades de cada corpo e como ele está no momento para processar a informação que lhe chega.
Por sermos de uma mesma espécie, temos muitas características comuns que nos leva a acreditar que sejam corretas, afinal se nós e os outros acham ser certas, nós concluímos que seja sem questionar o assunto.
Assim, se todos enxergam o sol como amarelo, concluímos que assim o seja. No entanto, se sairmos das condições terráqueas, os mesmos olhos e cérebro que antes identificavam a cor do sol como amarela passam a vê-lo como branco. Isso mostra como as nossas sensações são relativas: dependendo das condições em que estamos e qual corpo temos, interpretamos o mundo de uma forma diferente. Da mesma forma que podemos ver o sol de cores diferentes, pessoas cegas não o enxergam, no entanto, por serem a minoria e ouvirem muito sobre o sol pela perspectiva dos outros, concluem que deve ser como os outros o veem. Isso mostra como muitas vezes acreditamos nas histórias que ouvimos, não no que sentimos.
Por outro lado, as emoções, sensações mais sutis do que as físicas ditas, também nos é percebida como uma sensação física ao ponto de conseguirmos somatizá-las, isto é, conseguimos criar sintomas físicos do que sentimos emocionalmente. Por se tratar de sensações, as interpretamos como as outras acreditando serem reais e concretas, exceto quando ouvimos muito outras perspectivas.
É nessa dúvida que mora um perigo psicológico comum: desvalorizar as próprias emoções enquanto valida as das outras pessoas criando uma opressão por si mesmo, mas que mal interpretada como se fosse os outros quem criasse essa opressão, ou seja, nós escolhemos desvalorizar a nossa própria sensação e culpamos aqueles de quem concordamos como se fossem os nossos opressores.
Em dinâmicas de relacionamento com pessoas fracas emocional e psicologicamente, estas são facilmente manipuladas e desvalorizar a opinião e a sensação delas é uma maneira de se impor, no entanto, isso só é possível porque a própria pessoa permite. Desvalorizar a sensação de uma pessoa que não se desvaloriza não gera a possibilidade de manipulação, apenas um conflito. Por isso a importância de a vítima ser sensível ou fraca como em qualquer dominação.
Caso nos sintamos tristes e as pessoas ao nosso redor nos diz que não há motivo para nos sentirmos assim, nós nos sentimos pequenos, tolhidos e oprimidos, guardando a sensação para nós como se fosse um defeito nosso que não pode ser revelado. Embora as pessoas possam acreditar que não haja motivo para nos sentirmos tristes, obviamente existe algum motivo, nós apenas o desconhecemos.
As sensações emocionais, psicológicas, mentais e físicas são todas sensações. Conhecendo-as ou não, são o que nos fazem sentir o mundo fora e dentro de nós e temos mais certeza sobre o que sentimos quando recebemos validação e valorização bem como duvidamos quando acontece o oposto.
É assim que sentimos dúvidas sobre o que sentimos, principalmente as sensações mais sutis. Por gerar insegurança, muitos evitam essa sensação bem como se concentrarem em si mesmos para descobrirem o que sentem e o significado de suas sensações. Vários outros são motivados pelas sensações mais intensas sendo marionetes de suas próprias sensações, mas que gera a sensação de que são controlados por outras pessoas por falta de compreensão sobre suas sensações. Quando não sabemos o que sentimos ou a razão da sensação, nós tendemos a conectar a situação ou pessoa no momento que a sensação foi percebida.
As sensações são NOSSAS, portanto os culpados e responsáveis por elas somos nós. Mas por falta de controle ou capacidade de alterar a sensação ruim, nós a delegamos a outrem e nos eximimos dessa responsabilidade.
As sensações físicas são as mais compartilhadas e, portanto, compreendidas. Um corte gera dor na maioria das pessoas fazendo-as concluir que tal situação seja ruim por causa da dor. Dessa forma, quando vemos outras pessoas com corte, nós sentimos empatia que é a compreensão emocional (adquirida por termos passado por algo semelhante).
Já as sensações mais sutis, pouco percebidas e ainda menos conhecidas, possuem mais dificuldade de encontrar empatia nas pessoas porque são pessoais demais. Como outras pessoas não sabem o que sentimos, elas não têm noção de como nos sentimos, o motivo ou o que pode aliviar. Sem essas informações, cabe a elas acreditarem em nossa palavra ou desprezar como se não fosse verdade e dessa maneira muitas pessoas sofrem caladas, oprimidas e em silêncio.
Curiosamente, são estas mesmas pessoas que desejam empatia e compaixão que mais desprezam as sensações dos outros. Afogadas em suas próprias mágoas, sensações intensas, não percebem o que as rodeia, exceto se lhes gerar alguma sensação intensa o suficiente que lhes tire do transe de sua própria agonia.
Já as pessoas mais empáticas e com compaixão são as menos egoístas, que não valorizam os seus sofrimentos em prol dos demais e enxergam ou aceitam as dores alheias em vez de menosprezá-las. Por conta disso, são as pessoas mais visadas por quem sofre uma vez que oferecem validação de seus sofrimentos bem como tentam ajudar a amenizá-los. Contudo, não recebem retribuição dessas pessoas concluindo não serem boas companhias. O resultado é que as pessoas que se prendem aos próprios sofrimentos encontram apenas outras similares que aceitam ouvir as suas lamúrias em troca de ouvir as do outro criando uma relação de monólogos em que uma critica e reclama enquanto a outra concorda e depois inverte tais papeis.
Já as pessoas mais abertas, que enxergam as demais e não apenas as próprias dores, buscam não apenas amenizar as suas dores, mas evitar que se alimentem ou que aconteçam novamente e, para isso, investigam o que gerou suas dores e aprendem a lidar com este fator de modo a não mais serem feridas.
Pingback: Opinião – Filosofia 21